Simplesmente a série que reinventou o modo de se fazer TV.

Não adianta. Pode espernear, criticar e esbravejar. The Sopranos continuará sendo o grande marco que é no mundo das séries. Nunca uma série fez tanto pelo gênero. Além do mais, coube a ela instituir o início de uma nova geração de séries: aquelas que ousam apostar em temáticas pesadas, amorais ou imorais, e de um nível de excelência que até então só encontrava similar nas telas do cinema.

A história do mafioso Tony Soprano rendeu incríveis seis temporadas, dando ao seu canal, HBO, uma marca de qualidade que perdura até hoje; mesmo se considerarmos o evento Mad Men (que por sinal é um exemplo claríssimo da influência de The Sopranos na TV). Quanto à temática gângster, The Sopranos perde apenas para as obras-primas do cinema O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros (respectivamente dirigidas pelos grandes mestres Francis Coppola e Martin Scorsese).

Anthony Soprano, interpretado magistralmente por James Gandolfini, não era apenas um mafioso; era fantasticamente humano. O tipo de personagem que num momento te enche de admiração, para no minuto seguinte atrair para si todo o ódio. O melhor de tudo é que não era só ele, mas todos os personagens da série tinham grandes ambições, desejos irracionais e atitudes ambíguas que lhe conferiam uma riqueza criativa única até então na TV.

Se a proposta inicial, de por um chefe da máfia no divã confessando seus pecados e buscando ajuda para seus problemas por meio de uma psiquiatra, parecia um tanto quanto difícil demais de se desenvolver, a série soube acrescentar a trama desdobramentos que impuseram ao seu protagonista e ao restante do elenco a obrigação de evoluir. Não uma evolução como as séries costumavam fazer até então, onde somente as circunstâncias mudavam, mas uma que permitisse que um personagem quase infantil, como por exemplo, o Christopher (Michael Imperioli), se convertesse em um homem sério e altamente complexo ao decorrer das temporadas.

A família de Tony, a de sangue não a dos negócios, era composta pela sua mulher Carmela (Edie Falco), Meadow Soprano (Jamie-Lynn DiScala) e Anthony Júnior (Robert Iler). Relações conturbadas, brigas e questionamentos morais davam o tom dramático que impregnava a ligação de Tony com sua família.

Não posso me esquecer da doutora Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), que vivia constantemente no limite entre o seu dever legal e a obrigação com sua própria consciência. Afinal, ajudar um gângster a resolver seus dilemas psicológicos não reflete positivamente no mundo real. A conselheira informal de Tony travava acirrados debates com seu infame paciente, sempre em volta de uma elevada tensão sexual em seus encontros.

Quem hoje se esbalda vendo a beleza cinematográfica apresentada por Boardwalk Empire, do mesmo canal de The Sopranos, pode até não se lembrar ou não saber, mas o astro principal dela também participou desta outra série de mafiosos. No papel de Tony Blundetto, Steve Buscemi (o Nucky Thompson) atuou por 16 episódios, mostrando já ali sua afinidade para papéis polêmicos e controvertidos.

Intrigas, reviravoltas, traições, assassinatos, ambições frustradas e atingidas eram em geral comum na série, como manda o figurino de qualquer produção sobre a máfia. E foi assim mesmo que The Sopranos arrebatou o Globo de Ouro para a sua 1ª temporada (Melhor Série), um SAG Award também em sua temporada estreante (Melhor Elenco), e dois Emmys por melhor série dramática em 2004 e 2007. Fato é que só The Sopranos pode dizer de boca cheia que existe um antes e depois se levando em conta ela própria, algo como “A.S. – D.S”. Nada mais que merecido. Nada mais justo.

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