Vamos embarcar mais uma vez nessa aventura?

Saudosismo é uma característica pentelha do ser humano. É aquela que faz os mais velhos dizerem “na minha época era melhor porque…”. Isso nunca vai mudar, e quem ainda não falou, aguarde que a sua vez há de chegar.

Se bem que quem está lendo este texto porque reconheceu os personagens da foto, na certa deve ter pensado “nossa, que saudade”. E é nesse ponto que a seção “Baú das Séries” toca fundo. O passado da gente é quase sempre lindo. Não que o presente seja pior. Ele é melhor na maioria das vezes, mas esse saudosismo pentelho que vem de fábrica faz com que a gente só dê valor a alguma coisa depois de perdê-la.

E todo esse papo tem tudo a ver com essa série, que tanto brincou com o imaginário das crianças que a acompanharam. “Mundo da Lua” foi um seriado brasileiro produzido pela TV Cultura em parceria com a TV Globo, e criado por Flávio de Souza. Apresentou 52 episódios entre os anos de 1991 e 1992.

A série contava a história de Lucas Silva e Silva (Luciano Amaral), um garoto pentelho que ganha de seu avô Orlando (Gianfrancesco Guarnieri) um gravador em seu aniversário de 10 anos, logo no primeiro episódio.

Os episódios contavam situações típicas de qualquer criança dessa idade bem como assuntos familiares. Em meio a essas histórias, Lucas ligava esse gravador e se teletransportava para uma outra realidade, onde sua família se comportava de um modo bem mais divertido, segundo os desejos e sonhos do garoto.

Lucas e seu avô dividiam a casa com o pai Rogério (Antônio Fagundes), a mãe Carolina (Mira Haar), a irmã chata Juliana (Mayana Blum), e a empregada Rosa (Anna D’Lira). Rogério era um professor idealista, que pregava a liberdade a seus alunos, e por isso sofria quando tinha que ser duro com Lucas. Além disso, adorava fotografar.

Já Carolina era gerente de loja. Típica mãe que exagera em tudo, sofria para se livrar das garras de sua própria mãe, Dona Ivone, que ligava todo santo dia. Juliana tinha 12 anos e adorava discutir e criticar, especialmente Lucas. Já Orlando era um viúvo aposentado que passava o tempo construindo coisas. Era o parceiro do neto em várias de suas aventuras. E Rosa gostava de “conversar” com o locutor de rádio Ney Nunes enquanto fazia os deveres da casa.

Em alguns episódios outros membros da família apareciam, como os primos Diego e Gisela, além de tios, tias e avós de segundo grau. Lucas ainda tinha amigos que viviam em sua casa, como Fred, Edu e João Valentão. A série contou com participações de vários artistas, entre eles Laura Cardoso, Denise Fraga, Edson Celulari, Marisa Orth e Caio Blat. E eis que…

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“Alô? Alô? Planeta Terra chamando, planeta Terra chamando, essa é mais uma edição do diário de bordo de Lucas Silva e Silva, falando diretamente do Mundo da Lua onde tudo pode acontecer”.

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E aqui era onde a mágica acontecia. No momento em que Lucas ligava seu gravador, e a imagem da tv começava a girar, embarcávamos juntos com ele num universo paralelo que, sim era de mentira, mas nem por isso deixava de ser magnífico. Era como se tudo o que pensássemos se tornasse realidade diante de nossos olhos.

Todos nós éramos um pedacinho Silva e Silva, com as mesmas manias, brincadeiras e perguntas (e como ele tinha perguntas!). Todos nós tínhamos ou um pai, ou uma mãe, ou um avô, ou uma irmã parecidos com os de Lucas. Assim, a série retratava a mais pura realidade.

E foi graças a essas viagens que a série é lembrada até hoje. Muitos de vocês nem precisariam de toda a chamada. Bastava um “Alô? Alô? Planeta Terra chamando…” que o resto fluiria num passe de mágica.

Apesar de curta, a série apresentou episódios memoráveis, como o do esquadrão do sabonete atrás de um Lucas que não tomava mais banho, ou aquele em que ele queria saber como os bebês paravam na barriga da mulher, ou aquele quando ele “zera” um jogo no videogame, mas ninguém está em casa, e então o personagem do tal jogo se torna real.

Temos também aquele onde Juliana se perde na floresta e o cachorro é quem “conta” para a família o ocorrido, o da promoção do chocolate para conhecer uma famosa cantora, e aquele quando ele sonha que é filho único depois de ficar com ciúmes da irmã receber tanta atenção por causa do balé.

Particularmente, nada foi tão memorável quanto o episódio onde Lucas e Juliana estão na companhia dos primos e resolvem encenar uma versão do conto da chapeuzinho vermelho, e o Lobo Mau aparece para comer a criançada.

Como curiosidades, a série ainda teve um spin-off, “Lucas e Juquinha em perigo!”, que durou apenas cinco episódios de cinco minutos de duração cada. Lucas ajudava seu irmão mais novo nos perigos que os rondavam dentro de casa.

Além disso, a casa onde a família morava é na verdade um sobrado que até hoje pode ser encontrado na cidade de São Paulo (Rua Zapará, 97, Alto de Pinheiros). Outro detalhe é que o local ainda abriga a famosa espécie de Pau-Brasil, tombada como patrimônio ambiental desde 1989.

A série é hoje transmitida no canal TV Rá Tim Bum, mas já foi transmitida também na Globo (Xou da Xuxa e TV Colosso) e na TVE. Foi premiada em 1992 pela Associação Paulista de Críticos de Arte como Melhor Programa Infantil.

No episódio final, toda a família Silva e Silva recebe o bebê de Carolina, e cada um palpita um nome para ele. Lucas sobe para pegar o gravador, mas descobre que ele está quebrado. Seu avô diz então que ele não precisa do gravador para sonhar, pois basta usar a imaginação. Eduardo (Teodoro Haar), irmão de Lucas,  só foi incorporado à trama porque a atriz Mira Haar havia engravidado.

“Mundo da Lua” foi concebido para o público infantil, mas o sucesso fez com que ela alcançasse os adultos também. Além disso, as transmissões na Globo e suas várias reprises fizeram com que mais gente guardasse essa série com carinho em algum lugar na cachola.

Sim, a produção era bem simples, mas era totalmente compensada pelos roteiros criativos. A simpatia da série se dava também por Lucas ser muito carismático, e cheio de problemas e dúvidas comuns em todas as crianças da mesma idade. Palmas para os pais dele também.

Assim, essa série que retratava o cotidiano de uma família classe média, era narrada de forma singela, alegre e fantasiosa, abordando temas universais. E quando são universais, os temas não perdem a validade.

Se o saudosismo é inevitável, que ele sirva então para relembrarmos de séries que marcaram a nossa vida. O passado é recheado de histórias que vão sendo esquecidas momentaneamente. Mas basta uma única foto e pronto. Lá estamos nós sentados no chão, ao lado da cama, usando um objeto qualquer como gravador, e embarcando em mais uma aventura infantil. E saudade, que bate no meu coração.

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