Mercy. Uma boa série, mas que já “nasceu” subestimada.

Pode ter sido a NBC. Pode ter sido a grande quantidade de séries médicas que se tem na televisão, ou até mesmo ER pode ter feito Mercy ter uma parada cardíaca prematura, mas sem dúvida, o Grey`s Anatomy da NBC foi uma das melhores séries na Fall Season 2009-2010.

Os problemas de Mercy já começaram antes da série ir ao ar. Programada para estreiar na mid-season, Mercy foi convocada seis meses antes do previsto, por causa da mudança de um dos protagonistas de Parenthood (Lauren Graham assumiu o lugar de Maura Tierney), o que fez a série de Veronica Callahan ir à luta já em setembro de 2009. Algo interessante que poderia ter acontecido, é Maura Tierney não ter sido escalada para Parenthood, e sim Mercy interpretando uma enfermeira, novamente.  Acredito que fisgaria o público de ER e muitas indicações Estados Unidos afora. Outra possibilidade, era Mercy ser um spin-off de ER, seguindo a vida de enfermeira de Samantha Targett (Linda Cardellini), ou outro personagem.

Outro problema em vista foi Mercy, junto de Trauma, ter uma gigante carga nas costas: serem as sucessoras de ER. A aclamada série de Michael Crichton chegou ao seu fim em abril de 2009, colocando uma “pressãozinha” nas novas séries médicas da NBC. A tática foi até admirável: colocar uma série de explosões e adrenalina vista pelos olhos dos paramédicos (Trauma) que a meu ver tinha um apelo maior para o público masculino, e uma série que contasse a estória de três enfermeiras e a rotina de suas vidas dentro e fora do hospital que fisgasse o publico feminino. Mas infelizmente, em maio, elas entrarem em assistolia e ouviram os executivos declararem o horário de seus cancelamentos.

Mas o coágulo que estourou e culminou o seu fim foi o American Idol. A pulsação de Mercy estava estável até o reality voltar. Sua demo era humilde (por volta de 2.1), mas a sua audiência total conseguia ficar em alguns episódios na liderança do horário, que girava em torno de 7 milhões. Mas o Idol infeccionou a audiência derrubando a demo para 1.3 e audiência total para a casa dos 3 milhões, fazendo a pulsação ficar extremamente fraca e não ter outra escolha a não ser decretar o estado vegetativo em que a série se encontrava e ser apenas uma questão de tempo até o anúncio de sua morte. Caso a série continuasse como estava antes do Idol, acredito que teria chances de ter uma segunda temporada. Chuck, Community e Parks & Recreation também possuem as suas demos na casa dos 2 pontos e todos ganharam novas temporadas.

Mas nem tudo foi problema. Three Rivers e Miami Medical não resistiram e se despediram ainda nos primeiros passos. Já Trauma levou um choque de 300 joules voltando à vida e conseguiu sobreviver na UTI respirando através de aparelhos por mais algum tempo, porém a taquicardia era esperada assim como a luz no fim do túnel era inevitável. Mas Mercy foi uma garota forte e resistiu aos ferimentos chamados concorrentes e conseguiu ser a única série médica de canal aberto a conseguir o pedido de 22 episódios pela temporada 2009-2010.

Nos primeiros episódios vimos uma Grey`s Anatomy mal feita. Veronica tendo um affair (em Grey`s foi Dereck) com Chris (a outra foi Meredith) no Iraque, e quando retorna a Nova Jersey ela volta com o seu marido Mike (nossa Addison). Chris vai atrás dela em Nova Jersey, mas depois de Veronica dizer que ela está feliz com Mike, ele desiste e começa a dormir com a Dra. Giullian. Então, Mike descobre sobre affair, eles se separam, Veronica quer voltar com Chris, porém ele diz que já seguiu em frente, mas depois ele volta atrás e ele e Veronica começam a namorar. Depois de algum tempo, ele descobre que ela mentiu e eles se separam. Basicamente, Grey`s Anatomy, mas sem Seattle Grace Hospital. Aqui é Mercy Hospital. Opa, alguma coincidência?!

Pelos sete primeiros episódios, você se pergunta “por quê estou assistindo essa série sendo que Grey`s vai voltar em setembro?”. Mas é logo ali a partir do episódio oito que as coisas começam a esquentar. As storylines ficam mais interessantes e mais bem escritas e os personagens bem explorados nos fazendo sentir estar na pele deles. Diria que o cume foi o episódio treze, de quando Veronica está na lanchonete que é assaltada. Não tem como não querer assistir o episódio catorze logo depois e um levando ao outro, você se vê assistindo o episódio 22 querendo desesperadamente por uma nova temporada. Como não querer saber quem estava ligando para o celular de Veronica na última cena da season finale? Era noticias sobre Mike ou Chris? Bom, acho que nunca vamos saber. Essa perseguição com Grey`s não é sem fundamento. Mercy lembra muito (principalmente nos primeiros episódios) a série de Shonda Rimes. Com o tempo se distancia adquirindo uma personalidade própria. Caso você seja fã de Grey`s, não deixe de assistir Mercy. Tem até o McStemy e o McDreamy, mas é claro, com outros nomes!

Flagrado outro ponto positivo: duas gerações de atores de séries que influenciaram muitos adolescentes foram vistos juntos. Georgina Sparks saiu de Upper East Side, cruzou o rio Hudson e se tornou Chloe, a “boazinha” em Nova Jersey. Já Dawson Lerry saiu de Campeside e se tornou o “sem coração” Dr. Joe Briggs. OMG! Chloe começou apagada, mas depois começou a prender a atenção do público, sendo a personagem cômica da série. Sônia, a outra enfermeira, era durona e mandona no começo, mas depois que ela fez erros atrás de erros, vimos a personagem se desmoronar de culpa e o seu lado mais frágil ficou a mostra. A storyline dela consegue nos prender muito mais do que de qualquer outro personagem, fisgando a nossa atenção para saber qual será o seu final. Já Dawson Lerry veio junto com um mistério que pelo visto tinha planos em continuar na segunda temporada, já que não foi totalmente resolvido.

Em indicações a prêmios, creio que o único personagem com esse poder teria sido a participação de Kelly Bishop como Lauren Kempton. Sua luta para não se tornar uma paciente com osteoporose inválida foi muito bem caracterizado. Podemos sentir a sua dor. Uma curiosidade que percebi, não sei se foi por ter trocado lugar com Parenthood, ou algo do tipo, mas Mercy estava repleta de atores da série da Lauren Graham! Primeiro Erika Christensen como a paciente que apanhava do marido. Depois o Jason Ritter (o professor Cyr) como o músico que se recusa a fazer tratamento. Até Kelly Bishop, mãe de Lorelai Gilmore, como foi dito anteriormente, foi uma paciente no Mercy Hospital!

Acredito que se Parenthood tivesse estreado como era previsto no lugar de Mercy, já estaria cancelada. Mas o universo conspirou outra coisa e foi o contrário. A série capturou a atmosfera de Nova Jersey muito bem. Podemos nos ver morando lá e cruzando nas ruas enquanto vamos ao trabalho com Veronica, Sonia e Chloe. A estória ficou mais interessante com o passar dos episódios e vimos uma grande melhora na qualidade dos roteiros e dos atores e uma season finale digna de prender o fôlego: sem ser nada forçado, mas nos deixando mortos de curiosidade. Claro que a série não consegue superar os 23 Emmys ganhos por ER, mas vai deixar saudades à quem assistia. Bom, quem sabe se a Dra. Abby Lockhart tivesse visitado Mercy, a série não tivesse se reerguido e abocanhado um horário na Fall Season 2010 da NBC?!

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