Antes tarde do que nunca…
Somente depois de alguns (ok, vários, eu sei) dias da season finale de Bates Motel, eu fui capaz de realmente e racionalmente sentar, colocar meus pensamentos em ordem e escrever essa review. Peço desculpas, mas como disse ali no início, antes tarde do que nunca, não é?
Em sua primeira temporada Bates Motel, incontestavelmente, se tornou uma das melhores séries norte americanas em exibição de 2013. Esse título foi realmente merecido, afinal a série veio amparada por um roteiro ágil, tenso e cheio de possibilidades e, também, de uma produção realmente atenta aos mínimos detalhes. Sem contar que a série também teve como trunfo atuações primorosas como as de Vera Farmiga e Freddie Highmore. Portanto, depois de pensar com muita calma, eu me obrigo a perguntar: o que aconteceu com Bates Motel em sua segunda temporada?
O roteiro continuou fantástico, não posso negar, claro que dentro do que a equipe criativa se propôs a fazer nessa temporada. A produção continuou excelente e as atuações continuaram primorosas, sem sombra de dúvidas. Na realidade, nessa temporada Freddie Highmore foi capaz de dar um show ainda maior, assim como Vera Farmiga. Mesmo assim, eu, não me senti totalmente satisfeita com a série nessa segunda temporada. Entretanto, em um contexto geral, eu até entendo os motivos para o meu “descontentamento”. Estávamos tão acostumados com o ritmo da série, que, mesmo lento, entregava acontecimentos bombásticos e a nítida evolução dos personagens e principalmente da história.
Infelizmente, não foi isso que aconteceu nessa segunda temporada. O ritmo permaneceu o mesmo, mas a diferença ficou na história, que dessa vez pouco evoluiu. Na realidade evolução e emoção sufocante, características da série em sua primeira temporada, aconteceram mesmo apenas nesses dois últimos episódios.
Não, Bates Motel não ficou ruim. A série ainda é mil vezes melhor e mais completa que muitas outras séries que existem por aí, mesmo assim, não há como negar que nessa segunda temporada a série apresentou uma certa estagnação, que a longo prazo pode se tornar prejudicial, um real problema. Tudo bem que estamos vendo os passos de Norman Bates rumo à sua destruição psicológica, e esses passos devem ser dados com precaução e calma, mas fato é que muita calma não moverá montanhas e, principalmente, não segurará audiência. Vamos fazer um apanhado geral dos acontecimentos dessa segunda temporada, e assim, talvez consigamos enxergar melhor os prós e os contras dessa temporada.
O primeiro acontecimento relevante, foi quando Bradley (graças à todos os santos) foi embora e em seu lugar entrou Cody. Cody serviu para Norman se libertar um pouco mais e ganhar mais lucidez quanto aos seus blackouts, e como resultado chacoalhar, mesmo que de leve, a dinâmica entre Norman e Norma. Podemos dizer que Cody já era a caixa emocional de Norman antes mesmo dele realmente ficar preso dentro dessa caixa.
Norma continuou em sua luta para impedir a construção da rodovia. Digo que aí está, talvez, o maior problema dessa segunda temporada. Esse plot é chato demais e a meu ver nada mais é que uma grande enrolação. Quem, realmente, se importa com essa rodovia? Ainda mais quando sabemos o que acontecerá no final dessa história, e mais ainda, quando sabemos que a construção dessa rodovia é totalmente necessária, afinal, essa situação contribui, mesmo que indiretamente, para uma parte da exclusão social de Norman Bates, depois de adulto. Portanto, achei sim esse plot desnecessário, e eu gostaria que não tivesse sido desperdiçado tanto tempo nisso. Mas no final das contas também entendo que isso faz partes dos passos lentos de Norman Bates e terei que relevar, e também entendo que, talvez, essa história tenha servido mais para jogar Norma na roda do poder de White Pine Bay, e apresentá-la aos irmãos George e Christine e também à Nick Ford.
É aqui, então, que eu pergunto: qual foi a real função dos irmãos George e Christine? Por enquanto, esses dois não passaram de personagens desperdiçados e aleatórios. Só nos resta esperar para ver mais sobre eles na terceira temporada.
Nick Ford por outro lado, teve sim uma real relevância dentro da, pequena, evolução dos acontecimentos. Afinal foi Nick o responsável em comandar o melhor plot dessa temporada, o plot que envolveu Dylan, que além de caminhar em direção direta para se transformar em um dos nomes mais poderosos da cidade, finalmente enfrentou seus demônios. Se repararmos com atenção, Dylan foi aquele que mais evolui nessa temporada. Ele descobriu a raiz de todos os seus problemas de relacionamento com Norma, e essas raízes não eram superficiais. Mas o melhor é que Dylan trabalhou em cima desses demônios do passado e no final se tornou um homem real e mais forte, e inclusive até se aproximou mais da família, mesmo que essa aproximação seja somente temporária. Tenho muitas esperanças para Dylan na próxima temporada.
Pobre Nick, que queria vitimizar a família Bates e conseguiu somente ser vitimizado por ela. Norman Bates matou sua filha e Dylan o matou, ou seja, 2 x 0 para a família Bates, que mostra que com eles o “bagulho é mais embaixo”. Os Bates não deixam lugar para dúvidas, independente de quais sejam seus problemas, no final do dia eles sempre estarão lá um para o outro, e esse relacionamento disfuncional, dependente e também amoroso é, com certeza, a carta na manga da série. Mas, interessante mesmo foi perceber que Nick Ford serviu para nos lembrar que todos os membros da família Bates já mataram, pelo menos, uma pessoa cada um.
Outro problema dessa segunda temporada de Bates Motel, foi o mau aproveitamento de bons personagens secundários. Exemplo foi a participação do xerife Romero, que teve seus momentos durante a temporada, mas nada que pudesse mostrar a total força do personagem, que no final é quem eu mais quero ver evoluir. O xerife Romero é muito necessário e eficiente para mostrar o lado ambíguo de White Pine Bay, e isso é fato. Eu quero muito ver o amadurecimento do relacionamento entre ele e Norma, e espero que os roteiristas aproveitem mais isso na terceira temporada. Vera Farmiga e Nestor Carbonell têm uma sintonia que é muito agradável de ver, e é desse relacionamento que pode sair as melhores situações da série. Também quero mais interação entre o xerife e Dylan, já que os dois formaram uma dupla dinâmica eficiente no resgate do pobre e frágil Norman Bates. É interessante notar que esses dois personagens formam os diferentes lados da mesma moeda e ao mesmo tempo em que são incrivelmente diferentes, são também muito similares.
Quanto à Emma, nem sei mais o que dizer sobre ela. Essa ânsia em fazer parte da família Bates, na real, não significa nada para mim. Lembrar o quanto eu gostava de Emma na primeira temporada e então ver que nessa segunda ela se tornou totalmente dispensável e até um pouco insignificante, até dói um pouco. Pergunta: o que aconteceu com o “cupcake boy”?
Sempre soubemos que Bates Motel, de fato, é a história de como o relacionamento entre Norman Bates e sua mãe resultou na formação de um dos psicopatas mais interessantes da dramaturgia estadunidense. Portanto, não é por acaso que são nesses momentos de foco e entrega desse relacionamento que a série brilha mais intensamente. Os momentos em que Norman incorpora a sua mãe ainda são sutis, mesmo assim, já nos mostra o quão presente e forte é a insanidade na vida de Norman Bates.
O domínio psicológico e também afetivo que a Norma tem, já pode ser considerado tão intenso, que já faz Norman ser capaz de escapar de assassinatos, mesmo depois de passar pelo polígrafo, justamente com a ajuda do lado de sua mente que incorpora a mãe, tudo isso devidamente justificado pela dependência de Norman por Norma e vice e versa. Freddie Highmore faz um trabalho meticuloso e exemplar ao nos mostrar as pequenas nuances da mente de Norman Bates. Os pequenos detalhes que fazem de Norman tão horripilante. Os detalhes mais sufocantes que fazem desse relacionamento entre mãe e filho o mais tóxico e prejudicial já imaginado. Mas, principalmente, as pequenas diferenças entre o Norman real e a Norma mental. A projeção mental que Norman faz de Norma é ao mesmo tempo cruel e amorosa, ou seja, a versão de Norma feita pelo Norman é ainda mais perigosa e psicopata, enquanto nada mais é que a projeção de uma normalidade inexistente da cabeça de Norman Bates. Tudo muito complexo e mesmo assim apresentado de maneira limpa e eficaz.
Bates Motel encerrou sua segunda temporada, devo dizer, de maneira morna. Com muitos episódios dispensáveis. Claro que isso pode causar uma certa preocupação quanto a direção da série, afinal não há mais como continuar encaixando pequenos e lentos acontecimentos para mostrar a formação de Norman Bates. Logo, os roteiristas precisarão tomar um rumo mais definitivo na história, antes que a série se torne maçante ou, quem sabe, até mesmo preguiçosa, com um roteiro carregado na enrolação da entrega de acontecimentos mais relevantes.
É preciso entender que chegará o momento em que o adolescente frágil terá que virar homem e enfrentar a vida, na sua própria maneira disfuncional. Acredito que seria mais interessante mostrar o “amadurecimento” de Norman de uma vez, ao invés de ficarmos caminhado lentamente em direção ao inevitável. Claro que a partir do momento em que Norman abraçar sua insanidade de vez muita coisa deverá mudar, mas isso não é algo ruim, muito pelo contrário. Não há mais como enrolar, o menino precisa virar homem e Norman Bates precisa, de uma vez por todas, mostrar o porquê é tão assustador.
Mas sim, antes que vocês me falem, falarei eu mesma: tenha calma Fernanda. Sim, terei. Até o ano que vem, Bates Motel.
















