Baskets é com folga uma das séries mais sutis atualmente no ar na televisão americana. Seus temas são relativamente complexos, de carga dramática bastante densa, mas sempre abordados e evocados metaforicamente, em imagem, em humor. Para fãs da série, por exemplo, já é claro que uma das grandes fundações da psique de Chip vem do trágico evento da morte de seu pai, um suicídio. Mas o acontecimento em si não é presente nos episódios, é tangenciado pelos diálogos e paira como um fantasma sob os personanges, tornando os momentos em que o fato é diretamente referenciado ainda mais potentes e significativos. A sutileza é tamanha que não raramente nos surpreende. Quando Morpheus foi atropelado no final do primeiro episódio era evidente que seria um marco na vida de Chip, provavelmente o grande acontecimento da temporada, mas é ‘Ronald Regan Library’ que nos lembra o porquê – óbvio, mas tímido: Chip teme a morte, a morte dos outros, e talvez mais que isso, teme o abandono. Penelope o deixa, o pai também, a mãe sofre de um caso sério de diabetes, e a trupe de andarilhos que fora uma espécie de novo lar, agora inexiste.

Mais e mais, essa segunda temporada parece ser uma grande reflexão sobre aquilo que sempre traz Chip de volta para casa (ou aquilo que o afastará definitivamente, cedo para saber). É o quarto episódio seguido que a estrada tem papel central, simbólica da jornada, do retorno, mas também daquilo que é pré-definido, limitante e até um tanto sufocante. É também o segundo ou terceiro episódio em que assistimos o desvio de Chip desse caminho que parece inevitável, portanto protelado. É um sub-plot simples, como sempre, mas extraordinarimante belo e eficaz. Na busca de se distanciar da tragédia de Morpheus, Chip certifica-se de dar um fim na pequena flauta que lhe foi dada na saída da prisão. A busca não é bem sucedida, mas termina com o achado de algo inesperado, uma espécie de epifania no momento em que encontra os pais de Stanley/Morpheus, um vislumbre daquilo que sua própria família pode vir a ser, ou talvez já seja.

Paralelo a tudo isso, Baskets tem dado bastante atenção ao personagem de Christine, para a surpresa de ninguém. Mas nada passa como artifical, algo forçado goela abaixo dos roteiristas pelos produtores devido aos prêmios acumulados por Louis Anderson. Muito pelo contrário Mamma Baskets é uma personagem mais fascinante a cada capítulo, e a adição de Alex Morris no pequeno grande papel de Ken, traz um potencial interessante e inesperado para Christine. Bem como os filhos, Chip e Dale, Christine é também um tanto incerta quanto ao seu lugar no mundo, e por um mesmo motivo que une a família, já citado anteriormente. Ken é um acerto do time de roteiristas por que não subestima a natureza dessa personagem e lhe dá o respeito de contracenar de igual para igual, com um outro que partilha de seus dramas, mas nunca de suas experiências.

Por fim, o episódio dessa semana é também muito perspicaz na escolha do plano de fundo para a história. A figura de Ronald Regan é quase mítica no imaginário estadunidense, e em uma cultura de imagens como a americana, o ex-ator e ex-presidente é uma fonte infinita de projeções e romantizações, algo que todo e cada personagem da série parece necessitar, talvez com exceção de Ken. É também o museu da biblioteca e um clipe de algum dos filmes de Regan que serve como gatilho para a rápida fuga de Chip dos olhos da mãe, e o sorriso de outra relação paternal, o que a pequena filha de Stanley dá ao ouvir as poucas palavras que ele tem a dizer sobre o amigo, que o puxa de volta ao chão, para a audiência de finça. Chip se safa com seis meses de liberdade condicional, Cypher recebe cinco anos de prisão, mas Ken não se surpreende. I guess I always knew this day was coming, ele afirma, e o trabalho de Louis Anderson é impecável: Christine estica um braço e aperta o do filho, sentado ao lado, vestindo um terno. Para Chip ainda há tempo.

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