Em 2014 muita gente torceu o nariz para a adaptação moderna, produzida pelo terror dos críticos Michael Bay, da animação nostálgica Tartarugas Ninja. Dois anos e 500 milhões de dólares de bilheteria depois, chega nos cinemas a sequência, “As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras” (Teenage Mutant Ninja Turtles: Out of the Shadows, 2016), que aproveita todo o clima do antecessor e expande a mitologia, inserido personagens conhecidos das várias eras dos irmãos mutantes defensores de Nova York.

Após a derrota do Destruidor (ou Shredder na versão original), a cidade de NY vive em paz. Mesmo assim, as tartarugas continuam vivendo nas sombras da cidade, sempre vigilantes, mas nunca “efetivamente” presentes entre seus habitantes. Quando velhos inimigos se juntam a novas ameaças, as tartarugas terão de decidir se permanecem escondidas nos esgotos de NY ou assumem o posto de heróis que lhes pertence de uma vez por todas, em meio a uma decisão que pode mudar a vida deles para sempre.

Não há mudanças estilísticas e visuais significativas do filme de 2014 em relação a esse. As sequências de ação à la Transformers (que rende uma boa piada no decorrer do filme), o uso de câmera inserida na ação e uma cidade caótica em meio aos ataques permanecem iguais, talvez pelo dedo de Bay na produção. David Green herda de Jonathan Liebesman a tarefa de dar maior peso narrativo na trama. E isso ele faz com competência. A inserção de personagens-chave da mitologia vai além do fanservice e entram como parte orgânica da narrativa, contrabalanceando o já conhecido xeretismo de April O’Neil (Fox) e o humor batido, mas ainda eficiente de Vernon Fenwick (Arnett).  A entrada de Casey Jones (Stephen Amell, melhor do que em Arrow) como interesse amoroso de April, dá sentido a personagem além da cota de beleza e do “desfile” em frente às câmeras, mesmo que isso fique mais na sugestão do que na realidade. Bebop e Rocksteady (Gary Williams e Sheamus do WWE, respectivamente) entram como a parcela de humor da sequência. Brian Tee dá vida a um Destruidor crível, mas ainda dentro do “quê” do histrionismo quadrinista que a animação apresentava.  A única adição que talvez não dê certo seja a de Tyler Perry como Baxter Stockman, o ator/diretor não consegue encontrar o tom em lugar nenhum do filme e parece deslocado em relação aos colegas de elenco, soando caricato em demasia.

Além das adições de elenco, os cenários também são expandidos, com direito a uma passagem rápida pelo Brasil e a inclusão do caminhão de lixo, marca registrada da equipe. O grande vilão dessa sequência, no caso o clássico Krang, é um caso de costume. A concepção visual do personagem é meio estranha de começo, mas próximo do clímax as coisas ficam mais palatáveis. O problema é que quando tal momento chega o personagem é deixado em “suspenso” dando sobra para uma possível continuação. Prepare também os ouvidos, já que o design de som do filme é de deixar qualquer um imerso instantaneamente (principalmente nas sessões IMAX 3D), aliado ao visual já bem trabalhado, mas nem tão calcado no “realismo cientifico”, fruto dos mais recentes avanços tecnológicos da área.

O resultado final é um filme divertido, que cumpre com a proposta de apresentar e entreter com novas adições a já conhecida fórmula. Não espere muito lirismo do filme, que se vende e se joga na classificação “filme pipoca”, criado para divertir e absorver sua atenção durante a exibição. E no interim disso tudo ainda há espaço para discutir sobre a aceitação, de abraçar quem você é, não importa como aparente. Então prepare sua pizza, desvie algumas horas de atenção e caia de cabeça na diversão descompromissada servida. Santa Tartaruga! É mais do mesmo, mas com uma qualidade que se destaca.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Paramount Pictures Brasil 

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.