Assim que o MP3 chegou aos sites de torrents e a tecnologia p2p, ou mesmo através dos servidores via FTP (Rapidshare, Megaupload, 4Shared…), a indústria puxou os cabelos da cabeça e se disse arruinada. Fato: a forma como se consome música nunca mais foi a mesma. O jeito de perceber música – e entretenimento de uma maneira geral – foi bastante alterada. Ela (a indústria) precisou se reinventar. No início, houve choro e ranger de dentes. Afinal de contas, como lidar com uns moleques que com um código de programação simples, levava álbuns, jogos e filmes (com boa qualidade) para milhões de lares. Isso sem que fosse necessário pagar um tostão.

O Metallica, por exemplo, foi lá e arranjou um problema com o Napster. A plataforma em si não vingou, mas a ideia (ela sim, bem “perigosa”), avançou, se aprimorou e como um monstro, se profissionalizou e tornou seus tentáculos quase inalcançáveis. Mesmo que os jeitos “alternativos” estejam aí, com muita força, não dá pra dizer que belezuras como Spotify e Netflix não são maneiras honestas de consumo com a consciência limpa, certo? Barato e honesto como tudo na vida deveria ser, mas isso é assunto para outro post…

napster

Bem, o restante da história todo mundo tem acompanhado. Volta e meia, o FBI, em uma ação conjunta com governos, organizam “alguns perdidos” que rendem prisões, mas que não conseguem aprisionar o ideal libertário da música free. E isso vale, como disse acima, para tantas outras coisas. A pirataria que incomoda, é a mais combatida. Já aquela que envolve patentes e cópias que envolvem direitos industriais, recebe um tratamento protocolar, mas menos emblemático. Quem tem ouvidos, ouça.

Pois é.

Durante um tempo, o formato era a preocupação. Os profetas do apocalipse diziam que não pagar por uma canção desencadearia um problema grave. Porque sem pagar pelo resultado em estúdio, você deixaria também de dar salário a “moça do café”, ao cara da mixagem e assim, quem poderia prestar serviço a gravadora que bancava aquela proposta artística? Hoje, com o pires na mão, gravadoras abocanham um percentual dos shows por trabalharem na relação promíscua com as rádios do “toca o que eu quero, que eu te pago”. Essa é apenas – de maneira modesta – uma das formas como se dão as relações na falida maneira de se “vender” música.

Você vem ao SM e lê que em breve (dia 23/9) teremos a estreia de MacGyver, remake e reboot do clássico do canal CBS, que teve 7 temporadas e que foi exibida entre 1985 e 1992. Lê também que a série que causou mais barulho foi Stranger Things, mais uma vitoriosa iniciativa da Netflix, que produziu uma atração que além de interessante, é um ode à boa parte das produções dos anos 80. E continua sua leitura: Star Trek Beyond (sim, aquele que tinha o Dr. Spock nos anos 60), é o grande “boom” do ano no cinema blockbuster, uma vez que as produções que geravam expectativas, se não foram fiascos na bilheteria, decepcionaram boa parte dos seus fãs. Batman v Superman que o diga. Liga os rádios e os cantores brasileiros estão regravando Carpenters, Léo Jaime (aquele do Papo de Segunda), fez uma homenagem à cantora Marina (opa, mais anos 80) cantando “Charme do Mundo” e enquanto você ouvia estas canções, o mundo do rock está de queixo caído com a nova banda do momento, né? Não! Estou falando da reunião de parte da formação original dos Guns N´Roses, sim, aqueles carinhas que derrubaram o mundo com seus álbuns Appetite for Destruction (meu preferido) em 1987 (sim, há quase 30 anos) e Use Your Illusion 1 e 2 , de 1991.

guns

E dizem que não existe máquina do tempo! Como assim?

Eu citei pouquíssimos exemplos, poderia ficar com vocês nesta bagaça de viagem ao passado por linhas e linhas, mas isso seria improdutivo se eu não dissesse que se realmente o pessoal estava preocupado com a perda de dinheiro por conta da pirataria, achou um jeito fácil de fazer com que ele (o money) voltasse para as mãos deles: vamos fazer o que já fizemos de novo! Óbvio que a gente não pode entrar na neura de que isso é orquestrado de maneira uníssona. Seria simplismo e uma bobagem, mas o que está acontecendo com os setores do entretenimento que se apoiam em projetos que um dia deram certo e produzem, em larga escala, produtos com mesma assinatura? O problema é quando (se você não ligou para tudo que eu escrevi até aqui, atente pra isso) você não consegue repetir nem o êxito do que aconteceu. Vou pegar vários exemplos de produções cinematográficas e que comprovam que se não fizessem NADA, não teria feito a menor diferença: Ben Hur (2016), Conan, o Bárbaro (2011) e Os Caça-Fantasmas (2016). Três flops certeiros, que, se ao menos fizessem dinheiro, se pagavam. Coloque nesta lista aí O Vingador do Futuro, Poltergeist, Psicose, Godzila…

Dá uma olhada na bilheteria da versão feminina de Ghostbusters. O filme foi tão mal, que quando os caras lançaram o trailer ele foi para o Trending Topics pela quantidade de críticas negativas. E não é só isso: quem assistiu disse que o filme é “esquecível”, ou seja, precisava disso? Por que mexer com aquilo que é clássico?

O Conan de Jason Momoa deve estar na lista de maiores fracassos de 2011. “Ninguém” viu esse filme e sequer fez cócegas nos fãs do cara que será o próximo Aquaman. É aquele emprego que a gente não coloca no currículo, aquele “pega” que não fazemos questão de espalhar, por inúmeros motivos, mas os caras vão lá, apostam alguns milhões de dólares, para depois de 4 meses de lançamento, ele aparecer em home vídeo para tentar aplacar o prejuízo implacável.

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Ainda é cedo para falar do resultado de Ben-Hur, tanto artístico quanto financeiro, mas certamente ele não chega aos pés do clássico protagonizado por Charlton Heston em 1959. E antes que você pense: “pô velhote, aí é muita nostalgia da sua parte, vamos dar chance à molecada que não assistiu ao filme antigo.” Aqui a questão não é nostálgica, mas artística. Os caras não conseguem dizer com eficiência o que já foi dito. Simples assim. Eu até defendo que remakes e reboots sejam feitos, especialmente para filmes que tinham boas ideias e não tiveram a chance (difícil acreditar nisso, mas…) de receber uma boa produção. Quantas porcarias chegaram ao cinema contando de novo o que já fora dito e que só foram chacota de críticos e também do público, ávido pelo consumo desenfreado de qualquer tipo de película que chega para sua apreciação. Isso eu estou falando de cinema…

Você leitor do SM é sempre bem informado. Qual foi o grande reboot de série consagrada que teve vida longa na TV? Que eu me lembre 90210 da CW, uma homenagem (justa) à Bervely Hills 90210, que teve 10 temporadas, uma vida razoável na TV. Fora pouquíssimos, as produções não se sustentam, os roteiristas dividem-se entre referências e histórias e acabam não fazendo nem uma coisa e nem outra com alguma competência. Põe na lista, Mulher Biônica, As Panteras, V, A Batalha Final…

panteras

No mundo da música, de uma certa forma, a história também é a mesma. Todos estão mais preocupados com reuniões do que de produzirem artistas interessantes. Ed Sheeran e Adele – no mainstream – talvez tenham sido o que de mais bacana pudemos ouvir, sei lá, nos últimos cinco anos. Tô falando de música pop. Óbvio que se a gente mergulhar no YouTube encontraremos dezenas de milhares artistas muito competentes e que muita gente não conhece. Não quero ser injusto e dono da verdade e por isso abro parênteses. Esta democracia do compartilhamento nos deu a chance de conhecermos bandas e artistas que talvez a indústria nunca nos apresentaria, por isso, talvez (eu disse talvez), o mundo da música seja o menos afetado pela falta de novidade artística. Mesmo assim, a enxurrada de realitys musicais não foram capazes de compensar a descoberta de artistas com A maiúsculo. É uma guerra que mesmo os sobreviventes precisam lutar muito por um lugar ao Sol. Quem quiser garimpar acha coisa boa.

Voltando ao cinema: “Ah, mas no cinema iraniano tem muita coisa bacana também!” Eu sei que tem! Já tive oportunidade de participar de festivais de cinema e comprovar isso, mas será que o grande público conhece a telona de países como Hungria, Argentina (maravilhoso, diga-se de passagem) e França?

Acho que de uma maneira geral, vivemos um momento ruim para quem está além da produção feita para nichos específicos. Há quem diga que não existe época melhor para ser nerd. Como um, reconheço que sim. Existe muita coisa boa e projetos em andamento que dão conta disso. E quem não é? Vai se contentar com roteiros que referenciam (além das sutilezas, referências sempre existirão, se não textual, estética) obras que já chegaram às suas mãos? Como buscar uma pureza no entretenimento sem que nos ditem aquilo que precisa necessariamente ser absorvido como o “novo” Lost ou mesmo o novo CONTA COMIGO ou qualquer outro show que já tenha sido feito?

Eu não sei.

Observação: gente, não estou ignorando coisas legais (e originais) como Mr. Robot ou e nem dizendo que o cinema está apenas se habituando a regravações. É um texto basicamente sobre o que vem sendo vendido para o grande público. Certamente esse post não vale para aqueles que buscam, por si mesmos, exemplos do que mais lhe agradam, longe dos spotlights e dos comerciais.

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