Com Roy e Speedy de volta à trama, e sem o desnecessário conflito de times, não tinha como Arrow errar a mão em Doppelganger.

Já é regra no mundo das séries veteranas: Toda produção que alcança uma certa marca – principalmente aquelas com mais de cem episódios no currículo – uma hora ou outra presenteará seus fãs mais fiéis com uma trama nostálgica, feita especialmente para se reviver os tempos dourados do show. E é muito bom quando isso acontece, pois nos faz refletir sobre todo o tempo que investimos assistindo aquela série, e o quanto fomos acompanhando seu desenvolvimento e amadurecimento, seus acertos e erros. Quase como ver um filho crescer.

Após nos fazer engolir a seco os duvidosos últimos episódios, Arrow resolveu fazer uma rápida viagem ao passado, revivendo alguns personagens que não são mais do primeiro escalão da produção, mas que foram substanciais para sua caminhada.

Doppelganger começou um tanto quanto abarrotado, com a trama de Laurel ocupando o que pareceu, de início, um espaço desnecessário em um episódio que não devia ser dela. Sim, foi muito bom ver a Sereia Negra fingindo ser a Laurel original, com uma atuação consistente de Katie Cassidy que saía rapidamente da faceta de moça confusa e atormentada por ter passado dois anos presa para a dissimulada e orgulhosa vilã. Mas não era bem isso que queríamos ver aqui, mesmo que o próprio título do episódio já anunciava que a moça teria um destaque considerável.

Roy Harper surgiu em Arrow ainda na primeira temporada, e, salvo me falha a memória, assumiu o manto de Arsenal no segundo ano da série, logo se tornando um dos mais destacados sidekicks que o Arqueiro já teve, com grande favoritismo dos fãs. No entanto, Colton Haynes, após alguns problemas pessoais, acabou deixando a trama, vindo apenas a ter uma rápida participação na quarta temporada. A ausência de Roy, assim, acabou deixando espaço para que o Team Arrow abrisse vagas para outros jovens vigilantes, sendo Speedy, o alter-ego de Thea Queen, um dos nomes mais notáveis nesse quesito.

A história de Roy e Thea ao longo da série serve a típica fórmula de produções teens. Um casal jovem e bonito formado por uma moça mimada e um rapaz de forte personalidade, que se estranham algumas vezes, mas logo viram um dos ships preferidos dos fãs, por meio de uma relação um tanto quanto rebelde, mas verdadeira. Porém, a jornada dos dois não foi feita para apenas agradar fandons, e Doppelganger acertou em cheio em nos relembrar o quanto aqueles personagens são extremamente quebrados e marcados por tudo que viveram. Não tivemos aqui juras de amor romantizadas e açucaradas, mas sim a constatação de que tudo era mais simples no passado e que, apesar de todas a distância e tempo passado, um sempre servirá de porto seguro para outro. E, vendo o buraco sentimental que ambos os personagens se encontram após a vida separá-los e jogá-los em direções completamente opostas, não há como não torcer para que agora voltem a caminhar juntos, para que, somente assim, os dois possam reencontrar a si mesmos.

No fim de tudo, o roteiro de Doppelganger foi quase todo escrito para se dar uma despedida digna para Thea, botando-a para voltar a ser Speedy e justamente para salvar Roy, que, convenhamos, foi jogado de uma maneira um tanto quanto aleatória e mal explicada na trama. Tivemos que desconsiderar aqui alguns pequenos erros de continuidade e a visível conveniência de roteiro de Ricardo Diaz encontrar o antigo Arsenal com certa facilidade, convicto de que este iria testemunhar facilmente contra Oliver. Para um homem que gosta de se vangloriar de seu absurdo senso de planejamento, que desafia qualquer lógica, Diaz não parece ter estudado muito sobre o rapaz que sacrificou toda a sua vida para manter a identidade do Arqueiro Verde em segredo.

Mas deslizes a parte, não tinha como não aplaudir a série nesta semana, que se mostrou disposta a dar momentos de destaque que Thea praticamente não recebeu desde o fim da quarta temporada. Recordamos toda a personalidade da irmã de Oliver, sua teimosia, sua valentia e bravura, mas também seus medos, inseguranças e traumas. E ganhamos, de brinde, o revival de Speedy com seu estilo de luta ágil e acrobático. Em suma tivemos, em um episódio, praticamente tudo que fez de Thea uma das personagens mais marcantes e profundas de Arrow.

Do outro lado da narrativa, também percebemos melhoras significativas. Diaz deixou de agir nas sombras e nos entregou discursos e ações suficientes para aceitarmos, enfim, que tem potencial para antagonizar Oliver nesta reta final de temporada. Laurel, por sua vez, trouxe alguns de seus melhores momentos, assinando novamente seu contrato de vilã. Temos menos de dez episódios para o sexto ano se encerrar, e ainda nenhum indício de que a Sereia Negra irá se redimir, tirando os insistentes discursos de Lance, que deve estar esperando ela matar outra pessoa para se convencer de que aquela não é sua Laurel, apesar de agora começar a se passar como tal.

E até mesmo Dinah Drake conseguiu uma corda para sair do abismo que foi jogada. Separada de seus companheiros, que só conseguem ser um desserviço à personagem, e agindo com uma racionalidade minimamente considerável, a Canário resolveu dar uma trégua à nós todos e fazer, enfim, algo importante, investigando seus companheiros policiais para saber o quão profunda está a raiz de Diaz no departamento, ficando, claro, sob vigilância constante em qualquer passo de Laurel. Com toda a dedicação e capacidade em insistir que a policial tem, com certeza não demorará muito para ser dado nomes aos bois.

Doppelganger se encerra como um dos mais consistentes e agradáveis episódios da temporada, direcionando seu tempo para tramas instigantes e certeiras, e temperado com uma boa dose de nostalgia. No entanto, ainda há espaço para nos lamentarmos e nos questionarmos de por que é tão raro termos momentos como esses na série.

Flechadas:

– Um parêntese para se falar da insistência de Diggle em voltar para o manto de Arqueiro: De conflitos internos no time e dramas sem necessidade já estamos fartos. Chega.

– Não consigo me decidir quanto ao aspecto técnico do episódio, em certos momentos foi um primor, como na cena de Diaz aplicando seu treino em um capanga, e em outros, uma verdadeira tristeza, como no embate entre o criminoso e Oliver, com direito à uma galhofa saída de cena do vigilante.

– A cena de Oliver aconselhando Thea a ir embora com Roy, para buscar sua felicidade, foi praticamente a própria despedida de Stephen Amell, e do show em geral, para Willa Holand, liberando a atriz para alçar novos voos. Lindo de se ver.

– Enquanto Doppelganger se concentrou na vida amorosa e de vigilante de Thea, o próximo episódio, The Thanatos Guild (que só irá ao ar dia 29/03), focará em sua relação com a Liga dos Assassinos, por conta de sua condição de herdeira de Malcolm. Com isto, temos em dois episódios, um arco de despedida digno para a personagem, abordando os principais pontos de sua trajetória na série.

REVISÃO GERAL
Nota:
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arrow-6x15-doppelgangerRecheado de nostalgia e profundidade, Doppelganger era o episódio de Arrow que precisávamos e a série insistia em não dar.