Revival de “Sex and the City” toma decisões corajosas, mas burocratiza a correção dos próprios erros.

Não há absolutamente nenhum revival que não venha acompanhado da frase: “Mas tinha necessidade disso?”. Esse é o argumento mais fácil (e também o mais preguiçoso). Os fãs se dividem entre aqueles que querem mais a qualquer preço e aqueles que tem pavor da ideia de que suas séries favoritas voltem e estraguem tudo (obrigando-os a admitirem a falha). Se as coisas terminaram bem da primeira vez o quadro piora, já que um final ruim, como o de Arquivo X ou Dexter, vira motivo para tentar “fazer as coisas direito, enfim”. Contudo, questionar a “necessidade” de qualquer obra de arte é uma licença absolutamente imbecil.

Sex and the City teve uma trajetória na TV que será sempre uma das mais importantes do mundo. Quando a HBO resolveu “mudar a roda”, encomendou o drama (The Sopranos) e a comédia (Sex and the City) que estabeleceram o início da Terceira Era de Ouro da Televisão, injetando nessa mídia tão apegada às raízes, uma maneira nova de se contar histórias. Sex and the City falou de sexo e do universo feminino de uma maneira que até então era completamente desconhecida pela indústria e pelo público.

De 1998 até 2004, as seis temporadas correram perfeitamente, sob o comando de Michael Patrick King, que não era o criador, mas o responsável por dar à série sua identidade. A televisão dos anos 90 era essencialmente branca e heteronormativa, mas apesar de não conseguir atravessar completamente essas barreiras, o trabalho ao menos colocou a mulher enquanto protagonista num lugar mais justo e poderoso; além de ser incrivelmente divertida.

Ao passo em que o tempo foi passando, alguns episódios envelheceram mal e os dois filmes não diluíram o hematoma. Com Sex and the City costuma acontecer um fenômeno que eu costumo chamar de “clichê verossimilhante”: do amigo gay afeminado até a pessoa que vive para comprar sapatos, tudo lá é bastante real, mas nem por isso quer dizer que seja relevante. Os anos passaram, a televisão foi aperfeiçoando o que Sex and the City começou lá atrás; e de repente a ideia de ter 4 mulheres brancas, cis e muito ricas exibindo seus “problemas” na TV passou a ser um pouco ridícula.

Sabendo disso, Michael Patrick King tomou a única decisão cabível e deu para cada uma das protagonistas um coadjuvante que foi calculadamente planejado para “corrigir” os erros do passado. Miranda tem uma professora preta, Charlotte tem uma versão preta de si mesma e Carrie tem uma chefe podcaster não-binária. É até aí que And Just Like That chega: na fronteira do óbvio. Ainda é muito cedo e pode ser que nenhuma dessas coisas fique na superfície… Ou pode ser que fiquem. Se a série vai ser simplesmente burocrática ou se vai realmente tentar demonstrar amadurecimento, só ao final dos 10 episódios poderemos dizer. Agora, paira uma certa estranheza, como se ainda fossem os anos 90 nas cenas de restaurante e não fossem mais, na ausência inexplicável da narração de Carrie, que costurava os episódios com um  lindo recorte crônico.

A Big Mistake?

No que diz respeito ao universo dos personagens, grandes decisões foram tomadas. O paradeiro de Samantha foi resolvido nos primeiros 3 minutos, para afastar o fantasma e não desviar a atenção do público. A opção foi a mais acertada: Samantha brigou com Carrie, mudou para Londres e o quarteto se desfez. Através das personagens, o roteiro não fugiu das sombras dos bastidores e Carrie chega a mandar um recado direto para Catrall: “Achei que eu era mais que um caixa eletrônico pra ela”. É arriscado… 95% do mundo está do lado de Kim (na eterna dança de confundir ator e personagem); e mesmo que nas sequências haja uma certa tristeza e uma constante saudade, o que os Samanthers veem é só a personagem que eles mais gostam sendo questionada. Por isso, o momento das flores foi tão importante. A situação precisava ser suavizada.

Esses bastidores seguem sendo irônicos e os personagens lidam com o luto ao mesmo tempo que os atores. A ideia de matar Big não é exatamente nova, mas os rumores de que esse seria o roteiro do terceiro filme sempre pareceram falsos. Não eram. Foi inteligente, porque as personagens nunca lidaram com a perda nesse nível. Além disso, Carrie não teria para onde ir sem essa virada. Sarah Jessica não imprime o desespero diante da morte ao qual estamos acostumados na nossa cultura, mas os momentos se salvaram na boa edição. Num mundo onde se perde tanto, era necessário que elas perdessem, que elas conhecessem essa amargura. A ausência poética de Big e a ausência forçada de Samantha podem ser motivadores para que não vejamos só o mais do mesmo. Foram grandes perdas, mas podem representar esperança.

É bem provável que o conservadorismo de Charlotte seja desafiado pela filha mais nova; e que Miranda continue representando perfeitamente a ansiedade da maioria privilegiada em ser “consciente”. Esse plot, sem dúvida, é o mais orgânico e mais promissor da temporada, sobretudo porque a personagem de Karen Pittman aparentemente terá independência. Através dela pode vir o chacoalhar que a série precisa. A Che de Sara Ramirez também tem esse potencial, mas precisa de mais likeability. O fato é que todos esses coadjuvantes não podem ser só muletas onde se escoram as culpas da produção.

Ainda há esperteza no texto, ainda há uma vontade sincera de dizer as coisas certas, ainda há uma importante argumentação a favor da liberdade de apreciação do luxo sem o julgo da superficialidade, mas que travam na iluminação contraditória que o mundo vive atualmente, onde sabemos tão bem o que precisa mudar, mas somos atrapalhados pelos que recusam o futuro. A série quer se atualizar e não mudou de nome à toa. Ela tenta, mas os problemas são outros, a sociedade é outra, a televisão é outra. Aí esbarramos naquilo que começou esse texto: qual a necessidade disso? Na verdade, é muito simples: existe público para tudo, existe algo que se extrair de inspirador em quase tudo e seria prepotente estabelecer que o horizonte das necessidades humanas é o nosso. And Just Like That existe para quem precisa dela. E fim.

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