Acusada de não ser nada do que Sex And The City foi, And Just Like That deu seus tropeços, mas trouxe consigo a ternura que sentimos ao rever um velho amigo.

Quando foi anunciado em 2021, o chamado “revival de Sex And The City” causou um abalo sísmico no mundo do entretenimento e da cultura pop. A primeira razão para isso foi a volta da série em si; depois de não ter sobrevivido intacta ao escrutínio do mundo vigente. A segunda razão foi termos percebido – chocados – que voltaríamos a reencontrar Carrie, Charlotte e Miranda… sem Samantha. Enfática em afirmar que nunca voltaria para o papel, Kim Cattrall havia brigado publicamente com Sarah Jessica Parker, destruindo totalmente as chances de um retorno do quarteto completo. 

Como esquecer o festival de especulações sobre como a ausência dela seria explicada? No final das contas, as razões eram muito mais verossímeis do que se imaginava. E eram simples também. Algumas relações de amizade não permanecem as mesmas para sempre, ainda que elas existam por muito tempo. A ausência de Samantha frustrava uma legião de fãs que geralmente agem como se a personagem fosse o único pilar relevante daquele universo (o que não é verdade e acaba sinalizando uma necessidade real de nos debruçarmos sobre o por quê dessa personagem soar tão “irrefutável”). Contudo, a ausência foi justificada e resolvida com honestidade. 

De certa forma, para os fãs, não ter voltado fazia de Cattrall uma espécie de “soberana intuitiva” que havia sacado antes de todos nós que o projeto era uma furada e que estava decidida a manter-se longe dele. Seu posicionamento acabou não sendo tão definitivo assim; e seu discurso superior acabou esvaziado quando ela topou “comer” uma pequena fatia desse revival tão “maldito”. Revival esse que estava estreando com um nome e uma identidade novas… e com um plano de peitar a nostalgia com um compromisso – correto ou não – de andar com as próprias pernas. 

A primeira temporada foi difícil, porque, de cara, Michael Patrick King (o showrunner) decidiu dizer a que veio, e fez a primeira grande ruptura. Esse primeiro ciclo de episódios foi sobre gritar para a audiência: não queremos fazer Sex And The City novamente. O revival veio sem abertura, sem o mesmo título, sem a narração crônica de Carrie, sem o mesmo ritmo. Matar Big, reinventar a sexualidade de Miranda, não ter Samantha, andar pelos roteiros com mais calma… Tudo isso era parte dessa grande ruptura. 

A palavra Cringe foi bastante usada para descrever o retorno das personagens. Nunca ficou claro se a sensação de “vergonha alheia”, entretanto, não estaria vindo de dentro para fora. As personagens – bem mais maduras – já foram recebidas com escárnio por não poderem viver mais a “vida louca” que viviam quando tinham apenas 30 anos. A esdrúxula cobrança pela mesma energia de Sex And The City esbarrava na evidência mais ignorada: se elas ainda vivessem daquele jeito, aí sim teríamos um problema. Carrie passava por um luto; Miranda se apaixonava por uma mulher (algo que a atriz Cynthia Nixon viveu igualzinho na vida real, depois de anos casada com um homem); e Charlotte era obrigada a sair de seu castelo perfeito para lidar com as mudanças em volta. Cringe? Em que aspecto? 

Talvez na necessidade mal calculada de corrigir os erros sócio-políticos do passado. A série original sofria terrivelmente quando reassistida, com inúmeros erros de abordagem de assuntos delicados e com zero diversidade. Patrick King e Sarah Jessica pesaram a mão na própria culpa e forçaram pela goela do espectador muitos enredos “reconstrutores” de uma vez só. Além disso, o personagem de Sarah Ramirez era insuportável, tornando impossível uma torcida justa para Miranda e suas redescobertas. 

Com uma primeira temporada como essa, o segundo ano foi recebido com menos expectativas. Tendo a acreditar que Sarah Jessica quis aproveitar o revival para resolver pendências de Carrie. Big morreu e Aidan reapareceu; foi o chamativo do segundo ciclo de episódios. Eles tentaram recuperar Miranda do estrago causado por Che; deram mais humor para Charlotte e tomaram a decisão de baixar o tom, deixando a série ainda mais elegante, mais discreta; o que não posso garantir ter sido a melhor decisão, visto que, enfim, quando entramos na terceira e última temporada, a sensação era de que “nada acontecia”, de que faltava roteiro. 

Além de se entender com Samantha, Carrie também vendeu o apartamento icônico que teve por toda a série original. Para fechar seus ciclos, só faltou mesmo Aidan. E a terceira temporada veio para reconfigurar a figura desse “homem perfeito”, que anos depois e filhos depois, já não é mais tão perfeito assim. Se o plano era fazer Carrie deixar o passado para trás definitivamente, a desmistificação de Aidan era essencial. E ele foi desmistificado. A vida da personagem não poderia se resumir a um daqueles dois homens; e eles resolveram esse problema. 

Foi com pesar que fomos percebendo as narrativas começando a se estabelecer justamente quando o fim foi anunciado. Entre os personagens novos, Lisa nunca conseguiu convencer com sua vida perfeita. Seema era mais verossímil, mas também demorou a encontrar um caminho cativante. O crescimento de Anthony (depois da morte de Willie Garson) foi um ponto positivo; e sempre vi um potencial desperdiçado em Lily e Rock. De fato, os “problemas” de And Just Like That estavam mais no que “não acontecia” do que no que estava sendo transformado; porque, enfim, o que estava sendo transformado era uma simples questão de perspectiva. 

Perto do fim da linha, Sarah Jessica e Patrick King anunciaram que o final da temporada seria o final do revival definitivamente. Eles falaram em “comum acordo”; enquanto a imprensa garantia que através de fontes, foi descoberto que o cancelamento pegara Sarah Jessica de surpresa e ela teria ficado muito ofendida com a iniciativa da HBO. Ela teria julgado que ainda ficariam no ar por mais tempo; embora – precisamos dizer – ela e King tenham falhado em construir conflitos suficientes para manter o espectador interessado. 

A aversão ao conflito e ao drama pareciam parte de um compromisso em manter a série em um espectro pouco realista e extremamente privilegiado; como se a vida – mesmo que com percalços – estivesse sempre envolvida de uma atmosfera de fantasia. É compreensível que os roteiristas não tenham achado coerente manter aqueles personagens em uma espiral de situações constrangedoras; mas, é como se uma coisa coerente trabalhasse para retirar o brilho de uma outra possibilidade coerente. A série trabalhava contra si mesma, porque parecia mais e mais desconectada da realidade. 

No Series Finale duplo (com dois episódios menores do que os regulares), Carrie comprou tortas e saiu pela cidade deixando uma em cada residência. Ela estava “sozinha” depois de um longo tempo; deixando um pedaço do próprio afeto na casa de cada personagem; numa atitude que poderia sim ser encarada como uma “ação com jeito de despedida definitiva”. O restante do episódio, contudo, parecia excessivamente trivial, aumentando a suspeita de que aquele não era mesmo um series finale. Os problemas com Miranda não estavam resolvidos; e os enredos de Seema, Lisa e Anthony também pareciam sem desfecho apropriado. Isso sem falar da desconfiança de que dificilmente eles manteriam Carrie sozinha se soubessem que aquele era o último episódio; afinal, aquela era a mulher que um dia disse que sempre estava à procura do amor. 

A verdade é que pouco importa se havia ou não um plano. And Just Like That acabou. Essa foi, possivelmente, a última vez que vimos Carrie Bradshaw andar com figurinos esquisitos pelas ruas de Nova York. E isso é grande coisa, sim. Goste ou não do revival, nenhum espectador privou-se de reconhecer que aquela era Carrie de novo costurando vidas em afeto e couture. Essa foi uma personagem muito importante para a cultura pop e para a televisão; ela fez tanta gente feliz; fez tanta gente refletir; fez tanta gente se reconhecer (para o bem e para o mal); e ela fez isso, porque, lá atrás, ela era a voz da consciência dos que a cercavam; ricocheteando recortes na nossa direção.

Foi um final digno para uma série rejeitada por não ser aquilo que ela jamais deveria ser; mas escorada na nostalgia do que sempre foi: uma série-amiga-próxima, daquelas que mesmo que não vejamos sempre, temos sempre sobre o que conversar… nem que seja sobre o passado; aquele passado que não podemos – e não deveríamos querer viver. A vida real e adulta tem muito mais de And Just Like That do que gostaríamos de aceitar. 

A relação mais importante que você pode ter é com você mesmo. E se você achar alguém que ame o amor que você ama… então isso é fabuloso. 

A gente amou do mesmo jeito todos esses anos. Vou sentir muito a sua falta, Carrie.

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