Treinamento? Mas ela já não sabia lutar?
Anda se falando muito sobre a nova Canário. Alguns questionam o tempo de treinamento que a moça teve até envergar o manto negro. Outros acreditam que o lance do treinamento da Laurel Lance serviu apenas para a introdução do Pantera na série, visto que Laurel já apresentava algum conhecimento – mais do que básico se analisarmos as exibições da moça nas temporadas anteriores – em artes marciais. Como a galera está discutindo sobre isso, resolvi criar um texto de análise sobre o assunto e dedicar um espaço para essa discussão. Vamos a fundo nessa história.
Antes de falarmos sobre o treinamento da heroína em foco é preciso relembrarmos algumas passagens:
1 -Na primeira temporada Laurel salvou Oliver e Tommy de tomar uma surra de alguns “Leões de Chácara” em uma balada em Starling City. A moça dominou dois homens bem maiores que ela e mostrou que manja de uns golpes. Ao ser questionada por Oliver, a Srta Lance afirma que teve aulas de Defesa Pessoal e que foram incentivadas pelo Pai. A demonstração de Laurel nos diz que ela possui uma perícia considerável, visto que para um leigo, dominar dois “seguranças” exige confiança e prática.
2 -Já no início da segunda temporada nós acompanhamos um grupo de vigilantes que haviam sido inspirados no Arqueiro a fazerem justiça com as próprias mãos. Quando eles atacam um evento de gala, Laurel “tenta” desarmar um dos caras. A frieza e calma necessária para reagir a um agressor com arma de fogo é uma habilidade muito difícil de se desenvolver. Simplesmente porque coloca sua vida em jogo. Ao falhar, podemos presumir que a moça não teria treinado o movimento o suficiente, mas mesmo assim, arriscar é algo notável.
3 -Já na terceira temporada nos é mostrado uma Laurel que “tenta” bater em um “bêbado”, usando um bastão de beisebol, e falha. Apanha e vai toda estropiada para o hospital.
Na boa… Cadê a coerência? Quando procuramos entender um personagem em qualquer história, usamos do raciocínio alimentado por sua trajetória no enredo. Laurel demonstrou uma certa habilidade em Luta corporal durante as duas temporadas anteriores, para então regredir nesse quesito na temporada atual. A justificativa de que ela já sabia lutar, cai por terra quando a vemos apanhar de um bêbado. Aqui, nos deparamos com uma incoerência que gera uma inversão de expectativa negativa na história. Que por sua vez cria lacunas e questionamentos desnecessários.
De habilidade notável e superior a maioria de praticantes assíduos de artes marciais (digo superior, porque ja é difícil derrotar um oponente de 100 kg pesando 70 kg, imagine aqueles seguranças que tinham no mínimo o dobro do peso da Katie) a moça foi reduzida a uma falha vergonhosa. Aí somos apresentados a o Wildcat. O professor de Boxe e defesa pessoal, ex. vigilante e novo mentor da futura Canário.

Li vários comentários sobre a habilidade da Laurel, mas não vi ninguém se perguntar sobre a capacidade do Pantera como professor. Pode chamar de fresco, ou dizer que estou exagerando, mas mesmo sendo um ex. vigilante o Wildcat não demonstrou habilidade suficiente para ser mentor da Canário. Primeiramente, porque ele apresentou apenas o Boxe e uns golpes de pró wrestling, segundo que acredito que apenas o boxe não seja suficiente para preencher todas as lacunas de um combate sem regras, o tipo necessário para se combater o crime. Talvez o cara até saiba mais – combate com armas por exemplo, uma ótima forma para superar uma vantagem física contra um oponente maior – mas não nos mostraram.
É claro que um bom boxeador é um ótimo oponente para qualquer lutador. Porém ser unidimensional enquanto se arrisca a identidade e a vida, não é uma estratégia inteligente. Além disso, o treinamento exigido no Boxe é ótimo para o condicionamento cardiovascular do herói. O problema é que o pugilismo é um esporte, e como tal, visa a competição. Um contra um, mano a mano, ou como quiser chamar. A probabilidade de se adaptar técnicas dos diversos estilo de Boxe para um combate real é possível, porém isso depende muito da habilidade do treinador.
A vida de vigilante não é só meter a porrada em todo mundo. Ainda é preciso, saltar de telhados, atravessar janelas, dar piruetas em cima de caminhões e pegar flechas no ar. Isso leva mais tempo para se desenvolver que aprender a soltar jabs. Ou contrário do Roy, que possui um background como ladrão de rua, Laurel não praticava le parkour. Para uma heroína que priorizará a captura dos vilões ao invés de eliminá-los, a agilidade é algo essencial para não tomar um tiro.
No último episódio, denominado Midnight City, o diretor e roteiristas fizeram questão de deixar claro que Laurel não está pronta para assumir o lugar da irmã. A Canário apanhou feio, foi jogada de um lugar para outro, socada, chutada, cortada com um canivete e mesmo assim encarou os vilões com uma tonfa. As coreografias das lutas foram bem reais – tirando a resistência descomunal da Laurel – e enfatizaram a falta de habilidade da personagem. Os golpes desferidos por ela foram desajeitados e muito telegrafados. O único fator que salvou a Stra Lance foi sua força de vontade. O famoso cair e levantar. De resto, no quesito habilidade, vimos apenas truculência e porrada, bate de qualquer jeito e torce para acertar. A única caracteristica que me chamou a atenção foi sua inteligência e versatilidade. Quebrar o salto agulha do sapato para usá-lo como arma e chutar as partes baixas do adversário para se livrar de um oponente mais forte representa a adaptabilidade esperada de uma heroína.

Se analisarmos friamente a questão do treinamento, com ênfase na realidade, eu apontaria a questão psicológica como maior problema. Conversando com colegas militares e ex-militares, eles me disseram que paraquedistas treinados as vezes “travam” nas portas dos aviões antes dos saltos. Missões reais (troca de tiro) ou situações que envolvem o combate real, geram uma pressão absurda que só é vencida através da autoconfiança. Tentem fazer algo minimamente perigoso (salto de paraquedas, bungee jumping, Asa delta, escalada, esse tipo de atividade) e experimentem o sentimento. O preparo psicológico exigido de uma advogada que passa a encarar bandidos armados nas ruas, deve ser feito passo a passo, para que possa saber lidar com o medo e agir na hora certa.
É claro que não podemos cobrar esse tipo de realidade da série. Ninguém deve questionar a coragem de um cara que pula de prédio em prédio, com o joelho ferrado, sofrendo pela morte da mãe, para então lutar com um psicopata super forte. Então também não questionaremos a coragem de uma moça formada em Direito, que praticava defesa pessoal e vôlei na faculdade e resolve vestir a roupa da irmã e sair batendo em bandido. Afinal se a caracterização dos personagens fosse tão profunda em Arrow, nós não teríamos uma série de super heróis.
Acredito que o problema principal seja a coerência. Se Laurel sabia se defender, então pode lutar um pouco melhor do que está fazendo. Ainda não teríamos o nível esperado para uma Canário, mas não se negaria o que foi mostrado no passado da personagem. Além disso, se tivéssemos pequenos flashes dos treinos com o Pantera, parecido com o que vemos com a Thea, teríamos ideia do quanto moça evoluiu. O pior para mim não a Laurel decidir que é a Canário, é o fato de negarem as habilidades demonstradas por ela anteriormente.
De qualquer forma continuaremos a acompanhar o desenvolvimento da moça e seu aprendizado no mundo do combate ao crime. Acho que Oliver entenderá a motivação dela e assumirá o posto de mentor, já que aparentemente o Pantera não retorna ao show. Isso pode magoar os corações dos que torcem pela Srta Smoak, já que a aproximação do Arqueiro e a Canário tendem a invocar uma relação amorosa do mundo da nona arte. Ainda acredito na atriz e que poderá sustentar o papel. Nada impede que vejamos seu “verdadeiro treinamento” no futuro.
A impressão mais forte que eu tenho da Canário Negro vem da serie animada Justiça jovem, onde a heroína era responsável pelo treinamento de combate corpo a corpo dos Sidekicks. É essa personagem que gostaria de ver em Arrow. É essa personagem que quero que Katie Cassidy interprete.
ps1: Nos comentários da review do ultimo episódio, o leitor denominado “Coruja, o elegante” fez uma comparação muito interessante sobre a similaridade da Laurel com uma personagem da DC chamada Kate Spencer. O nome dessa personagem foi usado em Arrow em uma promotora que acabou morta no episódio final da segunda temporada. Nos quadrinhos ela é uma promotora pública que rouba um traje de herói a fim de se tornar uma super-heroína e lidar com os bandidos que ela não pode processar no trabalho por causa de falhas no sistema legal. A comparação é mais do que plausível.















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