Há seis anos, American Horror Story estreou na televisão com uma proposta ambivalente, de recuperação do gênero do horror e de experimentação da dramaturgia antológica. Ryan Murphy queria contar histórias fantásticas e elegantes usando o imenso apelo visual do gênero e variar seus temas ao máximo, usando sempre a mesma trupe de atores… Essa era a “companhia de teatro” dos sonhos de qualquer ator. E embora ninguém pudesse garantir que a coisa toda daria certo, era um passo ousado e empreendedor para o cenário vigente.
De lá pra cá passamos por um sanatório, um clã de bruxas, um circo de horrores e um hotel. Ao que tudo indicava, a sexta temporada seria nada mais nada menos que um novo ciclo, tomado daquele velho conhecido trabalho de marketing, que é um dos maiores e mais eficientes da TV americana. Porém, a chegada do ano seis foi tomada de mistérios e isso só aumentou ainda mais o interesse do público. O que Murphy queria com isso era tirar o show da zona de conforto, interromper a rotina natural do espectador e reproduzir uma história complexa e absolutamente desafiadora. Roanoke é uma temporada sobre uma lenda e que tridimensiona o que a palavra “metalinguagem” quer dizer.
“Reality” Com Aspas em American Horror Story: Roanoke
Quem assistiu os filmes ou leu os livros de Harry Potter, sabe que o grande vilão da trama, Voldemort, também era chamado de Tom Riddle e que há uma “lenda” de que o túmulo do cemitério de Greyfriars Kirkyard, em Edimburgo, com o nome de Thomas Riddle, seria de fato o túmulo de alguém que inspirou o personagem. Porém, esse é o mínimo detalhe acerca desse cemitério, que é conhecido como o mais assombrado do mundo. Estima-se que pelo menos 450 incidentes foram documentados entre os visitantes, com direito a mais de 140 registros de desmaios e dezenas de pessoas alegando que tiveram ossos quebrados enquanto estiveram dentro do local.
A situação foi se tornando tão alarmante que a prefeitura da cidade precisou fechar o cemitério por algum tempo, já que até mesmo a morte de um médium e de pesquisadores que passaram algum tempo por lá foram atribuídas aos fenômenos do local. Em um cenário ideal – e jamais saberemos porque esse cenário nunca foi estabelecido – Greyfriars Kirkyard seria o sonho de qualquer produtor que pretendesse produzir um reality em que pessoas ficassem a mercê desses eventos inexplicáveis. Essa é uma premissa rentável, eficiente e perfeita para virar lenda. Assim como Roanoke acabou se tornando.
O produtor Sidney, vivido por Cheyenne Jackson, começa o sexto episódio dessa temporada indo vender uma ideia para os executivos do canal que acabara de exibir My Roanoke Nightmare. Toda a conversa está cheia do jargão televisivo que nós conhecemos tão bem: números, anúncios, estimativas… O roteiro sabe do que está falando e nesse pedacinho antes da vinheta, faz com que tudo que vimos até aqui sofra uma reviravolta sem precedentes. O “programa” visto durante os cinco primeiros episódios acabou e a narrativa quebrou a “quarta parede” para mostrar o que My Roanoke Nightmare provocou no mundo “real”.
Por causa de todas as declarações de Murphy a respeito (que ele não precisava ter feito), já era possível prever que esse seria o caminho. Contudo, essa virada pode oferecer até o final, um monte de possibilidades que virão e serão parte da imprevisibilidade que ronda esse ano. O resultado foi mesmo impressionante… Em 40 minutos a série revirou a própria raiz dramatúrgica e reconfigurou sua mitologia de modo a poder se divertir plenamente com essas novas camadas. Ou seja, Lily Rabe vive um personagem e seu personagem é vivido por Sarah Paulson, que por si só vive – além desse – outro personagem, que é ela mesma, a atriz do papel anterior. Percebem o número de camadas? E o que a nova temporada de My Roanoke Nightmare faz é pegar todas essas versões e colocar todos juntos numa mesma “aventura”. É como se aquela casa fosse um castelo de metalinguagem no mais absoluto nível.
Reality Sem Aspas em American Horror Story: Roanoke
E é divertido, ninguém pode dizer que não… Vimos Kathy Bates viver a Açougueira por cinco episódios e agora vemos Kathy Bates viver a atriz por trás dessa interpretação, uma atriz decadente, canastrona e cheia de clichês sobre como interpretar e “humanizar” uma personagem. Sarah Paulson também ilumina tudo quando entra em cena, vivendo dessa vez uma mulher feliz. A atriz inglesa que NADA se parece com Shelby – mas não a Shelby real – e sim a versão que Audrey (a atriz inglesa) tinha dela. É complexo, ousado, inteligente e imensamente divertido observar, desvendar e acompanhar todas essas camadas. Sobretudo porque Roanoke até agora é a temporada mais organizada, planejada e enxuta de toda a história de American Horror Story.
Basta ver como até mesmo um único episódio consegue manter sua narrativa em esferas específicas. Durante os cinco primeiros vimos o documentário e os roteiros não desviaram disso em momento algum. Agora, já no capítulo 6, o episódio passou seus primeiros 20 minutos montando o reality e os outros 20 minutos apresentando as tensões que culminariam com o novo pesadelo televisionado. Tudo sem aquela tradicional edição anárquica do show, que ainda considero maravilhosa, mesmo tendo sido sempre tão criticada. Roanoke é uma temporada de transgressão ao modelo estabelecido e faz sentido que a estrutura desrespeite as próprias origens.
Diante desse formato, as possibilidades não se findam. Podemos estar realmente diante de um material verídico sobre mortes inexplicáveis, mas esse também pode ser apenas outro embuste do canal, usando da mesma gênese mercadológica que promoveu o primeiro A Bruxa de Blair. Não se pode ter nenhuma certeza de que dessa vez estamos diante da verdade e isso também é sensacional, isso também se relaciona com o plano desse ano. Nossas expectativas aumentam e a excitação é 100% positiva… Queremos saber quem aparecerá interpretando a bruxa da floresta (já que Gaga acabou sendo a atriz por trás dela), se Kathy voltará como a Açougueira de alguma maneira, quem aparecerá como Edward, como os Polks… Será que Lee, Shelby e Matt contaram a verdade? Será que o agora é o real ou o real ainda está por vir? São TANTAS perguntas deliciosas e quatro episódios pela frente para respondê-las sem pressa e sem digressão.
A reunião de todos os elementos na casa já adiantou como tudo isso será empolgante. Atores zombam das “pessoas reais”, as “pessoas reais” se ressentem de como foram retratadas e os fenômenos passam por dois crivos: o da paranoia e o da recorrência. É impressionante que Matt, Lee e Shelby tenham topado aquele pesadelo todo novamente e é incrível ver já nas enfermeiras assassinas um exemplo de como “versão” e “realidade” se confrontarão a partir de agora. As que mataram Rory (em busca do R) eram bem mais assustadoras, assim como o homem que surge atrás de Lee e assim como o Pig Man que surpreende Audrey. Metalinguagem, horror, referenciação… Roanoke é uma das histórias mais completas que Ryan Murphy já levou para a TV.
Por fim, ainda terminamos o episódio com a pergunta que vamos passar o resto do tempo tentando responder: quem não morreu? Se já não bastasse todo o sortimento de possibilidades interessantes, ainda temos o bônus da especulação saudável. Minha aposta é em Audrey, porque, enfim, Sarah Paulson nunca morre no show (não totalmente).
American Horror Story sempre foi um orgulho para mim e Murphy só me provou que não há fronteiras para o quanto sua arte está interessada em relevância, ousadia e contemporaneidade.
> Quem o Negan vai matar em The Walking Dead?
Roanotes: Sensacional que o episódio tenha começado dizendo que My Roanoke Nightmare teve mais audiência que Empire e The Walking Dead.
Roanotes 2: O roteiro deu uma aproveitada para cutucar os programas documentais do gênero do terror e insinuou que vários deles podem ter sustos armados.
Roanotes 3: Kristin dos Santos, velha conhecida das notícias sobre TV, fez uma ponta entrevistando a “verdadeira” Lee.
Roanotes 4: A atriz que interpretou a assistente de produção Dianna eu conhecia de The OC. Ela namorou o Ryan e parece que não envelheceu um só dia.
Roanotes 5: Agnes diz na entrevista que só há dois grandes personagens a serem interpretados por uma mulher: Mary Tyrone e The Butcher. Claro que é uma comparação esdrúxula, porque Mary Tyrone vem de um espetáculo que venceu o pulitzer e está sendo vivida no teatro, atualmente, por ninguém menos que Jessica Lange.
Roanotes 6: Murphy tão antenado que até o Pikachu fez uma ponta.
Roanotes 7: Há humor nessa temporada, talvez mais que em qualquer outra. A cena da gravação da ligação de Audrey para a polícia porque Agnes estava tentando invadir sua casa para roubar seu prêmio foi bem engraçada. Agnes queria roubar o trofeu de Audrey, um troféu tão esperado e merecido… Acho que Sarah também não deixaria isso acontecer, rsrs.
Roanotes 8: Episódio dirigido por Angela Basset e com todos os louvores.















