AHS encontra o expressionismo alemão num conto provocativo sobre o preço das transformações.
Os sentimentos humanos com relação a normalidade da vida são quase sempre negativos. Ninguém quer ser ordinário, simplório, previsível. Fulgura entre nós uma cultura que valoriza a notoriedade e a fama, sendo ela, cada vez mais, um artifício perigoso das bases da autoestima do homem contemporâneo. Entretanto, a vontade do bicho homem de sentir-se importante perante o mundo sempre foi uma realidade. E nunca, quase nunca, isso depende de como o homem se vê, mas de como convence os outros a vê-lo.
Transformar-se tem um preço… Sempre tem. As narrativas ficcionais estão aí para nos mostrar que nenhum personagem passa de uma coisa para outra sem enfrentar duras consequências. É como se, de alguma forma, as forças que regem o destino se rebelassem contra o que – de fato – não fazia parte do caminho traçado para aquele indivíduo. Não, você não deveria ser isso que está tão louco para ser… Mas, se quiser ser, podemos ceder ao seu insano desejo, desde que esteja pronto para arcar com os prejuízos que virão em seguida. Enfim, nesse enredo do humano ordinário que se transforma no fantástico e paga um preço, as criaturas da escuridão são as protagonistas.
No primeiro episódio dessa temporada de AHS, a Condessa e o então amante Donovan, surgem pela primeira vez indo assistir a uma sessão de cinema ao ar livre do filme Nosferatu, um dos maiores clássicos do expressionismo alemão. Na época insinuei que essa poderia ser uma pista para a próxima temporada (ainda não sabia que o vampirismo seria tratado dessa forma tão intensa esse ano), mas na verdade aquela era uma pista para o que regia toda a origem da Condessa Elizabeth. E que acabou sendo, enfim, uma das coisas mais lindas e interessantes que American Horror Story já fez.
Sobre Expressionismo Alemão, do Wikipedia:
“Seu surgimento contribuiu para refletir posições contrárias ao racionalismo moderno e ao trabalho mecânico, através de obras que combatiam a razão com a fantasia. Influenciados pela filosofia de Nietzsche e pela teoria do inconsciente de Freud, os artistas alemães do início do século fizeram a arte ultrapassar os limites da realidade, tornando-se expressão pura da subjetividade psicológica e emocional (…) temas sombrios de suspense policial e mistério em um ambiente urbano, personagens bizarros e assustadores, uma distorção da imagem devido a uma excessiva dramaticidade tanto na atuação quanto na maquiagem e cenografia fantástica de recriação do imaginário humano.”
Por essa definição podemos dizer que AHS vem fazendo algum tipo de expressionismo há muito tempo. Sem dúvida, a forma como a série chega conturbada para o espectador, em muitos momentos, se deve a esse exato “combate a razão’, que faz com que a dramaturgia do show se monte de maneira “bizarra” e “subjetiva”, jogando fora a métrica corriqueira das narrativas convencionais. E a própria série se debate no meio de suas ambições artísticas, ansiosa por ser transgressora na forma e satisfazer a “burguesia” espectadora no conteúdo. Então, quando trai um elemento da progressão convencional da história com uma fuga estranha e extravagante, desequilibra as impressões do interlocutor e acaba gerando o desconforto e a rejeição.
Assim, me parece intrigante que um clássico alemão tenha se misturado a uma geografia americana e a um astro italiano. Flicker foi cheio de tremulações provocativas e nos jogou numa vertigem de impressões que nenhuma outra série consegue jogar. A começar pela decisão de trazer mais realidade para a atmosfera do show. Eles sempre fizeram isso, mas geralmente se demarcavam a trazer mitos à vida ou ícones do imaginário criminoso americano. Dessa vez eles resolveram atravessar outro limite, usando as figuras de Rodolfo Valentino e Natacha Rambova para princípios malignos e aproveitando para escalar o mesmo ator para dois personagens diferentes na mesma temporada. Ainda não sabemos se os outros personagens do hotel vão mencionar a semelhança entre Rodolfo e Tristan, mas estou mais inclinado a acreditar que não. Será como ter começado de novo para Finn Wittrock, que não decepcionou na sua interpretação dessa verdadeira lenda do cinema mudo.

No episódio em que vimos a Condessa procurando a ajuda do médico de Murder House, ela mencionou uma amiga, que existiu na vida real e era também uma atriz de cinema mudo. Agora, quando flagramos Elizabeth nesse universo, a coisa toda faz um imenso sentido. A primeira coisa que se justifica é a interpretação de Gaga, que dá vida a uma mulher que veio de um tempo onde a expressão não dependia das palavras. Além disso, os minutos em que Elizabeth reage a tudo que vê, deixam claro que Gaga está dentro de uma construção planejada de uma personagem “que se transforma”. Tudo em Hotel é sobre transformação. Assim, vimos uma Elizabeth deslumbrada, ansiosa… Na cena em que é seduzida por Rodolfo, ela demonstra medo, tensão, excitação… Há uma incrível beleza naquele tango, que reúne a sede de Elizabeth pela mudança, a sede de Rodolfo pela sedução e a sede de Natacha pelo controle. Três tipos de sede que logo convergirão numa só.
Rodolfo foi um homem peculiar… Qualquer pesquisa vai sublinhar muito o quanto ele era sedutor e voluntarioso. A escolha do roteiro por ele se justifica em torno da mitologia que o envolve. Aliás, sobretudo em torno de sua morte. Ao ser anunciada, provocou uma onda de suicídios, resultou num funeral cheio de “viúvas” e na figura de uma mulher de preto, com o rosto coberto por um véu e que realmente aparecia em todos os aniversários da morte do ícone. Antes de sua partida, inclusive, foi muito influenciado por Rambova a adentrar o espiritismo, onde chegou a escrever poemas psicografados por uma entidade chamada Pena Preta.
Nessa equação, contudo, também está o diretor alemão F.W. Murnau, numa outra liberdade do roteiro. Foi ele quem levou a um mundo chocado, o filme Nosferatu. Murnau é descrito em algumas pesquisas como obcecado para alcançar o máximo de verdade, ainda que lúdica, na sua película; e muitos acreditam, inclusive, que a criatura do longa não foi vivida pelo ator Max Scherek, sendo um vampiro real descoberto pelo diretor em suas peregrinações. Para a coisa ficar ainda mais estranha, recentemente o crânio do diretor foi roubado de sua sepultura em Berlim (os caixões dos irmãos dele, na mesma sepultura, ficaram intactos).
Foi com absoluto deleite que acompanhei aquele jogo insano de flashbacks dentro de flashbacks, de figuras reais sendo relidas daquela forma sombria, tão condizente com seus passados de mitos. É interessante notar que o núcleo narrativo da temporada está tão sacramentado nos conceitos de transformação, que até mesmo o cinema mudo se conecta com eles. Há uma doçura e um amargo notórios na transição para o cinema falado, quando a palavra se tornou a ruína de alguns atores e uma nova chance para outros.
Apesar de todo esse lirismo, o horror não foi esquecido. Até a pobre corretora de Murder House surgiu pra ser devorada pelos vampiros recém libertos e vejam só, que ironia, virou um fantasma preso no hotel. Foi maravilhoso descobrir que a Condessa, ao saber da morte de seu amado, foi uma das que quase engrossou o coro dos suicidas. E que salva por March, viu no casamento a oportunidade para não ser apenas outra pessoa comum. Ela não se descreveu como uma pessoa escura, mas suas atitudes traíam seu monólogo vitimizado. Ninguém abraça a escuridão se já não tiver flertado com ela e March viu isso na nova esposa. Ao ser transformada, Elizabeth apenas reajustou-se ao mundo de acordo com a névoa que a encobria. Pagou pela transformação com uma solidão cortante e sem saber que seu grande amor jazia vivo dentro das paredes por onde ela passava. Simplesmente genial.
E temos, enfim, na outra ponta do episódio, o enredo com John, que até agora soa perigosamente deslocado. O avanço, entretanto, foi grande. Acho que já está claro que ele é o assassino dos mandamentos. Wren, que até então nunca tinha falado uma palavra, o tem acompanhado em todos os crimes e provavelmente por isso acabou capturada. Ela lamentava que ele fosse descobrir a verdade porque isso interromperia a ligação entre eles, que era a única coisa que a fazia sentir-se viva e adulta. O flashback de Wren foi bem contundente em reforçar que a Condessa realmente buscava crianças potencialmente negligenciadas e que o preço da transformação era uma vida de infância forçada. É muito intenso perceber que muitas vezes lutamos tanto para nos transformarmos em algo que não nos orgulha e que, em alguns casos, nunca poderá ser desfeito.
Enfim, antes de terminar essa longa review eu quero deixar para vocês algumas palavras do verdadeiro Rodolfo Valentino e que exemplificam bem a ligação que ele tinha com os significados da vida e da morte. Essencialmente, estamos diante de uma temporada que reitera nosso desejo constante por uma existência incomum, especial, cheia de substância, ainda que para isso seja necessário algum tipo de morte, algum tipo de aniquilação ou a entrada consciente pelos portões do inferno.
“O que o homem comum chama de morte eu acredito
que é apenas o começo da própria vida.
Nós simplesmente vivemos fora da casca.
Nós emergimos para fora dos limites dos confins,
como uma crisálida. Porquê chamar de morte?
Ou, se damos o nome de morte
porque cerca-la de medos obscuros e doentias imaginações?
Eu não tenho medo do desconhecido.”
Rudolph Valentino
Check Out: Qual será o acordo entre a Condessa e March que a obriga a uma visita por mês?
Check Out 2: Não dá mais pra ignorar o fato de Gaga nunca aparecer nua. Em outra produção isso seria uma bobagem, mas em AHS fica gritante. No ménage com Rodolfo e Rambova até as laterais dos seios da Condessa eram estrategicamente tapados pelos colegas. Isso me intriga… Primeiro porque o noivo de Gaga também é ator e entenderia, segundo que chega a ser até bonitinho que Gaga demonstre ser uma mulher com pudores.






















