Medo é Verdade.

Andy Warhol é considerado pela história como um “profeta da cultura pop”, um manipulador de códigos do consumismo, capaz de transformar em manifestação artística a nossa sede abjeta por fama e dinheiro. Durante sua carreira, a persona Warhol se refletia não só em seu trabalho, mas agia como expressão exata de tudo que ele era. Ele produziu e virou arte, transcendendo a vergonha pela admiração do vil metal. Assim, o termo “cultura pop” disfarçou os propósitos egocentristas do consumo, quando de fato, tudo que é pop se baseia no quanto você pode comprar ou vender. 

Andy perseguia e gostava da fama e de certa forma, o episódio trágico resultante do encontro com Valerie Solanas o consagrava na posição de celebridade. A realidade do que é ser famoso se mostra quando estranhos começam a interpelar seu direito de existir e Andy foi o algoz escolhido por Valerie quando ela começou a tentar instaurar uma “revolução”. Ela, esquizofrênica, sociopata, que queria instaurar um mundo sem homens, responsável pela pior interpretação do que é feminismo, tentou ser notória assassinando um exemplar masculino… E acabou por ficar à sombra dele. 

No vídeo acima, a verdadeira Valerie Solanas é escoltada pela polícia vestindo o icônico look reproduzido pelo episódio dessa semana. American Horror Story – que sempre soube muito bem usar a história como base de seus pontos de vista – alcançou excelência ao fazer aquilo que prometera desde sempre: não defender nenhum dos lados e deixar claro que essa é uma temporada sobre o “culto dos desiludidos”, aquele monte de gente que não pensa sozinha, pega um discurso, reproduz e chega a matar em nome. O extremismo arrogante e imbecil está em todas as esferas da sociedade e com esse episódio, os roteiristas quiseram reforçar que não há lados certos quando o que está em jogo é a segurança de cada um. 

Valerie Solanas foi uma feminista radical que escreveu o SCUM Manifest (que ela negava ser uma sigla para Society For Cutting Up Men), uma obra considerada um exagero do ponto de vista prático, mas que alguns setores do feminismo consideram cheio de preocupações legítimas. O manifesto de Valerie era pouco conhecido, até que conheceu Andy Warhol, que se interessou pela figura dela e ficou com um script para ler (que acabou perdendo depois de algum tempo). Solanas começou a dizer que ele tinha “controle demais sobre seu trabalho” e depois de invadir seu estúdio, deu-lhe três tiros. Só um acertou Warhol que sobreviveu e mesmo assim se recusou a depor contra ela, tendo passado o resto da vida com medo de que Solanas o encontrasse novamente. Após a tentativa de assassinato o manifesto se tornou famoso e então, Valerie começou a recrutar mulheres em seu quarto de hotel, em Nova York. 

The Other Cult 

A escolha de Lena Dunham para viver essa persona foi extremamente calculada. A figura de Lena é controversa, politizada e representa o outro lado da moeda entre Clinton e Trump. Ryan Murphy não só foi esperto do ponto de vista comercial (ele também é um profundo conhecedor do que está em pauta mercadologicamente falando), mas também estabeleceu uma certa “ironia” ao colocar Lena – tão cheia de um discurso feminista contemporâneo – para viver a líder de um culto que revela o perigo por trás de tudo que é parcial, seja ao explorar a direita, a esquerda, a igualdade ou a segregação. 

Até agora, a série organizou muito bem a exploração de seus catalisadores ideológicos. Vejam: 

  1. Charles Manson: O exemplo real de líder cultuado que manipula seguidores a fazerem seu trabalho sujo, sem que ele mesmo tenha sequer empunhado uma faca. Para ele, o mundo precisava subjugar negros e exaltar artistas que – na figura dele – dominariam o planeta. As ideias de Charlie eram veladamente conservadoras e ele detestava não só negros como mulheres e gays. Ironicamente, as mulheres eram seus mais fiéis soldados (mesmo que só pudessem fazer suas refeições depois dos homens e dos cães).
  2. Valerie Solanas: O exemplo real de líder cultuado que manipula seus seguidores a fazerem seu trabalho sujo. Para ela, o mundo só tinha um mal: o homem. Seu manifesto propunha a extinção absoluta deles e embora seu discurso fosse esquerdista, não-apoiado em ideias conservadoras, ela agia como qualquer extremista político ou religioso.
  3. Kai: A versão fictícia de Manson. Kai escolheu um período vulnerável da sociedade americana para incutir ideias revolucionárias extremistas, que no fim das contas, não privilegiam mulheres ou membros da comunidade LGBT, mesmo que seus soldados sejam formados, basicamente, por esses nichos. Kai quer instaurar o medo como condutor de ideologia, para assim poder assumir o controle de modo imperialista.
  4. Beverly: A versão fictícia de Valerie, que vai ressuscitar o modus operandi criminoso com o intuito de rivalizar com Kai. No fim das contas, assim como com Valerie, Beverly estará à sombra de um homem, sem nem saber disso. 

Esse episódio foi tomado de bons momentos, que trouxeram de volta o espírito de American Horror Story em essência. Foi um deleite ver Frances Conroy de volta, junto com Dot Marie (de Glee) e com Jamie Brewer. A ideia de fazer Evan Peters encarnar Andy Warhol também é parte da proposta do show de continuar funcionando como uma trupe teatral, em que o mesmo ator pode aparecer em vários personagens diferentes. Peters está brilhante como Warhol e a caracterização fez sua delicada interpretação soar ainda mais verdadeira. 

O que mais saltou nesse episódio foi, contudo, a forma como o roteiro conduziu a trama de modo a revisitar a história, se aproveitando de elementos reais dela para satirizar teorias que acabam reforçando a temática desse ano. Foi até mesmo estratégico situar esse momento no episódio 7, depois de termos acompanhado minuciosamente a construção do culto. A compreensão acerca dos absurdos que guiam esse tipo de organização amplificou-se e acendeu um alerta de que qualquer posicionamento que não leve em consideração a vida humana, não é nada mais que um culto psicótico, uma piada sangrenta de mau gosto. 

E dá-lhe sangue para todo o lado… A ideia de brincar com a possibilidade dos crimes Zodiac serem obra do movimento SCUM é típica do deboche do show. Faz sentido dentro da mitologia e abre espaço para algumas mortes violentas que mantém a função do horror bem viva. Sempre lidando com o sobrenatural, a série agora experimenta a ideia da morte definitiva e um a um, os membros do culto de Kai vão sendo deixados pelo caminho. A morte de Harrison foi interessante, visto que mesmo sendo um homem (o que ele clama no melhor estilo pseudo-heteronormativo-superior), ele se dedica a Kai como as mulheres se dedicavam a Manson. 

Estou bastante animado para ver para onde vamos após essa ruptura do culto (que se dividiu em dois). Não deixa de ser inspirador que Manson esteja até hoje amargando a cadeia, que Valerie tenha morrido sozinha e louca e que ambos tenham passado pelo mundo com uma irônica função: serem produto de cultura pop, essa mesma cultura manipulada por Andy, que atravessa as décadas produzindo quimeras midiáticas provocadoras e que também é parte do que Ryan Murphy deixa como legado artístico. A verdade pode ser o medo, mas existe uma cura para o poder dessa verdade: a mentira, a ficção. O quão bonito não é ver que através dessa mentira estilizada por um roteiro esteja um espelho incitador essencial, o daquilo que todos precisamos ter: empatia. 

Murphy’s Cult: Na visão que Valerie tem de Andy em seu apartamento, ele aparece comendo um hamburguer. O detalhe é uma referência a um famoso vídeo em que Warhol enaltece o hambúrguer enquanto o devora. 

Murphy’s Cult 2: Grande plot twist no final, quando ficamos sabendo que Kai continua no controle de tudo. 

Muprhy’s Cult 3: Billie Lourd não foi uma boa escolha de casting esse ano.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorThe Good Doctor 1×04: Pipes
Próximo artigoMindhunter nova série Netflix | SM Play #76
american-horror-story-cult-7x07-valerie-solanas-died-for-your-sins-scumbagEsse episódio foi tomado de bons momentos, que trouxeram de volta o espírito de American Horror Story em essência.