A convergência de uma mitologia debochada e deliciosa.

Antes da temporada Coven começar, Ryan Murphy deu algumas declarações intrigantes sobre as pistas que podiam ser interpretadas dentro dos pôsteres criados para divulgação da série. Uma dessas imagens causou bastante impacto na época e provocou uma série de divagações. Nela, três mulheres (uma negra), compartilhavam uma serpente que passava pela boca de todas elas. Quando indagado sobre se havia uma referência ali, Murphy hesitou, tentou fugir pela tangente e por fim acabou dizendo que aquilo representava uma espécie de menáge macabro, o que já soava mitológico e – provavelmente –  convergente.

Com Go To Hell apresentado, já podemos entender essa pequena declaração de Ryan como uma das maiores pistas do centro nuclear de Coven: as relações entre Fiona, LaLaurie e Laveau. Já venho dizendo há muito tempo que muito do caos que se vê na temporada é confundido com descuido. Já ficou estabelecido que estamos diante da representação desestruturada de um clã e que o intuito da mitologia passou do reconhecimento dos motivos para tanto, até chegarmos ao momento em que a necessidade de superação dessa decadência fica insuportável demais pra ser ignorada.

A serpente que atravessa a boca de Fiona, LaLaurie e Laveau é uma analogia para a vaidade delas. Sempre foi a vaidade que determinou o caminho dessas personagens. Há alguma relutância em ver essa faceta em Laveau por parte dos críticos, que insistem em apontar o cuidado da rainha voddoo com os seus, como uma isenção de suas ignorâncias. A última cena da personagem, ao menos, serviu para deixar bastante claro que sua ligeira bondade era condescendente, uma maneira de tentar aliviar-se de si mesma. Fiona, LaLaurie e Laveau se encontraram num ponto específico da vida delas. Três vaidades incontroláveis, três seres humanos sem alma, convergindo num mesmo período crítico: a transição de uma suprema para outra. Coven se traduz dessa forma e esse episódio é a reiteração definitiva disso. A partir do momento em que Fiona voltou, LaLaurie foi libertada e Laveau saiu das sombras, tudo que estava à volta delas acabou sofrendo um profundo desequilíbrio, o que em termos de sobrenaturalidade, é tão devastador quanto uma epidemia.

O clã, então, ficou pendurado no que significa esse pôster. Três poderes incontroláveis, desesperados, fora de seu tempo, poluindo e bloqueando o andamento natural das coisas. Tudo que aconteceu no percurso da temporada era o reflexo direto da aniquilação sistemática provocada por esse trio. A vaidade fez Fiona voltar, a vaidade a fez libertar LaLaurie, a vaidade fez Laveau atacar, a vaidade fez LaLaurie manter-se firme nos seus ideais distorcidos. Nenhuma delas ponderou, nenhuma delas se expandiu… Elas eram intrínsecas num único e determinante objetivo: impedir o tempo de passar e conseguir com isso que o efeito mais sentido da passagem do tempo as atingisse: a perda. A perda da juventude, do poder, do controle, da relevância, da beleza, e no caso de LaLaurie, do orgulho.

Got To Hell é a mais competente convergência de tudo isso, já que é nele que percebemos de uma vez por todas, que essas três eram o maior empecilho para que esse clã se reerguesse, e fosse, enfim, tudo aquilo que se espera de uma união acadêmica de bruxaria. O clã já começou a temporada devastado, chegou no apogeu de seus enganos, e os vírus consumidores do progresso precisaram ser eliminados para que tivéssemos, no penúltimo episódio, a primeira cena em que ele agiu junto, para o bem de alguma coisa que fosse mais coletiva que individualista. O clã ressurgiu de sua dormência, lutou e venceu, no mesmo dia em que finalmente, Fiona deixou o mundo dos vivos. 

O teaser inicial já foi um desbunde… Filminho mudo, clima sombrio, e aquela boa e velha maneira de surpreender desde a primeira cena, de um jeito que só American Horror Story sabe fazer. Quem não leu a peça The Crucible, de Arthur Miller, nem viu o filme As Bruxas de Salém, estrelado por Daniel Day-Lewis e Winona Ryder, deveria fazer uma coisa ou outra, já que esse teaser de abertura tem bastante do clima visto na peça e no filme. A história começa com Tituba ensinando encantamentos no meio da floresta, para um grupo de meninas que incluem filhas dos moradores do vilarejo e também criadas das casas. Todas elas usando aquela mesma roupinha, com toquinhas, igualzinho no início desse episódio. 

Na contação ilustrada sobre as Sete Maravilhas, a bruxa que tenta o lugar de nova suprema acaba sucumbindo no teste do fogo. Esse é o movimento definitivo dessa temporada. Quando os três “maus maiores” são eliminados (Fiona, Laveau e LaLaurie), a descoberta da nova suprema se torna o clímax mais justo e mais correto para chegarmos ao fim. Fiona representa uma era de escuridão e sua substituta pode restabelecer a chance de reunião entre a natureza e suas filhas terrenas.  

Sarah Paulson voltou a brilhar e Cordelia voltou a assustar. Levei um choque quando me deparei com o resultado da mutilação do episódio anterior. Somente cega a personagem tem coisas interessantes a oferecer. E ela agiu muito bem durante todo o episódio… Confrontando Madison, desestabilizando o Axeman, libertando Misty e tomando a frente do clã quando as últimas rupturas foram confirmadas. Tudo que aconteceu em Go To Hell foi promovido por Cordelia, que mesmo mantendo alguns sentimentos conflituosos com relação à mãe, tem completa consciência de que o sacrifício dela é necessário para o desbloqueio do futuro. Por isso, não acredito que ela seja a nova suprema, já que sua personalidade se pauta na manutenção e não no controle. Enfim, posso estar errado. 

A volta de Misty também não poderia ter sido mais sensacional. Esperava que Madison levasse um tapinha, mas nunca achei que a surra fosse ser tão longa e tão catártica. Eu parecia um garoto de 10 anos, vibrando, fazendo os sons dos socos com a boca e soltando mil interjeições. Melhor ainda, foi a ironia salpicada no diálogo, quando Misty diz que não vai nem usar magia para acabar com Madison, já que pode fazer aquilo com as próprias mãos. Desse momento, até o último suspiro do Axeman, Coven só fez o que eu já esperava dela: reintegrou a clareza de seus objetivos e mostrou que sim, o público é capaz de ser retirado do submundo de devaneios que ilustraram essa temporada, para serem pegos de surpresa, torcendo por aquelas mulheres poderosíssimas sem nem mesmo se dar conta disso. “Não precisamos de nenhum homem para nos proteger”, e tenho dito. 

Houve horror para saciar mesmo o mais sedento. Acho que vale repetir aqui que a diferença entre terror e horror está na natureza do medo. O terror é a suspensão, a antecipação do perigo, o invisível que espreita, a iminência da dor. Já o horror é o choque, o incômodo causado pelo aspecto visual da dor, a violência alegórica. Stephen King costuma dizer que ele sempre começa tentando aterrorizar o espectador, ou seja, provocando medo com o que o leitor não conhece, não pode prever, não pode evitar. Se isso não funciona, ele tenta então horrorizar, fazendo com o que a razão da criação do medo seja brutal, visualmente falando, dentro do decorrer da ação. Por isso, Coven tem tanto horror quanto qualquer outra temporada e Go To Hell é um dos episódios mais “horríveis” de toda a série. Tivemos mais esquartejamentos, mais machadadas, mais sangue espirrando, mais tripas, deformações e acho, particularmente, que a sequência da morte de Fiona e depois do Axeman, estão entre as coisas mais honrosas que a série já fez. 

Chegamos então, ao ato final desse episódio, que também resolveu os destinos de Laveau e LaLaurie. A representação de inferno usada pela série não é original, mas é daquelas que sempre funcionam. Não há nada mais assustador do que reviver o período mais horrível de sua vida, incessantemente. Quennie fez uma viagem dessas (prevista entre os talentos de uma suprema) e voltou com um recadinho pro Papa Legba: Laveau virou picadinho e desse jeito ela não pode mais cumprir seu acordo, sendo assim, ela passa a ser mortal. Imediatamente, LaLaurie também perde a imortalidade e pelas mãos de sua coadjuvante direta (desde o primeiro momento), ganha o direito de morrer e ir parar no inferno. 

Foi fantástico… Madame LaLaurie virou vítima e Laveau, um eterno algoz. Notem como o roteiro foi muito esperto ao estabelecer esses papeis, porque Laveau não foi condenada a ser ferida, mas a ferir, numa resposta direta à forma como ela via a si mesma: ela gostava de acreditar que equilibrava seus pecados com benfeitorias, e por isso ferir um inocente eternamente torna sua sentença tão horrível quanto a de LaLaurie, que seria mutilada por toda a eternidade. Todo mundo sofre em algum momento e a intensidade desse sofrimento tem a ver com como são feitas nossas próprias escolhas. Um conceito realmente desconcertante, capaz de tirar o sono de qualquer um que ao contrário delas, ainda tenha uma alma. 

Nunca estive mais feliz com toda a minha fé na temporada, como agora. Go To Hell foi um presente para os crédulos e um “fique à vontade” para os céticos. Coven é uma temporada que tem a ver com envolvimento, não com incompetência. Sendo assim, cada linha de ódio proferida está totalmente dentro dos parâmetros da justiça subjetiva, mas, essa é uma temporada que não pode mais ser acusada de aleatoriedade. Se uma cobra transpassou as bocas de Fiona, Laveau e LaLaurie, traçando a maldições de seus destinos, um cordeiro foi oferecido como recompensa para as forças que conduziram Coven até aqui. 

Sete Maravilhas nos esperam na semana que vem… Sorte minha e de quem também se maravilhou, até aqui. 

Potion Number One: Kathy Bates, maravilhosa, com seu olhar mordaz, matando a guia e lambendo sangue do canto da boca. Como vou sentir falta disso… A lógica sobre arrependimentos que surge na cena dela com Quennie não é nada absurda e só demonstra mais um lindo e inteligente movimento do roteiro, que sabe muito bem como contextualizar as crenças polêmicas de algumas de suas criações. 

Potion Number Two: Myrtle, cada vez mais irresistível. 

Potion Number Three: Eu e minha seguidora @LenaGronchi conversamos um bocado sobre possíveis pistas para a próxima temporada. Bom, Margareth Thatcher e Sting são citados… Ela entrou na vida política na década de 50 e ele nasceu em 51. Os dois são britânicos, mas não sei o quanto disso pode ser útil. Ed Gein, começou a matar no inicio da década de 50, mas será que a série voltaria a falar sobre assassinos seriais? A própria televisão colorida chegou no ano de 1950, que também foi o ano do início da Guerra da Coréia, da “era de ouro” do cinema e surge como um marco no início de grandes transformações sociais e tecnológicas. Comunismo e pesquisas com DNA também são recorrentes nesse ano. Enfim, fiquem à vontade para especular. 

Potion Number Four: Lena também acha que o tiro na testa de Cordélia visto na visão do massacre, foi uma licença poética que remete ao tiro que Lana Banana deu no filho em Asylum. 

Potion Number Whatever: Sim, o retorno de Zoe e Kyle (o cão de guarda) só merece uma notinha.

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