O mal encarado, que por 13 maravilhosos episódios, encarou em retribuição.

Spoilers Abaixo:

Diz-se que a escuridão da alma não é algo que possa ser nato, ele precisa ser adquirido. Mesmo as maiores mentes criminosas do mundo teriam que ter tido sua bondade desviada de si mesmos em algum ponto traumático da vida. Isso ainda não explica porque alguns sofrem e repudiam o sofrimento, ao invés de começarem a querer incluí-los aos outros, mas de fato o mal é o primeiro passo para a criação dele. A vontade de matar não deveria surgir do tédio, mas na prática, para quem conhece o absurdo da engrenagem do mundo, matar pode ser um ímpeto tão natural e irracional quanto uma piscadinha.

Existem pessoas que não são afortunadas com a paz, e atravessam a vida sob provações terríveis. De algum modo, algumas dessas pessoas olham nos olhos da dor, e conseguem fazer algo de bom com ela. Outros não… Outros olham nos olhos do mal, e gostam do que veem refletidos neles. E o encontro com esse mal se torna a epifania de suas existências. O quão assustador não é pensar que para alguns, a felicidade é o sangue.

Nessa impressionante temporada de American Horror Story, encaramos a maldade de perto. E em todas as suas nuances. Tivemos Jude e o mal transitório, fruto da fé em valores distorcidos (sim senhores, podemos fazer o mal sem saber). Tivemos Thredson e o mal em essência, por motivos internos sádicos. Tivemos Arden e o mal latente, provocado por uma junção dos mesmos valores distorcidos de Jude, e dos mesmos anseios deslocados de Thredson. A negatividade de Briarcliff era profusa e como era de se esperar, aquele virou um território maldito. Essa é uma recorrência do trabalho da série: onde cresce o mal, permanece o mal.

Esse foi um finale até certo ponto, discreto. O circo de horrores chocantes foi esfriando-se… O apogeu do horror foi diminuindo… Ficou com Arden e Mary Capeta, escorreu junto com a saída de Thredson. E entendemos agora, com mais força, o que os roteiristas queriam dizer com isso. Ao invés de nos entregarem uma história alegórica (como fizeram na primeira temporada), eles preferiram expressar um conceito. Todo aquele desespero, aquela maldade, tudo aquilo não poderia passar sem um tipo de reflexo direto no futuro. Como disse no início, mesmo o mal mais fútil, tem bases fundamentadas em algum ponto da história. E chegar muito perto da maldade, pode nos fazer sofrê-la, ou passar a querer provocá-la.

Por isso, o encontro entre Lana e Johnny foi tão emblemático. Os dois olharam nos olhos das trevas, e de maneiras diferentes, as trevas ditaram seus respectivos futuros. Mas chegaremos lá… Vamos deixar de lado a filosofia que estou sempre tentando cavar, e falar um pouco sobre os outros apontamentos do episódio. Tivemos bons momentos…

Jude foi outro grande personagem de Jessica Lange… Um presente para ela, e para nós. As semelhanças com Lana são apontadas no ótimo diálogo travado por elas no final do episódio. Sonhadoras, ambiciosas, determinadas, dispostas a tudo… Jude profetiza sobre si ao aconselhar à jornalista que fique longe da escuridão. Nesse finale vimos uma mulher destruída por si mesma, chegando ao apogeu dos sofrimentos que lançava sobre seus internos.

A função de Kit também acabou alcançando certo lirismo. Para entender mais sobre as intenções direcionadas ao personagem, há de se ter alguma intimidade com a mitologia por trás das crenças sobre vida extraterrestre. Se você acredita, entende. Quem se familiariza com certos escritos, descobre que experiências de abdução eram grande parte da justificativa de loucura naqueles tempos. O que American Horror Story fez, foi tomar a decisão de insinuar alguma verdade nisso. Também faz parte dessa mitologia, a crença de que muitos dos benefícios alcançados pela humanidade nos foram dados através da interferência alienígena. Por isso, o sequestro de pessoas condenadas pela loucura ou pelas circunstâncias, a fim de gerar indivíduos privilegiados por uma genética alterada, ganha algum sentido. Esses seriam os filhos de Kit, que ajudaram a recolocar Jude nos eixos, e proporcionar a ela algum tipo de paz. Pensando por essa perspectiva, a história de Kit é tão trágica quanto à de Lana, e o conceito de “não olhe demais para a face do mal” acaba se estendendo à Alma, que não suportou tal visão e ceifou a vida de Grace.

Não tenho nem palavras para descrever como foi bonita a cena derradeira entre Jude e o anjo. A freira deixa a trama amparada por aqueles que torturou, e o anjo a recebe num quadro lindíssimo. A direção do episódio acerta em cheio ao dar-se a liberdade de poetizar. A jornada de Jude foi uma jornada de reavaliação do mundo… Seus conselhos aos filhos de Kit foram muito claros nesse sentido. Por incrível que pareça, Jude foi condenada por seus preconceitos, e o texto acerta muito ao não ser tão claro sobre isso, fugindo do clichê e da militância.

A série também cumpre seu papel de nos esclarecer pontos e retornar a seu início. Vimos Adam Levine de volta, tendo seu braço arrancado por uma versão agora visível de Bloody Face. O planejamento da série foi impecável, sobretudo ao determinar (agora entendo isso) que o fim deveria esclarecer a essência, e sacrificar os coadjuvantes – por mais que os amássemos – era necessário para tornar isso importante. Era o momento de conhecer o início e o fim, e entender o que levou a um, e a outro.

Foi muito esperto mostrar Lana dando um depoimento sobre sua vida. Foi muito inteligente mostrar o retorno à Briarcliff como num bizarro e assustador programa sensacionalista. Foi muito importante reafirmar a nocividade da personalidade da jornalista. O que vem ao encontro de Lana não é só a péssima decisão de manter vivo o filho do mal, mas a personificação da maior de suas péssimas escolhas: Briarcliff.

Numa cena extremamente tensa, Lana Banana prova que de banana não tem nada, e consegue novamente, subverter o mal que vem encontrá-la, e vencê-lo. Não é uma vitória propriamente dita… Lana é uma mulher atormentada pela escuridão que um dia decidiu perseguir. E no final das contas, o que importa é que o recado que nos foi dado é até mesmo contraditório, como se pode esperar de uma obra tão cheia de camadas como essa. Não se deve olhar para dentro do escuro com tanto empenho… Não se deve olhar assim nem mesmo para uma ficção como essa. O resultado dessa observação à Medusa do espírito pode resultar em pedra. No final das contas, pode ser a pedra que condenou o coração de Lana à dormência, ou a pedra que condenou o coração de Johnny ao sadismo.

E a segunda temporada de American Horror Story vai embora impecável. Eu já posso dizer que Ryan Murphy é um showrruner respeitável. Esse ano ele me alegrou com o engajamento debochado de The New Normal, e me impressionou com a brutalidade de American Horror Story… Isso sem falar em Glee, que embora no hype de ser odiada, sempre me conquistou. A série foi ousada, intensa, inteligente, criou personagens históricos e se despediu ao som de seu maior ícone.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a história por trás de Dominique, acesse esse blog: A história trágica por trás da música diz muito sobre a forma como a série resolveu retratar Jude e Lana. Elas se encontram na história da intérprete do clássico, e quando paramos para avaliar esse ocorrido, só nos chocamos mais com o quanto American Horror Story veio para impressionar.

Por fim, quero agradecer muitíssimo a todo mundo que acompanhou essa cobertura. Eu tive um retorno muito especial nessa temporada, e tive o prazer de ter leitores que me ajudaram, me desafiaram, e se deram ao trabalho de me procurar para fazer elogios e comentários preciosos. Vocês embarcaram nas minhas teorias e me fizeram sentir como se eu tivesse coisas muito importantes a dizer. Eu não seria ninguém sem vocês e essa experiência não teria sido tão boa sem isso. Em outubro estarei aqui esperando todos, e esperando mais uma fantástica temporada da nossa história de horror preferida.

Até lá.

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