Onde tudo é distorcido… E invertido.

Spoilers Abaixo:

Quando nos debruçamos sobre os compêndios da literatura mundial, nos deparamos sempre com o herói. Mas o herói a que estamos acostumados não é um conceito puro, ele se transformou com o tempo e se agregou predominantemente a ideia do “super-homem”. Os heróis viraram símbolo dos que sempre salvam, mais do que se salvam. Figuras invulneráveis e especiais. O herói virou um conceito infantil, ainda que sua verdadeira tradução seja outra. O herói é o dono de uma jornada de conquista, luta e autoconhecimento. Os verdadeiros heróis são trágicos e inevitavelmente, se redescobrem e se reconfiguram.

Inesperadamente, American Horror Story também é sobre um herói. Inesperadamente, essa grotesca trama de sobrenatural, violência, crime e profanação, também é a trajetória de um herói. Um herói que negava suas fraquezas, como qualquer outro. Um herói que subestimava sua força, como qualquer outro. Um herói que precisou chegar a algum tipo de redenção, como qualquer outro… Pois é, Lana acabou se revelando a grande protagonista da temporada, mas tomarei o cuidado de não chamá-la diretamente de “herói”, porque tudo em American Horror Story é tão distorcido, que absolutamente nenhum rótulo positivista pode salvar-se da brutalidade com que acaba sendo representado na tela. Lana é tão maldita quanto o sistema que começou tentando denunciar.

Saímos da semana passada meio assustados, e tudo só piorou agora. Perdemos Mary Capeta e Arden numa tacada só, e conforme o episódio dessa semana se desenvolvia, o pânico crescia. Tudo foi se resolvendo tão rápido, as pontas soltas começaram a ser amarradas tão intensamente, que a vontade era parar tudo e gritar: Espera aí!! Ainda faltam dois, galera. Sem medo de arriscar, as cartas foram sendo colocadas na mesa e a trama seguindo a 200 por hora. Só podemos entender com isso, que o foco do Season Finale será o presente. Algum tipo de convergência kármica nos espera, e eu não poderia estar mais ansioso por isso. Sei que muitos podem ter visto esse episódio com certo rancor por causa da saída de Mary, mas não podemos acusar Murphy de incoerência dessa vez. Começamos com Bloody Face, terminaremos com ele. Dentro desse contexto, não há espaço para Mary e Arden, definitivamente.

Foi um episódio sobre a maternidade… Seria lindo se não fosse macabro. Dylan McDermott aparece em mais um teaser perturbador, contratando uma prostituta para servir à suas projeções deslocadas de afeto compensatório. Tradução: mamar nos peitinhos. Alguém me corrija se eu estiver errado, mas não me lembro de ter visto sucção de leite em pessoas adultas por pessoas adultas na televisão, sem que o contexto fosse de produção pornô. Ainda assim, está tudo em casa… American Horror Story não parte pra ação sexual explícita, mas faz questão de explicitar certos aspectos proibidos da nossa psique. Já vimos Thredson mamando em Lana, o quão instintivo seria se isso também fizesse parte dos anseios de seu filho? Será mesmo que estamos falando de seu filho?

Cheguei a pensar que talvez o filho de Kit e Grace também pudesse virar um candidato a Bloody Face, mas já não sei mais como analisar esse plot. Tudo parece aleatório, mesmo quando sabemos que não é. Pepper dando uma de babá (como não amar a careta que o policialfaz quando vê a foto dela?) e o casalzinho atormentado trocando juras e promessas como numa linda cena de amor. A intenção é essa mesmo… No contexto da série, esse tipo de “momento feliz” fica até agressivo, porque não é isso que esperamos do programa. E é claro que a alegria dura pouco, sempre. A felicidade bizarra do casal serve para nos informar também que Alma estaria mesmo morta, mas quando Kit arquiteta seu ardil para escapar do sanatório, acabamos dando de cara com a “defunta” em seu antigo lar. O que pensar?

O jogo de inversões e distorções entre Lana e Jude continua, e é curioso, porque para todo herói, há um antagonista. Porém, no mundo de American Horror Story não há estradas paralelas e tudo vai se misturando no caminho. Jude começou como uma vilã de proporções épicas, transformando Lana numa mártir. Então, aquele processo de flagelo pelo qual Lana passou, fez com que ela passasse a não ter mais o que perder, e então veio a reação. Essa reação alcançou Jude, que já vinha sendo confrontada com suas fraquezas. As duas então se igualaram. Nessa semana, brilhantemente, vimos o quanto essa equiparação de vidas, provocou uma clareza absoluta para ambas. O episódio mostrou com plena eficácia, que tanto Lana quanto Jude têm total compreensão dos pecados que as condenou a tamanho castigo. O diálogo entre Jude e Timothy é dos mais inteligentes e bem colocados numa narrativa que já tenho lembrança de ter visto. Quando ela diz “sou mais sã agora, como louca”, ela está sintetizando toda a sua trajetória na história. Está mostrando que os roteiristas chegaram ao apogeu do seu planejamento, e quando essa frase chega a nossos ouvidos, somos transportados para tudo que vimos sobre essa mulher, compreendendo a verdade e a força dessa afirmação que ela faz. Isso é um presente para qualquer espectador…

Lana também alcançou todo o nível da compreensão de si mesma. Foi um episódio de momentos muito aguardados por todos nós. Ela FINALMENTE conseguiu sair, limpa, sem nenhum twist de último momento para impedi-la. Enquanto ela descia as escadas eu não conseguia nem respirar… Daí quase morri sufocado, porque a cena seguinte foi o derradeiro embate entre ela e Thredson e o tempo todo eu achava que ela ia se dar mal. E pra quem esperou muito por esse momento, o resultado não pode ter sido menos impressionante, já que além do diálogo ser muito correto, uma dose de necrofilia veio para nos lembrar que a coisa não é de brincadeira nesse território. Thredson encontrou seu destino, Briarcliff foi exposto, Lana virou uma celebridade… Mas ao mesmo tempo em que o “filme” parecia estar acabando – posição em que geralmente o “herói” encontra o conforto definitivo – o tom foi de melancolia o tempo todo. Lana veio para “salvar”, mas tudo que lhe aconteceu tornou sua própria salvação, impossível. “Chega de morte”, ela diz na hora do aborto… A maior de todas as ironias.

A plenitude alcançada pela série não é uma questão apenas de pornografia visual, é uma questão de força dramatúrgica, antes de tudo. Lana não aceita dar de mamar ao filho, mas uma enfermeira a confronta com essa decisão. Ela cede, mas o contato com o bebê a assusta e ela não quer nem mesmo olhar para ele enquanto lhe dá seu leite. Lana então vira a cabeça para trás, e pendurada na parede, está uma cruz, como em quase todos os leitos de hospital do planeta. A perspectiva natural do mundo é entender esse ato como um ato de proximidade com Deus e com a fé. Mas estamos em American Horror Story, senhores… Do ângulo que Lana vê a cruz, ela não representa fé, mas sim heresia, traição. Ali está uma cruz de Jesus Cristo, invertida.

Se esse não é um dos trabalhos artísticos mais belos da atual televisão americana, parem o mundo que eu quero descer.

Pepper’s Notes: Ó céus… O que esperar do fim?

Pepper’s Notes 2: Parece mesmo que visitaremos Salem no próximo Outubro.

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