Redimir Coven de tantos problemas foi a grande vitória da temporada até agora. Isso não significa que Murder House precisasse da mesma redenção.

Antes de qualquer coisa vamos estabelecer que o problema de Return to Murder House não é excesso de expectativas. Entendemos, é claro, que desde que o anúncio do crossover foi dado (e da volta de Jessica Lange) os fãs não fizeram outra coisa a não ser criar cenários possíveis em que a série recuperasse esses elementos da forma mais soberana possível. A expectativa cresceu ainda mais quando os episódios que redimiam Coven se encaixaram perfeitamente na storyline desse ano, enquanto ao mesmo tempo, recuperavam a trama da temporada de outrora com poesia e inteligência. Considerando que Murder House não tinha problemas de condução, o que poderia dar errado ao voltarmos a ela?

É uma sensação agridoce, devo dizer… Em torno de toda a análise mais apurada com relação ao episódio está a certeza de que sempre quisemos ver acontecer o que estava quase acontecendo diante dos nossos olhos. Murphy conseguiu um número admirável de remanescentes, o que nos daria uma deliciosa sensação de continuidade. Michael estava bem situado no planejamento da história e fazia todo sentido retornarmos à residência nesse ponto da trama. Enquanto Coven precisava de reajustes, Murder House deveria ser simplesmente um “espaço de visitação”. O roteiro deveria entrar lá, nos presentear com vislumbres que tocam direto no nosso coração e sair sem mexer em nada.

Ryan Murphy é um otimista – como ele mesmo diz – e o final de Murder House não esqueceu de manter essa pauta viva. Ainda que banhados de sangue, os finais de temporada do show resguardavam o mínimo de felicidade. A situação de alguns dos espíritos lá dentro era bastante triste, mas era necessária para a credibilidade do que a série pretendia para o futuro. Todos sentíamos pela situação de Moira, por exemplo, mas essa dose de pesar é valiosa para qualquer esfera da existência (real ou fictícia). Como bem diriam os Los Hermanos, “Olha lá quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar”. Se Tate nunca conseguiu o perdão de Violet e Vivien nunca perdoou Ben, isso era coerente com tudo que vimos e fazia parte de uma infinitude que tinha a ver com a mitologia da temporada. Murder House e Hotel eram sobre “para sempre”. Precisa haver consequências ou as viradas não teriam impacto.

Making a Murder House 

Sarah Paulson é um dos seres humanos mais maravilhosos que o mundo do entretenimento nos proporcionou e veio para essa empreitada cheia de boas intenções. E até a entrada de Constance na história, ela acertou em cheio. Tudo que mais queríamos era saber como seria rever Jessica Lange de volta ao seu primeiro papel no show. E foi um desbunde. Vão-se os anos e ela ainda permanece a grande dama de American Horror Story; com seus monólogos inflexionados com maestria, tornando o universo fantástico da série em vida real. Foi uma grande decisão a de mostrá-la como parte do casting de fantasmas da casa. Foi coerente, condizente com a personalidade dela, sabiamente apoiado naquilo que a personagem tinha de mais perturbador: seu transgredido senso de maternidade.

O passado de Langdon não foi para direções que já não tivessem sido previstas. Inclusive seu crescimento súbito. Já estava estabelecido para nós, fãs, que o neto de Constance teria uma parte importante no desenvolvimento das ligações entre as temporadas, então, uma passada de olhos pela descrição de seu passado não deixou a desejar. O roteiro foi muito conciso e seguro, inclusive aproveitando para incluir a pequena “tutoria” de Ben, que já havia tentado fazer a mesma coisa com Tate. Os problemas começaram, enfim, quando esse mesmo roteiro – que tinha começado tão bem – passou a interferir no que nós aprendemos ser a estrutura básica daquela mitologia.

O primeiro sinal foi a escolha infeliz de dar um final lúdico para Moira. É fato que a personagem –sempre melancólica – sonhava com essa redenção, sonhava em ter seus ossos resgatados para quem sabe conseguir escapar da prisão. Mas, por mais que entendêssemos isso, não queríamos isso. Quando aconteceu, algo pareceu errado, fora do lugar. E Sarah, te amamos muito, mas que escolhas mais cafonas. Foi terrível. Contudo, poderia ser só um deslize pequeno diante do contexto geral. A culpa, é claro, nem era da direção, mas de um roteiro que estava cego pela paixão, atirando saídas românticas e sentimentaloides como se fossem o grande sonho de uma nação.

American Horror Story: Lovely House 

Lá estávamos nós diante de uma ótima explicação de como Kathy Bates chegou até Langdon. Essa “igreja de satã” é um elemento plenamente conectado com o show e merece toda nossa atenção. Acredito, inclusive, que voltaremos a falar mais dele. Mas, enfim, o texto resvala no imperdoável quando começa a flertar com a ideia de que ao ir embora da casa (numa tosca tentativa de mostrar Tate fazendo algo de bom), Michael teria levado com ele o mal em essência, já que ele mesmo havia sido criado a partir dele. Numa tacada só, o roteiro afirma que Tate não é pai de Langdon, que Tate nem é mais tão mal assim e que o mal da casa pode ter sido reduzido apenas a manter os espíritos presos nela. Nas últimas sequências era como estar assistindo a um filme da Disney para a TV.

Em seu season finale, oito anos atrás, Murder House já atravessou o samba com uma sequência inspirada em Os Fantasmas se Divertem que tinha mais doses de humor do que o necessário. Aqui, em Apocalypse, o equívoco derradeiro ficou a cargo de Madison (logo ela). Numa tentativa aparvalhada de chegar ao extremo do otimismo e da redenção, os roteiristas arrumaram um arremedo de cena em que – num rompante de dez segundos – Madison convence Violet a perdoar Tate e os dois terminam aos beijos na janela ensolarada da residência. Era a pá de cal definitiva… Não era só porque não veríamos mais o mundo de Murder House que o roteiro precisava acabar com ela.

Ainda foi bom, ainda foi catártico, ainda ficará marcado na nossa memória como um grande momento da história da série. Mas, também ficará marcado como um momento em que as percepções foram turvas e acabaram arranhando a ótima posição que a mitologia de Murder House ocupava no ranking das temporadas. É lindo que Ryan Murphy sempre cavuque luz no meio de seus pântanos, mas para que essa luz valha a pena, os pântanos precisam ter áreas de preservação, onde o solo é sagrado e nenhum homem pode vir, tocar e arruinar.

> Elite, The Innocents e Kiss Me First – SÉRIES PERDÍVEIS!

Addie’s Memories: Finalmente vimos a outra filha de Constance. Sem olhos. Assustador.

Addie’s Memories 2: Emma Roberts e Billy Porter, dois queridinhos de Ryan, se divertiram na incursão.

Addie’s Memories 3: Legal ver Mena Suvari de volta, mas eu senti falta da Kate Mara com sua cara de maluquinha.

Addie’s Memories 4: Sarah reapareceu como Billie Dean e foi bem divertido vê-la como única visitante viva permitida na casa.

REVISÃO GERAL
Nota:
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