Para fantasiar sobre as consequências de um presente aterrador, a oitava temporada de AHS começa pelo fim.

Em oito anos no ar, American Horror Story nunca deixou de ser alegoria em essência, passeando pelos códigos culturais contemporâneos oscilando entre homenagem e deboche. Contudo, nenhum desses investimentos artísticos deixou de fazer apontamentos sócio-políticos em algum momento. Sobretudo em Cult, a estrutura da série ficou bastante voltada para a preocupação de Ryan Murphy em revelar sua perspectiva acerca do momento vivido por seu país. Cult explorou o presente pelo viés do homem comum que se deixa afetar pelo meio em que está inserido. Agora é a vez de fantasiar sobre o que seria do futuro se as coisas continuarem andando do jeito que estão.

Considerando isso é seguro dizer que Apocalypse é um complemento natural do que vimos em Cult. Ela é, também, uma oportunidade de acarinhar os fãs que acompanharam as histórias até aqui. O esperado crossover entre Murder House e Coven foi anunciado como uma oportunidade de deleite dentro do universo que vem se construindo desde esse mesmo terceiro ano, quando o sobrenome de Madison chamou a atenção de todos os espectadores. Estamos diante do “sonho colorido” de todos os fãs. Com extrema expectativa, a oitava temporada começou sem muito crossover, mas com a mesma língua afiada de sempre.

Não deixa de ser curioso… As ideias de fim do mundo que nos acompanharam por toda vida – sobretudo os que estão duas gerações para trás – eram ilustradas em panfletos religiosos com nuvens carregando Deus enquanto demônios torturavam homens e mulheres que ainda sobreviveriam ao grande caos. O apocalipse foi para mim, por muito tempo, uma ação exclusivamente sobrenatural. Foi apenas durante o crescimento natural e conhecimento das engrenagens ao redor, que a ideia de fim do mundo passou a ser reconhecida como metáfora. Se tudo acabar mesmo será por culpa nossa. Será porque algum idiota apertou um botão. AHS: Apocalypse está, mais do que nunca, no centro das questões.

Cooperative 

Lá se vão oito temporadas e com exceção da primeira metade de Roanoke, a série tem suas mesmas melodias tocando sem parar, tal qual aquelas que reprisavam-se em Asylum e agora no salão de coquetéis do Posto N. 3. Quando o episódio começa, Coco, Mallory e Gallant estão no salão de beleza, trocando um diálogo de provocações com a cultura pop e esse é justamente o tom de muitas das sequências que marcam a identidade de American Horror Story. O “fim do mundo” vem pelo celular, Coco dispensa o marido ao menor sinal de perigo e aceita salvar Gallant e a vó dele apenas porque pensa por um momento em ter seu hairstylist por perto… O mundo de Murphy é assim: uma homenagem e uma crítica constante a tudo que envolve o mundo do entretenimento.

Era bem evidente que com o orçamento do FX alguns recortes narrativos seriam necessários. As premières de AHS são sempre muito eficientes em cobrir bastante tempo de enredo e de conseguirem, mesmo assim, manter a coesão dos fatos. Entre o dia da bomba e a chegada no bunker passam-se poucos minutos de episódio e talvez por isso o texto tenha tido tanta pressa em descrever a rotina da nova morada dos sobreviventes. Mais uma vez – e como era de se esperar – também está no texto a fuga dessa burocracia. O Bunker funciona como um reflexo distorcido da realidade, pautado por conservadorismo e violência, como se fosse uma residência que pudesse abrigar todos os simpatizantes dos valores republicanos clássicos.

Wilhemina traz à cena uma Sarah Paulson contida e calculada. Kathy Bates vive a outra parte dessa “diretoria”, só que menos segura do que está disposta a fazer. As duas aterrorizam seus “hóspedes” seguindo as próprias regras, enquanto parecem também reconhecer os perigos nucleares que estão do lado de fora. Elas se reportam à Cooperative, que teria selecionado alguns perfis genéticos importantes para a sobrevivência, assim como também teria cedido vagas para quem tivesse dinheiro suficiente para pagar por elas. Tudo isso em meio a muita luz alaranjada, num cenário quase esculpido, com convidados separados por castas e vestidos como se fossem personagens de época. É uma afetação proposital… As roupas, a maquiagem pesada, as restrições alimentares, as torturas… De alguma forma, em boa parte do tempo, toda essa atmosfera nos faz desconfiar até mesmo que esse “apocalipse” realmente aconteceu.

666 

As ótimas sequências da rotina dos confinados beiram a comédia rasgada, mas são intercaladas pelo horror da fome e do tédio. Depois de meses assim, a chegada de Michael Langdon (filho de Tate e Vivien, da primeira temporada) é quase uma benção, mesmo que aparentemente ele seja o anticristo. Essa é a única dose de crossover, mas que aconteceu em circunstâncias que permitem uma série de especulações a respeito de como essas histórias vão se encontrar. O roteiro de Murphy e Falchuk deixa tudo em suspenso, mas permite a latência dessas teorias. Essa foi uma premiere que estabeleceu bem os terrenos por onde vai, mas que caminhou pouco na trilha da convergência com os anos anteriores, possivelmente porque é daí que virão algumas respostas.

Me atrevo a dizer que as ampulhetas do teaser e as velas voltando a ser acesas na abertura dão uma dica de que o tempo é um agente importante desse imbróglio. Acredito que de alguma maneira as bruxas de Coven podem ter alterado o curso do tempo, o que explicaria o retorno de personagens que morreram na temporada correspondente e que permitiriam o retorno da humanidade, algo bem mais condizente com o otimismo típico do trabalho de Murphy. Outra possibilidade é de que a academia das bruxas ou a casa de Murder House tenham sido terrenos neutros na ordem da finitude e que Cordélia tenha ido atrás de Langdon ao saber de sua existência. Nesse caso, o que veremos de Murder House serão flashbacks de quando as bruxas estiveram por lá.

Seja como for, Apocalypse é uma temporada para o nosso absoluto prazer. Estaremos cercados de personagens amados, tomados de belas atuações e textos cheios de humor e acidez. A natureza humana sempre foi a base de tudo na série (lembrem-se da frase all monsters are humans) e dessa vez não será diferente, com a anarquia hierárquica funcionando como arma contra todos que não podem pagar para se manterem vivos. Mesmo que viciada na própria melodia, mesmo que ansiosa para dizer tudo de uma vez, mesmo que afetada pela própria mitologia, American Horror Story é simplesmente irresistível; e sabe como começar sendo forte, ainda que esse começo seja um retrato do mais cancerígeno fim.

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Primeira Trombeta: Billy Eicher aparecer só para aquilo mesmo? Duvido.

Segunda Trombeta: Só eu queria ver a tal série sobre Free Willy?

Terceira Trombeta: Enquanto Joan Collins já é uma personagem para entrar na galeria de personagens inesquecíveis, continuo achando que Billie Lourde está sempre falando como a Channel Number 3.

Quarta Trombeta: A abertura voltou com cenas da primeira e da terceira temporada. A música também voltou ao arranjo original.

Quinta Trombeta: O visual de Langdon me fez lembrar de Tom Cruise em Entrevista com o Vampiro.

Sexta Trombeta: Notaram a atriz grandona de Freak Show?

Sétima Trombeta: Eu estou louco ou estava escrito Lucifer na assinatura que vimos no crachá de Michael?

É isso senhores. Estamos juntos para mais um ano de American Horror Story.

REVISÃO GERAL
Nota:
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american-horror-story-apocalypse-8x01-the-end-season-premiere Apocalypse é uma temporada para o nosso absoluto prazer. Estaremos cercados de personagens amados, tomados de belas atuações e textos cheios de humor e acidez.