Se você viveu os anos 90, responde aí: o que você realmente achava de Monica Lewinsky?

A resposta para essa pergunta é essencial para que a experiência da terceira temporada de American Crime Story faça sentido para você. Quando Jeffrey Toobin escreveu o livro A Vast Conspiracy, ele não estava exatamente pensando em recortar sua narrativa para que o público compreendesse melhor o lado de um ou de outro personagem. E nem deveria, já que ele escreve não-ficção. Mas, nenhuma das temporadas de American Crime Story aconteceu em termos jornalísticos. Ryan Murphy quer te convencer de alguma coisa e para isso ele vai angular sua narrativa do jeito que puder.

Se você, como eu, viveu plenamente os anos 90, deve se lembrar de como o escândalo entre Bill Clinton e Monica Lewinsky foi tratado na mídia. A internet como conhecemos ainda não existia, o que tornava a TV aberta o único recurso disponível para especulação. Como Bill Clinton era um presidente considerado “charmoso”, “sedutor”, cabia a Monica ser tratada de maneira pejorativa. Ela foi considerada oportunista em algum momento, mas, geralmente, burra e “gorda demais para ser amante de um presidente” eram o tipo de rótulo que lhe cabia entre meios informais de comunicação e programas de humor.

Basta dar uma assistida nesse esquete do Saturday Night Live, logo abaixo, para ter um bom exemplo. John Goodman foi escalado para viver Linda Tripp e na cena, Monica e a confidente não param de comer um segundo.

O humor não conhecia fronteiras; e representava partes das impressões públicas, como até hoje. Monica era tratada como burra, logo depois como cínica, logo depois como aproveitadora, logo depois como louca… e Clinton continuava sendo “charmoso”, o homem cheio de likeability, o marido que foi tentado pela curvilínea estagiária. A piada maior era ele ter sido desmascarado logo por causa dela, a “gorda”. Um homem poderoso como ele poderia ter uma top model como amante… Mas, predadores preferem o sabor da vulnerabilidade.

Foi pensando nisso que a terceira temporada de American Crime Story saiu do papel. Depois de muito tempo de espera, Murphy finalmente decidiu o tema, procurou Monica Lewinsky, convenceu-a a assumir um cargo de produtora na temporada e fez o recorte que o livro de Toobin não poderia fazer. Mais importante que o caso em si era o seu entorno, do mesmo jeito que sempre aconteceu nas outras temporadas. Quem era Monica Lewinsky? Por que Linda Tripp usou-a daquela maneira? Por que Bill Clinton não pagou pelo que fez com mais do que a fama de um marido infiel?

The Last West Wing

É curioso ver como funcionam esses recortes. No livro de Toobin, boa parte das primeiras páginas é dedicada a esmiuçar a vida de Paula Jones. No vídeo logo abaixo, no minuto 00:23, é possível ver um pedaço da mesma entrevista coletiva que aparece nesse primeiro episódio. O vídeo reforça a exatidão da interpretação da atriz Annaleigh Ashford; e também resume o começo do que seria esse verdadeiro caos vivido pela administração Clinton no final daquela década.

Apesar da grande atenção de Toobin ao processo de Paula Jones (que foi o que começou tudo), Ryan Murphy resolveu pegar outra rodovia e estabeleceu a maior parte dessa premiere no território de Linda Tripp. Há uma razão para isso: Linda aparece nesse episódio de estreia enfurecida com uma traição, enfurecida porque tem uma colega ouvindo suas conversas ao telefone, quando sabemos que, no futuro, ela fará essas mesmas coisas com Monica. Se o semblante dela te chocou um pouco, dá uma olhada no vídeo abaixo, onde é possível ver várias cenas da época.

Que Sarah Paulson está inacreditável no papel, não é surpresa nenhuma. No vídeo acima, Linda, já nos dias de hoje, fala sobre como ela mesma se choca ao se deparar com as imagens e que era absolutamente impossível não vê-la como uma vilã, já que ela até mesmo se parecia com uma. É evidente que dessa vez Sarah não está à frente de uma personagem que será defendida pelo mundo, mas de uma mulher quase monstruosa, de onde a narrativa precisa, de algum jeito, extrair humanidade. Considerando que todas as estreias dirigidas por Murphy são ligeiramente desorganizadas, é preciso acompanhar o que vem por aí, para saber como serão dimensionadas todas essas personas.

Inclusive, no final desse vídeo aí acima, Linda também afirma que não acredita que haja perdão possível entre ela e Monica. American Crime Story Impeachment pode ser outra brilhante temporada da antologia justamente porque todas essas contradições estão em suspenso: que mundo era aquele em que o assediador era perdoado, em que a vítima era ridicularizada, em que adversários usavam o abuso não para parar o abuso, mas para vencer o abusador, em que o pecado maior era ser gorda, em que o assédio era só um detalhe…

Não deve ter sido fácil, também, lidar com a presença de Monica na produção executiva da série. Em entrevistas, Monica disse que chegou a pedir que Ryan Murphy retratasse alguns de seus momentos mais constrangedores, para que a narrativa fosse o mais clara possível. Mas, não podemos esquecer, de modo algum, que esse foi um trabalho criado para ser a voz de Monica (uma voz que nunca deram a ela) e que fazê-la reviver detalhes de um trauma não seria necessariamente o objetivo da equipe.

O segundo episódio, então, acabou sendo emblemático nesse sentido. Mesmo que os momentos entre Monica e o Presidente estejam aparecendo aos poucos, eles estão claramente sendo contados a partir da perspectiva dela. No livro de Toobin esses encontros tem seus detalhes sexuais muito destacados, mas, pelo menos até agora, eles não foram inseridos no desenrolar dos eventos. Clinton tinha muito pouco tempo sozinho e fazia valer todas as oportunidades que surgiam. Então, mesmo que não fosse possível ir muito longe, ele sempre fazia alguma coisa.

É nesse ponto que a narrativa da série encontra seu ponto de tensão. Embora o primeiro encontrro entre Monica e Clinton tenha acontecido daquela maneira, no mesmo dia eles tiveram um segundo encontro, em que a mão do presidente ficou o tempo todo dentro da calcinha dela, enquanto ele falava ao telefone. De fato, toda a descrição dessas situações no livro de Jeffrey Toobin é quase gráfica e isso, é claro, exclui a possibilidade de que o público – no caso, o leitor- perceba a história por uma perspectiva ingênua e romântica, que é como ela era vista – é claro – dentro da cabeça de Monica. Faz sentido, então, que a série tenha tomado a direção que tomou.

Talvez a decisão de picotar demais a narrativa não tenha sido exatamente positiva, uma vez que a edição acaba nos deixando um pouco perdidos na ordem dos eventos. Tudo que já foi mostrado entre Monica e Clinton, juntos, aconteceu antes que ela fosse transferida para o Pentágono (e muito ainda está por vir), mas saber o que veio depois de que é uma missão complicada para o espectador e que faz diferença na hora de montar o quadro de expectativas da moça. O vídeo abaixo, inclusive, foi refeito na série e aconteceu um dia depois da reeleição de Clinton, quando Monica estava no Pentágono. Os dois só teriam mais um encontro sexual antes da bomba explodir.

Além disso, não sei até que ponto a dramaturgia ganha com o espaço para a história de Paula Jones. Ela foi um elemento importante, já que sem ela os envolvidos na conspiração para derrubar Bill jamais teriam começado a investigar outras ocorrências. Mas, por mais que a personagem seja fascinante (e ainda tenha Judith Light, maravilhosa, em seu núcleo), ela acaba desviando a trama nos nomentos errados e prejudicando um pouco a fluidez. Isso acabou acontecendo com o núcleo jornalístico também. Tenho certeza que todos esses elementos vão convergir de modo mais fluído no futuro, mas é impossível ignorar suas influências agora.

De tudo, fica a presença substancial de Sarah Paulson, que não desperdiça absolutamente nenhum frame como Linda Tripp. De tudo que ronda a adaptação, talvez seu aspecto mais original seja a ligação entre ela e Monica. Sempre houve uma dúvida sobre até que ponto Linda realmente gostava de Monica ou estava apenas usando-a. Sarah luta para encolher a amargura daquela mulher em pequenos flashes por onde vazam afetos pela menina, mas são tantos pesares, tanto ressentimento… É seguro dizer que Monica foi usada por absolutamente todos que a cercavam? O mais incrível é isso mesmo: tudo é uma questão de para quem – e como – você quer olhar.

Estamos de volta, senhores. É hora de reviver pedaços da história do jeito mais elegante e dramático da TV.

Linda’s Tapes:

  • Linda Tripp realmente tinha verdadeiro horror dos Clinton e costumava se gabar de ter vivido a Era de Ouro da administração do Bush pai. Mas, a cena com Hillary no banheiro foi apenas dramatização.

  • Paula Jones chegou mesmo a fazer um desenho do pênis de Clinton, que acabou se tornando famoso por ter uma curvatura “peculiar”. Mas, em seus depoimentos, Monica discordou que a anatomia do presidente fosse aquela.

  • Não há muita certeza de como Linda foi expulsa da Casa Branca, mas todo o arco da saída dela e da chegada até o Pentágono foi muito fiel ao livro de Toobin.

  • Linda e Monica se conheceram mesmo no Pentágono, mas primeiro elas conversavam sobre dietas e fofocas em geral. O encontro começou porque Monica percebeu que Linda tinha fotos do presidente em seu espaço de trabalho (que na série não é exatamente a sala dela) e pediu uma.

  • Linda realmente desconfiou que Monica tivesse um caso com alguém importante na Casa Branca, mas só foi ter certeza de que era Clinton um bom tempo depois. Ao todo, 11 pessoas já sabiam quando Linda descobriu a verdade. Monica já havia contado para a mãe, uma tia, o terapeuta e alguns amigos.

  • Embora na série tenha parecido que Monica disse que tinha um crush no presidente no primeiro encontro, eles flertaram por um longo tempo antes disso.

  • Clinton realmente deu presentes para Monica e recebeu alguns dela. Quem intermediava isso era a secretária pessoal dele, Betty.

  • Clinton realmente apertou as mãos de JFK e esse momento foi capturado em vídeo. Olha aí:

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