Provocativa, American Horror Story está de volta com Election Night, satirizando as eleições americanas e estuda uma das maiores engrenagens da sociedade contemporânea: o medo.

Quem sofre de algum distúrbio de ansiedade – e eu sei porque sofro – sabe que crises se desencadeiam baseadas num irracional medo do que ainda nem aconteceu. Chega a ser intrigante justamente porque essa também é uma das raízes do terror, que ao contrário do horror, nos assusta pelo que ainda não mostrou. Mesmo sabendo que aquele silêncio e aquela escuridão representam algo que está por vir, não conseguimos impedir que o corpo ligue os alertas da autoproteção. O medo é o escudo psíquico do que é imponderável e ele é tão facilmente provocado que o sentimos mesmo diante de algo inofensivo como a ficção.

American Horror Story: Cult 7x01: Election Night [Season Premiere]
American Horror Story: Cult 7×01: Election Night [Season Premiere]
Historicamente, os americanos são um povo que cresceu dentro da cultura do medo. Como todo povo invasor, que massacrou nativos para ocupar um espaço, eles começaram a ser biologicamente inclinados à paranoia. O curioso é que embora tenham criado uma fama de soberania intelectual e artística, essa paranoia se manifestou ao longo dos séculos pelo viés da violência. Para ocupar um espaço eles massacraram índios, para reafirmarem superioridade eles massacraram escravos, para preservarem os valores religiosos eles mataram “bruxas”, para se vingarem do terror promovido pelas organizações extremistas eles tomaram com fogo terras que não lhes pertenciam. Sabemos que todo o mundo tem uma relação direta com a violência, mas o americano – e estamos falando de histórias americanas – vive através do medo.

https://youtu.be/r2hWdB86ZKI

No vídeo acima uma matéria do Fantástico mostra como os americanos estavam lidando com ataques de palhaços assustadores no final do ano passado. A matéria tem um tom divertido, tenta salvar um pouco a reputação dos artistas, mas efetivamente, embora muitos vídeos da internet sejam falsos, o fato é que palhaços com máscaras assustadoras começaram a surgir pelas ruas americanas, aumentando a onda de pânico que já vem se estabelecendo no país desde que o 11 de setembro tornou possível o terror em escala massiva. O americano regular passou a temer tiroteios em escolas, homens-bomba, aviões-bomba, estrangeiros e até candidatos a presidência. Se qualquer um pode chegar à Casa Branca, qualquer coisa pode realmente acontecer.

Assim, quando Election Night começa, o resultado da vitória de Trump dá o gatilho em duas personalidades que sofrem diretamente essa grande transformação. Kai é um jovem que tem uma perspectiva que ele considera “revolucionária” acerca desses eventos. Como todo psicótico, ele considera ter acesso a uma visão do mundo que vem sendo ignorada pelo poder estabelecido e começa a juntar um séquito (ou um culto) de pessoas que compartilham de sua filosofia: o ser humano precisa temer para ser controlado, porque o medo é sua emoção mais poderosa. Do outro lado, Ally é uma mulher constituída do medo. O medo é tudo que ela conhece. Quando Trump vence, ela perde o controle da própria ansiedade e permite que o pavor a possua com verdadeira violência.

Cultuados 

As inspirações para esse ano de American Horror Story não param na história real dos palhaços assustadores e nem na teoria divulgada pelo próprio Murphy de que cada ano seria equivalente a um dos infernos da Divina Comédia (sendo essa temporada equivalente ao inferno dos hereges). Essa talvez seja uma das premieres mais organizadas do show, visto que ela se consolida apenas nas dinâmicas opostas entre Kai e Ally, que são defendidos por Evan Peters e Sarah Paulson com a intensidade necessária. O plano dele é instaurar o caos através do medo absoluto e ela vai se paralisando a cada nova fobia que se instaura: palhaços, escuro, formas geométricas e por aí vai. Faz todo sentido, então, que se o que Kai procura é retirar da sociedade a sua já frágil sensação de segurança, seu plano também inclua a morte aleatória e violenta que nos remete muito a filmes como The Strangers e The Purge, ou mesmo a home invasions reais e assustadoras como as que foram promovidas pela Família Manson. Ainda que a atitude de Kai não pareça aleatória de início, o que ele quer é que qualquer pessoa – sobretudo o americano de classe média, que é quem, no final das contas, faz a roda girar – se sinta desprotegida.

American Horror Story: Cult 7x01: Election Night [Season Premiere]
American Horror Story: Cult 7×01: Election Night [Season Premiere]
Esse é outro ponto importante de Election Night. Embora a vitória de Trump seja ilustrada como um ato de horror do mundo para com ele mesmo, o roteiro resolve o impedimento da empatia com muita sátira. Kai e Ally são, em alguma instância, caricaturas dos dois lados dessa moeda. Ryan e Falchuk foram inteligentes ao situarem a personagem de Sarah dentro de um ambiente desinfetado, bem-sucedido, consumista e “seguro”. Assim como vimos no Brasil – em que jovens hipócritas que enganavam o sistema de bolsas do pró-uni enquanto pintavam a cara nas ruas pedindo o fim da corrupção –  a classe média americana também sobre de posicionamento político pasteurizado, cheio de discursos reproduzidos e senso de superioridade. O foco não é denegrir Trump, mas respeitar a essência do que é o horror e maximizar esses comportamentos extremistas.

Curiosamente, Cult estreia bem perto da chegada de IT aos cinemas e repete não só o símbolo do palhaço assustador, como também reforça essa discussão acerca do medo. No filme, a “coisa” que está raptando crianças se alimenta do medo e se transforma naqueles que são mais íntimos. Essa premiere de AHS talvez seja a menos lúdica, mas é – assim como a de Roanoke – parte de um investimento pesado da série nos males da natureza humana contemporânea. Desde Hotel são três anos acessando o vício, a ira, a vaidade e o oportunismo. Tudo isso sem deixar de lado o horror e a identidade visual da série, que depois de ter se ausentado propositadamente na sexta temporada, está de volta.

American Horror Story: Cult 7x01: Election Night [Season Premiere]
American Horror Story: Cult 7×01: Election Night [Season Premiere]
Enfim, provavelmente a partir daqui vamos acompanhar como Kai conseguirá aumentar seu culto de medo e como esses personagens que já conhecemos (e outros que estão por vir) vão se conectar. Esse jogo de loucura deve se desfazer à medida que os ataques continuarem e posso apostar que assim como Winter foi seduzida pelo discurso pessimista de Kai, outros comeração a ponderar se o que o mundo precisa mesmo não é de pura anarquia. Enquanto isso, o horror tão gráfico de palhaços erotizados e psicóticos espreitando na relva vai manter latente a essência de American Horror Story, que a despeito de todas as dúvidas continua mostrando que sabe escolher o que quer dizer e como quer dizer. Depois de anos jogando com a síntese do medo, ela vai investigar o tanto que o ser humano é capaz de fazer para livrar-se dele.

Murphy’s Cult: A participação do palhaço Twisty, até agora, soa absolutamente desnecessária. Espero que eles tenham algo mais em mente do que um simples fan service. 

Murphy’s Cult 2: A abertura está de volta, com novo arranjo musical (sempre com o original de base) e com a sigla da série aparecendo no lugar do título completo. A escolha é bastante condizente com o mundo de redes sociais que a temporada presente visitar. 

Murphy’s Cult 3: Billie Lourd não está num personagem cômico, mas ainda preserva parte do olhar sem vida de sua Channel, em Scream Queens. Aqui nesse caso, entretanto, essa parece ser uma característica igualmente bem-vinda. 

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Murphy’s Cult 4: Murphy declarou que mesmo que Hillary tivesse ganhado, a história ainda seria a mesma. Mas, ela teria o mesmo impacto? 

Murphy’s Cult 5: Chaz Bono sem um antebraço, no supermercado. O que vem por aí?

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