
Um balanço geral da penúltima temporada da série.
Spoilers Abaixo:
Ao final da terceira temporada de Chuck, os produtores da série vibravam com a qualidade alcançada por eles, que criaram uma temporada que pode-se se chamar de perfeita, com episódios empolgantes e emocionantes. Mais uma vez, os fãs puderam comemorar a renovação para mais um ano, depois de escapar do cancelamento pela terceira vez seguida. A grande questão era: seriam os roteiristas capazes de manter o mesmo nível de excelência obtido? Passado um ano, essa pergunta torna-se muito fácil de responder. Chuck não consegue nessa quarta temporada atingir aquele nível de qualidade, mas ainda assim rende ótimos momentos, estabelecendo uma identidade que a série vinha criando desde sua primeira temporada.
Quem acompanha minhas reviews de Chuck sabe que insisto em dizer que a série trata de relacionamentos familiares. Essa é a grande essência das histórias. Isso fica claro à partir do momento em que Stephen Bartowski dá às caras, e mostra que a presença de Chuck no mundo da espionagem vai muito além do mero acaso e de um “presente” de Bryce Larkin. É nesse momento que a série passa a ter um enfoque muito grande no tema “família”, envolvendo até Casey, que conhece sua filha Alex, fato que engatilha uma evolução muito grande do personagem, que passa de coronel cruel a companheiro fiel. E esta quarta temporada leva muito a sério esse tema, tornando-o assunto principal para o desenvolvimento dos plots primários.
É assim que a temporada começa. Após descobrir, no season finale anterior, que sua mãe também tem envolvimento com a espionagem, Chuck decide procurá-la, e logo descobre que Mary Bartowski trabalha atualmente para as Indústrias Volkoff, do vilão russo Alexei Volkoff. Muitos podem dizer que envolver mais um membro da família Bartowski soa como uma tentativa artificial de reciclar tramas anteriores. Não vejo dessa forma. Pelo contrário, penso que, se Mary não pertencesse a esse mundo, não faria muito sentido o sumiço da matriarca. Além disso, nada mais comum que duas pessoas de uma mesma área acabem ficando juntas. Chuck e Sarah é o maior exemplo disso. O que seria inaceitável e extremamente artificial seria se Ellie se tornasse espiã, seja absorvendo o Intersect ou de qualquer outra forma. Nesse ponto os roteiristas são muito felizes, evitando esse tipo de abordagem.
Com relação à trama principal da temporada, fica evidente que o formato de Chuck sofre um desgaste, principalmente nos dez primeiros episódios, antes do hiato de final de ano. Ao tentar igualar Volkoff à Aliança, os casos da semana acabam soando repetitivos, e sem a mesma qualidade da temporada anterior. Além disso, a indecisão do roteiro em definir se Mary é uma vilã ou mocinha incomoda bastante. Até que chegamos ao episódio Chuck vs. The Fear of Death, talvez o pior capítulo que a série já tenha exibido em sua história. Nele, ficam evidentes os problemas do roteiro, bem como a ineficácia da maneira como os roteiristas procuravam conduzir a história, tentando manter o que já havia dado certo na terceira temporada. Além disso, a relação entre Chuck e Sarah começava a ser excessivamente repetitiva, fazendo com que os dois deixassem de ser o grande atrativo da temporada.
Mas, 2011 chegou, e com ele, a redenção. A primeira coisa que os roteiristas procuraram fazer é dar um novo fôlego ao casal que não conseguia mais render os bons momentos de antes. Assim, Chuck vs. The Balcony trata exatamente desse tema, quando Chuck prepara um pedido em casamento, que não acontece. Nesse momento, a série consegue retomar o rumo e voltar a atrair com o que tem de mais interessante: seus personagens. E é inegável que Chuck e Sarah sejam um ótimo casal, e os roteiristas são felizes ao prepararem os dois para algo diferente, evitando que permaneçam na mesmice que estavam nos dez primeiros episódios.
Já em relação ao arco principal, a mudança acontece quando chega Chuck vs. The Push Mix, o melhor episódio da temporada, que finalmente diferencia Volkoff de outros vilões abordados na série. Até então, o roteiro tinha explorado de maneira muito superficial o fato de ele ser o único vilão que era de fato uma pessoa. Tanto a Fulcrum como a Aliança não eram chefiadas por um personagem específico, que realmente aparecesse e tivesse sentimentos, medos, manias, etc. E finalmente os roteiristas parecem ter entendido isso, evitando que Volkoff apenas tivesse uma paixão platônica superficial por Mary. Aliás, repare como na segunda metade da temporada a série procura não mencionar de forma tão contundente esse romance entre os dois.
Eis que surge Vivian Volkoff no caminho do Team Bartowski, em Chuck vs. The Masquerade. Nesse ponto, a série não contava com nenhuma trama principal, e a necessidade de envolver a garota na história passa por uma identificação interessante dela com o próprio protagonista. Os dois caíram de paraquedas em algo que jamais imaginaram. A diferença é que Chuck tornou-se mocinho, ela vilã. O paralelo ainda se completa ao revelar-se a relação entre Alexei Volkoff e Stephen Bartowski. Por mais que os roteiristas tenham procurado a solução mais simples para manter vivo o arco principal, considero interessante a maneira como o roteiro trabalha ao mostrar a influência da família na vida de qualquer pessoa. Aconteceu para o bem, com Chuck, e para o mal, com Vivian.
Nesse ponto, a história se encaminha para seu final, e Volkoff volta a ser a pessoa boa que fora antes de se tornar o Agente X. É verdade que o desfecho encontrado para a trama é excessivamente amistoso, mas a tensão gerada no episódio anterior ao season finale e durante o capítulo final conseguiu conduzir toda esse desfecho de maneira competente. Principalmente por evitar cair em uma política maniqueísta de construir seus personagens, encerrando a temporada de forma totalmente oposta ao princípio desta. Se em Chuck vs. The Anniversary, Volkoff era um bandido perseguido pela CIA e Chuck, Sarah e Casey os perseguidores, ao final da temporada o ex-vilão russo/inglês passa a ter uma tranquila vida longe da ação, enquanto o Team Bartowski passa a viver nas sombras.
No que diz respeito aos personagens, é interessante perceber a evolução de cada um durante essa temporada. Chuck vinha sendo trabalhado pelo roteiro desde o primeiro episódio, uma vez que é o protagonista, mas os coadjuvantes nunca tiveram a oportunidade de ganhar um desenvolvimento sólido e perceptível, com exceção de Sarah, em alguns momentos. Aqui, Chuck e Sarah se estabelecem como casal, e a garota finalmente abandona sua face solitária, entregando-se ao romance com o espião mais atrapalhado de todos os tempos. É bem verdade que o casal entrou em pane criativa durante a primeira metade da temporada, mas o pedido de casamento de Chuck e a proximidade da cerimônia recuperaram o aconchego que os dois representam para o espectador. Após esses acontecimentos, eles voltaram a ser divertidos, ajudados por um roteiro com um senso de humor característico, que funciona muito bem em quase todos os momentos. Além disso, o casamento dos dois é sem dúvidas um momento emocionante, por todos os elementos que levaram a ele, e, principalmente, pela identificação que o espectador tem com o casal, construída ao longo das quatro temporadas.
Já Casey possui como principal argumentação o seu desenvolvimento como pai, após finalmente entrar em contato com Alex. Apesar de Adam Baldwin não ser exatamente o ator mais versátil do mundo, o personagem cresceu muito nessa temporada, evitando se tornar apenas o coronel durão que adora armas e explosões. Personalidades como a que ele possuia até aqui são muito limitadas em termos narrativos, não permitindo que os roteiristas tenham muito a explorar ao longo de muitas temporadas. Diante disso, é importante notar como o roteiro tem a habilidade de fazê-lo crescer sem jamais perder a essência, mantendo a coerência e a capacidade de fazer o espectador soltar boas risadas.
Não é possível falar desta temporada de Chuck sem comentar sobre Morgan. O nerd inocente apresentado há alguns anos simplesmente não existe mais. Ele cresceu, como deveria ter feito durante sua adolescência. Aliás, é dessa forma que o personagem foi concebido, como uma eterna criança. Mas, ao ver que tudo ao seu redor se modifica, ele passa a crescer também, mas, como no caso de Casey, sem perder a essência. Nesse ponto, o coronel e Alex são importantíssimos, por representarem a mudança na vida do rapaz. Se antes as únicas amizades de Morgan além de Chuck eram os hoje desnecessários Jeff e Lester, hoje ele tem namorada, e conversa como gente grande com Casey.
Até que o rapaz recebe para si, por acidente, o Intersect, mudando de forma brusca o rumo da série para a quinta temporada. Não sei como os roteiristas pretendem desenvolver essa história, e se Chuck realmente passará o último ano apenas com suas habilidades naturais, mas a verdade é que o roteiro encontra uma solução muito inteligente, com uma rima temática que, embora extremamente óbvia, mostra que Morgan chegou ao patamar de seu melhor amigo, coroando as mudanças nos rumos da série já citados nos parágrafos acima.
Dessa forma, é possível dizer que Chuck se reinventou completamente durante essa quarta temporada, mantendo no entanto suas características principais, como o humor leve e a simpatia dos personagens. Essa temporada é sem dúvidas inferior à anterior, e realmente demora para estabelecer-se em um nível satisfatório de qualidade. Apesar disso, seria um pecado dizer que Chuck passou a ser uma série ruim. Pelo contrário, consegue abrir ótimas possibilidades para desenvolver sua última temporada, e tem um grande potencial de criar para si um final digno de uma série que, se não é brilhante em termos narrativos, raramente falhou em atingir sua proposta.
Melhores Episódios
4×24 : Chuck vs. The Cliffhanger
Piores Episódios
4×07 : Chuck vs. The First Fight
4×08 : Chuck vs. The Fear of Death














