Novo filme do cineasta abre espaço para ser interpretado como uma das maiores autocríticas que ele já se fez.

Quando “Armadilha” começa, o pai de família Cooper (Josh Harnett) está chegando com a filha Riley (Ariel Donaghue) ao grande show da cantora pop Lady Raven (Saleka Shyamalan). Aquele geralmente é um programa que as meninas adolescentes fariam com as mães, mas Cooper tem uma profissão – e um segredo – que o impede de estar com a família pelo tempo que seria justo que ele estivesse. Então, ele está ali se esforçando para fazer o que a filha gostaria que ele fizesse.

No show, tudo correria perfeitamente bem se não fosse pela evidência constante de que algo está fora do comum no estádio. Preocupado, Cooper fica procurando desculpas para se ausentar o tempo todo do próprio lugar na plateia. Todas as desculpas são ruins; a ponto de em determinado momento, Riley se queixar com uma frase que Cooper estava bastante acostumado a ouvir: “Você fica saindo toda hora”. Ele promete que não vai sair mais; e sai. Ele consegue que a filha se aproxime de seu ídolo, mas não porque quer fazer isso por ela, mas porque aquilo serve aos seus propósitos. De repente, aquele show não é mais sobre Riley; é sobre ele mesmo, o pai que guarda um segredo.

Night Shyamalan é aquele tipo de cineasta pelo qual grande parte dos cinéfilos da geração Millennial se apaixonou e defendeu, por muitos e muitos anos. Depois que “Fim dos Dias”, “O Último Mestre do Ar” e “After Earth” aconteceram, essa carreira celebrada passou por sérias reconsiderações. Seu período de maior turbulência foi entre esses filmes, que aconteceram entre 2008 e 2013. Também foi nesse período que suas filhas mais velhas (nascidas em 1996 e 1999) se chocavam com a adolescência em meio às críticas e as pressões que o pai enfrentava. Mais de 10 anos depois, é como se Shyamalan buscasse entender, detectar ou justificar a si mesmo nesse complexo “Armadilha”.

Cooper é um serial killer em atividade, tentando equilibrar a profissão de bombeiro (que implica servir aos outros) com o segredo do assassínio (que implica passar por cima dos outros); enquanto em devida proporção, Shyamalan parece alegorizar a própria posição de cineasta (que serve aos outros) com o monstro da indústria (que passa por cima dos outros). Cooper finge que vai ao show pela filha e com isso, Shyamalan está nos dizendo que ele mesmo fingira que o mergulho no abismo de Hollywood era por outrem, quando, no fim das contas, tudo era sobre si mesmo.

De súbito, a carreira do diretor viu-se obrigada a agir em favor daqueles que ele –eventualmente – negligenciava. A filha Ishana ganhou a tutela do pai para levar ao mundo seu primeiro longa, Os Observadores. Quase ao mesmo tempo, Saleka ganhou um papel de extrema importância em “Armadilha”, onde não atua apenas como atriz, mas como cantora e compositora de toda a trilha do filme. É como se o cineasta estivesse pegando as duas filhas pelas mãos e levando para o “show”, para que assim pudesse compensar sua “monstruosidade” autodeclarada. Ele, contudo, segue sendo um “monstro” e não por coincidência, escala Hayley Mills – conhecida por ser um ícone de comédias infantis como Pollyana e a versão de 1961 de Operação Cupido, que também tem em seu título original a palavra “trap”) – para ser algoz de seu assassino.

Visto sob essa ótica, “Armadilha” funciona melhor do que simplesmente um filme de suspense. Contudo, essa é uma ótica bastante específica, que está sendo usada aqui – admito – à luz de um profundo respeito e admiração pelo artista. Ainda acredito verdadeiramente na relevância dessa ótica, mas o filme precisa ser capaz de existir à revelia dessa “masturbação” analítica. Se ele foi vendido como um filme de suspense, ele precisa ser suspensioso.

E ele é. Por trás de todo filme de Shyalaman existe uma boa ideia; e a de “Armadilha” é tão boa quanto todas as outras que ele teve: um show inteiro foi montado para tentar capturar um serial killer; só que ele descobre e começa a tentar fugir. Essa nova “grande ideia” do cineasta permeia mais da metade do longa, sinalizando o mínimo de proximidade com sua premissa original (o que é importante quando se tem essas “grandes ideias”). Essa é, também, a primeira vez em que o diretor-roteirista não descamba para o sobrenatural/fantástico/parece-que-é-fantástico (considerando que A Visita é vendido com um sobrenatural, por exemplo).

No que diz respeito ao jogo de gato-e-rato típico desse tipo de história, Shyamalan deixa tudo a contento. As situações criadas para que Cooper siga escapando refletem bem aquela dinâmica divertida do “opa isso não deu certo; como ele vai conseguir escapar agora?”. Elas não são muito verossímeis, mas como característica principal esse gênero não é. Nenhuma daquelas coisas é verdadeiramente impossível, mas todas elas acordam no espectador mais exigente a famosa frase ah que mentira. O divertido, contudo, não é julgar a verossimilhança dos eventos e sim embarcar na expectativa de tentar adivinhar como ele vai conseguir fugir na próxima vez. Qualquer bom espectador do MacGyver, nos anos 80, vai entender o que isso significa.

Enquanto peça cinematográfica, “Armadilha” ganharia mais se a atriz que faz Lady Raven fosse mais forte em cena. É visível como Shyalaman tentou imprimir sagacidade às personagens femininas, que nunca foram o foco de sua obra. Também seria melhor se o final não fosse atrás de uma dose tão alta de seriedade – na maior parte do tempo existe um certo humor involuntário, que acaba assumido apenas na cena que rola no meio dos créditos. Mas, mesmo assim, o filme tem Josh Harnett brincando no playground criativo daquele personagem; e tem uma boa reviravolta final, típica do trabalho do diretor. Mais importante que isso: o filme tem uma última cena bastante honesta.

Não é porque o pai levou a filha para um show e conseguiu que ela abraçasse seu ídolo que ele se torna um pai melhor… Não é porque um cineasta faz dois filmes para privilegiar o nepotismo em sua forma mais bruta que ele se torna um pai melhor… Naqueles últimos segundos do longa, M. Night Shyamalan está deixando claro para sua audiência que essa foi uma autocrítica efêmera. Pode ser que nada mude, porque estamos sempre dispostos a “escapar” de quaisquer armadilhas.

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