
Big Love conta a história de Bill Henrickson e suas três mulheres. Realmente um “amor imenso”, conquistado através da poligamia aceita pela doutrina mórmon. A série pode não ser um fenômeno de aceitação do público ou crítica, mas chega à sua quinta e derradeira temporada a partir do dia 16 de janeiro com o respeito de ser uma produção com selo HBO de qualidade. Isso na teoria (como vem acontecendo com várias séries do canal, diga-se de passagem), porque se analisarmos o histórico da série em sua quarta temporada a realidade é bem mais pessimista.
Criada por Mark V. Olsen e Will Scheffer e produzida por Tom Hanks, Big Love estreou em 2006 pela HBO com uma premissa desafiadora e original, falando sobre poligamia e a doutrina mórmon. Não só isso, mas de uma forma geral, Big Love surgiu como mais uma tentativa de entretenimento experimental que a HBO vem tentando desde o sucesso de The Sopranos, e embora tenha acertado com a posterior Six Feet Under, não podemos nos esquecer que na sua época de ouro (2000-2006) o canal também lançou projetos não muito aclamados e reconhecidos como Deadwood, Carnivale e The Comeback. Não basta só oferecer séries de qualidade, é necessário trazer vários assuntos polêmicos para a pauta televisiva.
Durante as três primeiras temporadas da série, Big Love soube administrar bem seus diversos personagens e imergir o telespectador dentro da atmosfera de realismo fantástico, já que devido a grande quantidade de personagens da trama, não era necessário um desenvolvimento muito grande de arcos e sub-tramas, e dessa forma os personagens tinham suas características intactas por um tempo muito longo. Não vimos mudança, por exemplo, na submissa Barb, no taciturno e perigoso Albie Grant, na vilania caricatural de Roman Grant e claro, na figura machista, prepotente e fanática de Bill Henrickson.
Com a morte de Roman Grant e a chegada da quarta temporada, porém, a série resolveu ir além das expectativas e equilibrar o maior número de sub-tramas possíveis, talvez pelo avanço de outras séries no cenário da crítica e do público, o que poderia levar a série ao esquecimento. Não deu certo. Se alguns plots não funcionaram simplesmente por não fazerem sentido (como o do cassino indígena e a gravidez de Adaleen), outras pecaram por não estabelecer uma conexão com o espírito da série, soando gratuitas (como o tráfico de animais e a reaparição de Anna). Para uma série que já abordou com brilhantismo o tráfico infantil na segunda temporada e a falta de sentido dos rituais mórmons na terceira temporada, faltou à série um pouco mais de cadência em sua execução.
Outro problema foi o tratamento dado à poligamia e seu personagem principal, Bill. Ele sempre foi irresponsável em sua relação familiar e cego em sua doutrina, mas o processo de transformação do personagem é extremamente lento, e nessa temporada principalmente, é notório que a passividade de Bill perante tudo já está servindo como escape para o maniqueísmo do roteiro, tornando-o um personagem insuportável e comprometendo o trabalho de Bill Paxton, que não é um ator ruim. Depois do confronto máximo de Bill com sua religião na terceira temporada, no episódio “Come, Ye Saints”, era esperada uma significativa mudança interior em Bill e sua relação com os dogmas religiosos, que não veio graças à indiferença inexplicável dos roteiristas. Com o intenso cliffhanger dessa quarta temporada pode-se prever um grande choque de ideais no campo político e religioso, e Bill estará no centro de tudo isso, mas a própria série não plantou um terreno confiável para que exista uma empatia entre o público e o personagem, e a única coisa que me importa nesse embate é o destino de sua três mulheres.
E por falar nas três mulheres, não restam dúvidas de que elas são o coração da série, e é interessante notar que o melhor episódio da temporada (o poético “Sins of the Father”) tenha sido centrado na figura das três mulheres em diferentes situações de desespero e por mais que as tramas dadas à elas não tenham sido muito inspiradas (Barb não fez quase nada na 4ª temporada, ao passo que Margene e Nikki ganharam tramas inconclusas), as atuações de ambas continuam excelentes. Chloë Sevigny (Nikki), em especial, rouba todas as cenas e faz todo o seu reconhecimento ser merecido, embora a atriz mostre certo desgaste pessoal com a série. Ginnifer Goodwin (Margene) e Jeanne Tripplehorn (Barb) também fizeram um bom trabalho nessa temporada, e também pode se destacar Matt Ross, que conferiu a Albie Grant um aspecto sombrio nunca visto, e Mary Kay Place, que ainda consegue dar um ar sóbrio e crível para a sua confusa personagem.
A quinta temporada da série promete trazer um desfecho impactante aos seus personagens, um ponto de colisão sem volta, um argumento que merece uma abordagem corajosa, como a série sempre fez antes de se perder nessa instável quarta temporada.
Abaixo o ótimo promo da temporada final de Big Love.
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