Ao decorrer da temporada, nas minhas reviews eu sempre indaguei o fato de Big Love não se posicionar ao centro de seu principal tema, aliás, cheguei até a duvidar de que o intuito de Big Love era realmente cutucar todo o esquema religioso da sociedade através dos mórmons. E é somente no último episódio da série que finalmente seus criadores decidem responder afinal, o que Big Love tem a deixar.

Spoilers Abaixo:

A resposta: um doce, singelo e meigo “nada”. É difícil saber o que se passou na cabeça dos roteiristas durante os 5 anos que eles exploraram a fundo a comunidade mórmon, mas talvez os criadores da série tenham perdido o furor da crítica e (não estou brincando) tenham começado a gostar da coisa. Não há punição, não há acerto de contas, não há crítica, no lugar um final feliz para todos e vida que segue.

Como saldo, podemos dizer que Big Love foi uma tocante e complexa (muito complexa) série familiar. Bill, como tudo indicava, praticamente terminou a história como um santo pronto para ser canonizado. Apto para receber as consequências dos seus erros na prisão, ele como última cartada emocional tenta mais uma vez, e da forma mais corajosa frente a frente com o senador Dwyer, a legalização da poligamia. Como consequência ganha de uma vez por todas o apoio da comunidade mórmon, em uma cena tocante em que descobrimos o significado dos sonhos de Bill em “The Oath”: ele se vê como o próprio Joseph Smith Jr., uma espécie de homem espiritualmente elevado que teria que passar por todas as provações do mundo e se sacrificar pela palavra de deus (notaram a mudança da fotografia entre passado e presente, com o tom alaranjado e as cores suaves no passado, e o tom azulado e opaco e as cores frias representando o presente? Clara simbologia à esperança de Bill que seu sacrifício, assim como o de Joseph Smith Jr., seria recompensado).

O problema de toda essa peregrinação, além de não bater com a personalidade desagradável do personagem, é que tomou todo o tempo do episódio, que poderia ser dado à resolução de outros conflitos que foram deixados em aberto como o drama da pobre Cara Lynn e seu professor, a situação de Ben prestes a seguir os caminhos do pai na poligamia, a doença de Lois (e a intuição do suicídio perto do fim do episódio foi muito rasa), o total esquecimento ao vilão Alby e a rápida cena com Adaleen, e claro, as esposas.

Joseph Smith Jr. foi criador do mormonismo e morreu em 27 de junho de 1844 aos 38 anos, assassinado por um conjunto de pessoas que condenavam sua conduta em uma cadeia em Illinois, Estados Unidos. Bill Henrickson morreu com 3 tiros na frente de sua casa, ou seja, ele não foi para a prisão como Smith Jr., e foi morto por um membro da própria comunidade (o irrelevante Carl). Além de explicar com mais rigor o porquê de Bill (e consequentemente os próprios roteiristas) ver o passado como uma esperança do seu presente joga uma das críticas mais falhas da história da televisão: não precisamos ficar discutindo sobre os costumes da religião A ou B, nem ao menos condenar alguém que passa dos limites sociais para isso, atualmente a condução dessas religiões é tão mal-estruturada que eles mesmos acabam “se matando”.

Portanto não é nada surpreendente (embora incômodo) que as esposas de Bill só tenham alcançado seus objetivos com a “morte” dele, vejam bem, se ele fosse preso e elas tivessem um mínimo de amor próprio, o que impediria Margene de se tornar voluntária na América Central? O que impediria Barb de se tornar uma priesthood holder? No caso de Barb, ela deixou o batismo na última hora para seguir fiel a sua submissão a Bill e a família. Tudo foi tão explícito que até a única personagem que ousava condenar a onipotência de Bill, Sarah, só apareceu depois da morte do personagem. E é por isso que como um episódio, e se, por exemplo, o Série Maníacos exigisse notas para os episódios vistos, esse aqui teria uma nota bem baixa. Além das storylines deixadas para trás, a redenção de Bill desde sua morte até o fim do episódio foi muito forçada, como por exemplo, sua atitude de querer a benção de Barb como última vontade, sendo que ele próprio condenou isso durante toda a quinta temporada a ideia de Barb em querer ter os mesmos direitos que os homens na doutrina mórmon. Mas, de qualquer forma, Big Love é uma das séries mais marcantes da minha vida como apreciador da televisão, e seria mentira dizer que, como eu não gostei do episódio, eu deixei de me importar com os personagens, o espírito da narrativa, a presença da série.

A cena final é emblemática, emocionalmente falando: Margene, pronta para partir para a América Central, dá um último abraço em Barb e Nicki. Não adianta, qualquer fã da série se acabou em lágrimas, porque embora um tropeço aqui e ali, o vínculo (vínculo, dependência, como preferirem) de Big Love com suas três protagonistas foi uma das coisas mais fortes dos últimos anos. Barb, Nicki e Margene me emocionaram várias vezes, e esse abraço das três (afinal, a série acabou e nós não sabemos se Margene foi ou não, o que é mais curioso) sela para sempre a história de Big Love como a série que teve três protagonistas. Elogiar aqui mais uma vez a entrega de Jeanne Tripplehron, Ginnifer Goodwin e Chloe Sevigny às suas personagens seria chover no molhado, mas não dá para deixar de reconhecer o trabalho dessas maravilhosas atrizes.

Big Love foi a primeira série que eu vi do começo ao fim (com mais de uma temporada, lógico) sem fazer nenhum tipo de maratona, somente acompanhando pelo calendário brasileiro ou americano da HBO, ou seja, parte dela se encontra na minha infância, sendo uma das séries que eu tenho mais carinho. Foi por causa dela também que eu tomei a decisão de não seguir nenhuma religião, e também foi graças a ela que dediquei muito do meu tempo pesquisando a história de várias religiões. Por esses motivos não houve nenhum series finale que tenha me marcado mais que esse, e tenho de ser grato eternamente aos criadores Mark V. Olsen e Will Scheffer pela experiência única de entretenimento que eles criaram. Vida longa!

PS: Eu não sei se a música pode ser submetida ao Emmy, já que é uma regravação, mas não houve decisão mais acertada nesse episódio final do que a versão de Natalie Maines do grupo country Dixie Chicks para a música-tema da série, “God Only Knows” do grupo The Beach Boys. Nesse vídeo a música é tema para a promo do episódio. Além de a música servir como um encaixe perfeito para a última cena (“God only knows what I did without you”), a música é linda por si só, e Natalie Maines conseguiu deixá-la ainda melhor.

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