O produto de vinte e um episódios construídos sobre um canavial de brechas tortas e recheados de puro oportunismo criativo, não poderia ser outro senão uma catastrófica season finale. A pior da história de The Vampire Diaries, sem sombra de dúvidas. E você aí pensando que a série não seria lembrada, por essa temporada, em nenhuma premiação. Contrariando expectativas, ela se fez presente por falhar em seu máximo e em seu mínimo; por priorizar seus personagens em detrimentos de sua história; por fazer questão de esfregar na nossa cara, sem qualquer eufemismo, todas suas incoerências e falhas de roteiro, deixando de lado qualquer sentimento de pena por ao menos terem tentado não serem tão ruins.
Bom, depois do dito, agora é aquele momento que eu saio correndo pelos corredores da Televisa, chorando compulsivamente, empurrando o pessoal da cenografia, aos berros de “no pueeedo, no pueedo lidar”, enquanto a Plec e cia pegam seus sombreiros e saem pela porta dos fundos da sala dos roteiristas. Pois bem, após perder minha cidadania mexicana e ser deportado, estou a caminho do Brasil, em uma espécie de contêiner, bastante úmido, que contornará a América e tem tempo de viagem previsto para 4 meses. É tudo, obviamente, uma tentativa inútil da Televisa de impedir a publicação desse review. Mas, assim como Caroline consegue, no meio de uma BR, fazer uma chamada HD por vídeo via Skype, nada me impedirá de encaminhar, no meio do Oceano Pacífico, esse texto. Carregador de bateria, confere; tomada com pinos universais, confere; sinal de 4G, confere; dedos em hipotermia severa e com sinais de desidratação, confere. Então, sigamos antes que eles caiam.
Êpa! Antes de irmos em frente, convoco-os a retroceder no tempo e acompanhar essa maravilhosa cena da nossa querida Elena. Não tem jeito, gente, fomos enganados: assistimos, por sete anos, uma série inteiramente dublada em inglês. É esse o áudio original:
Pausa dramática para essa imagem congelada do vídeo. Respira.
Pois bem, eu poderia começar dizendo que, após muitos diálogos cheios do mais puro vazio, mais uma vez Bonnie foi salva, graças às meninas suuuuper…não, pera. Se situa, Bruno. Bonnie foi salva e livrou-se da maldição da caçadora. Mas ela não foi salva, simplesmente, porque ela precisava ser salva para a série seguir com todos seus protagonistas. O óbvio dessa vez, acreditem, não foi tão óbvio assim. Eles conseguiram se superar e ela foi salva da maneira mais questionável e anticlímax que poderiam fazer. Tudo começou com Enzo, DESCONFIANDO – frisem isso – de que se conseguissem se livrar do último eterno, provavelmente, eliminariam a ligação de Bonnie com a maldição de ser caçadora por toda a vida. Ok, eu desconfio de várias coisas todos os dias e, nem por isso, eu saio tacando fogo nas pessoas para ter certeza. O máximo que eu já fiz foi tacar um tempero de alho em um primo estranhíssimo meu que eu desconfiava que era vampiro. Hoje ele é casado, pai de dois filhos, e, graças a Deus, eu não pensei em enfiar uma estaca no peito dele querendo ser o herói da nação. Voltando ao episódio, e se a tal ligação não se quebrasse como Enzo e Damon supunham? E se fosse pior: ao tacar fogo no carinha do ritual, BuenoBueno virasse um pedacinho de carvão junto com ele? Não teve esse momento de ponderações de consequências, de dosar atitudes, em resumo, de pensarem. Uma suposição virou uma certeza e fim de papo. Não leram nenhum livro de bruxaria, de rituais satânicos, nem nada. Enzo é sensitivo, agora. Mais uma brecha pra conta da série.
Em um viés solidário de tratar cada erro da série como uma simples brecha de roteiro, mas sem querer tornar o dito aqui uma verdade absoluta, peço a colaboração de todos para, se for o caso, contradizer minha próxima observação. Minha vontade era de tacar o pau de uma vez, falar que tá tudo errado nesse trem, mas vai que eu tô corrompido com as cacetadas que eu levei lá no set. Vamos lá: em que momento o caixão com o corpo do último eterno foi transportado para o cofre demoníaco? Juro que eu ficava me perguntando a todo o momento o porquê de Damon estar entrando naquele cofre, se na única cena que mostrou os corpos dos eternos – aquela que Bonnie avisa a Damon de que Rayna tinha só uma vida – eles estavam dispostos em uma sala climatizada e com livre acesso, dentro do Arsenal, e Enzo sabia disso. O máximo que consegui imaginar, foi a entidade carregando o caixão pra dentro do cofre pra mudar a decoração do lugar. Ou que o caixão, com medo, saiu correndo lá pra dentro achando que era um bom esconderijo. Entendi foi nada, mas aposto meus dois dentes caninos de que foi um erro de roteiro dos grandes. Mais um pra conta.
O que ninguém sabia e foi a grande surpresa dessa final, era que TVD teria mais um crossover. Sim, após cometer três grandes falhas em um só episódio, a série pediu música no Fantástico. Explico. Como se não pudesse piorar, a série resolveu desconstruir, sem qualquer tentativa de explicação relevante – nem tentaram, meu povo – tudo que vinham contando, até então, sobre a maneira de se abrir o cofre lacrado e decidiram, agonizando, que QUALQUER bruxa desse planeta poderia abrir as portas do Arsenal. Isso mesmo, toda aquela ladainha de que só uma Bennet poderia abrir o cofre foi engolida na mesma facilidade com que eu como uma paletta mexicana. Não há qualquer argumento a favor da série nesse caso, pois ela foi incapaz de dizer, ao menos, que a magia que Bonnie fez pra lacrar o Arsenal foi diferente da feita pra lacrar o cofre. A regra é simples: se Bonnie não queria que a entidade saísse dali nem a pau, porque diabos deixaria que qualquer bruxa – leia-se duas crianças de três anos de idade aprendendo a colorir – conseguisse tal feito? Um erro. Dois erros. Um big terceiro erro. A única justificativa plausível seria encontrar a seguinte frase no final do roteiro: estagiário supervisionado por Stevie Wonder.
No entanto, ainda sobre essa cena, posso dizer que uma coisa me agradou: as meninas fofinhas guti-guti bruxinhas. Não é só porque eu queria apertar a bochecha delas o tempo todo em que estavam em cena, mas também porque vi nelas uma grande oportunidade da série explorar o universo infantil, da forma mais sádica que um recém-mexicano desnaturalizado poderia pensar. Pensa que lindo seria as duas se rebelando, invocando phasmatus pra cima e pra baixo, não sabendo lidar com a descoberta de seus poderes e fazendo Alaric e Caroline tomarem medidas desesperadas, do tipo convocar a Super Nanny. Já consigo vislumbrar as cenas envolvendo mãos macabras e crianças possuídas: o ingrediente perfeito pra um belo filme de terror. Só faltaria um palhaço ou um boneco assassino virando o pescoço vagarosamente. Pensando bem, só falta o boneco – entendedores entenderão.
Tá, se você ainda não entendeu, eu desenho:


No mais, tivemos uma cena puro amor entre o casal Bozo, provavelmente a melhor do episódio, e a reconciliação do casal Steroline, aquele que está conseguindo a proeza de ser menos importante que o primeiro casal. Basta lembrar que o Enzo faz parte do primeiro casal que vocês perceberão o tão fundo eles conseguiram chegar. Aproveito este momento pra destacar o que de melhor a série vem apresentando: seus diálogos e sua trilha sonora. Apesar de bastante piegas às vezes, são sempre pontuais e conseguem construir toda a atmosfera que as cenas – em especial as dramáticas – precisam passar. De qualquer modo, isso está longe de ser um afago na série, mas é, tão somente, um modo de dizer que, se o resto todo conseguiu se perder, pelo menos algo bom se manteve, nem que seja somente aquele 1%. E não, eu não vou cantar aquela música que dominou o cenário musical ano passado e dizer que eu tô namorando todo muuundo, noventa e nove porcento anjo, perfeito.
Enfim, em meio a todos esses acontecimentos, a única pergunta que nos foi deixada é a seguinte: o que ou quem está possuindo pelo ritmo ragatanga Damon e Enzo, provocando uma espécie de “sentimentos desligados” nos dois? Não sei e, de verdade, nem quero ficar divagando aqui sobre os rumos desse plot. Esse artifício do “qual será o próximo vilão?” foi o mesmo do usado na season finale da sexta temporada, com a diferença de que, naquele episódio, a protagonista estava se despedindo, o que acabou criando todo um hype em cima do episódio, enquanto esse mais se aproximou de um hippie meditando. Se alguém ficou curioso, guenta a mão que outubro tá aí, esquenta a cabeça não.
Pra terminar, gostaria de agradecer imensamente a todos que passaram por aqui ao longo de toda essa temporada e dizer que é sempre um prazer dividir meu ponto de vista sobre TVD com vocês. Espero que tenham se divertido tanto quanto eu me diverti. Fiquem à vontade pra comentar, é sempre muito bacana ler a opinião de vocês!
Grande abraço e até a 8ª temporada.
P.S.1: Sobre a despedida de Matt: se a equipe de resgate mexicana fosse um pouquinho menos eficiente, seria uma despedida com passagem só de ida. Vem morar no Brasil, Matt!
P.S.2: Só gostaria de dizer que nos filmes de terror eu sou a pessoa que entra no cofre e não fecha a porta.
P.S.3: “Vocês não deviam estar num avião?”. Depois de três anos fugindo numa Honda Biz, alguém se atentou pra esse detalhe.
P.S.4: Se algum dia eu pedir pra você deixar eu ir me ferrar sozinho, peço, encarecidamente, que não deixe. Por favor, se ferra junto comigo. Não seja o Stefan.















