Cathy Durant conseguiu fazer o que poucos conseguiram ao longo das quatro temporadas de House of Cards: se impor de forma implacável perante Francis. Da mesma forma que os Underwood foram capazes de criar a candidatura da Primeira Dama, através de uma faísca pontual, a Secretária de Estado conseguiu se mostrar um animal político inato, orquestrando de forma sagaz uma afronta considerável contra o protagonista por uma faísca solta em uma rápida ligação. Chapter 49 inicia dando continuidade quase imediatamente após o circo montado pelo final do episódio anterior. A mídia, a cúpula da campanha dos Underwood, os jornalistas entraram em um consenso: Durant conseguiu virar a corrida presidencial ao avesso e, com isso, fez desse décimo capítulo um marco da série.
Mas não foi só isso. Paralelamente à questão da corrida eleitoral, ocorreu a ida de Claire à casa de sua mãe. Pela segunda vez, ela usa a saúde da mãe como uma desculpa para sua fuga do olho do furacão político. A diferença é que ela não esperava encontrar a mãe tão debilitada e é curioso como a direção optou por mostrar o impacto na protagonista sem mostrar o rosto inicialmente. Foi a redução do ritmo dos passos e o rosto fixo em perfil logo cabisbaixo que abriu caminho para a troca de olhares emocionante entre Burstyn e Wright. Elizabeth se mostrou uma mulher forte e independente desde que foi introduzida na première dessa temporada. Então, seu olhar insinuava a vergonha de se encontrar naquela situação e sendo vista pela própria filha.
Os dois parágrafos acima expõem o desafio enfrentado pela direção do episódio. De um lado, uma tensão absoluta, sendo agravada a cada conversa de Cathy e Frank. Por outro lado, uma atmosfera triste e trágica. Balancear essas duas coisas tão distintas enquanto elas ocorriam em paralelo foi um feito grande da diretora Wright, que, olhando em retrospecto, comandou dois dos melhores episódios da temporada. E, como diretora, foi na trama em Washington que ela superou quaisquer expectativas. Foi lá que vimos a tensão genuína no olhar e na expressão de Francis. As alucinações aterrorizaram seu inconsciente, porém Durant o levou a recorrer à coerção mais grave para conter uma ameaça inesperadamente forte.
No Salão Oval, tudo foi elevado ao extremo. Naquela sala imersa em sombras, Atkinson e Spacey foram soltos para a selvageria. Depois de ter enfrentado Underwood de forma feroz, pisado nele e deixado claro que ele não teria como enganá-la por ela ter assistido de camarote todas as mentiras e atrocidades feitas por ele contra Walker, Durant conheceu a verdadeira face de Francis. O balé feito ao longo da sala, a insinuação das alucinações e a coerção da faca em sua mão foram meros detalhes, porque, quando ele abriu a boca, aí sim o terror veio. O desprezo, a frieza e a dureza em sua expressão, seu tom de voz e seu olhar no monólogo que culminou no “Você entende agora?” foi de um brilhantismo inigualável. Após isso, a confiança foi substituída pelo medo gutural em Durant. Sim, dessa vez, Frank lutou pela candidatura da esposa até as últimas consequências possível e reforçou o laço em reconciliação entre eles.
Mas esse décimo capítulo não podia se contentar somente com uma cena arrebatadora, tinha que fazer a segunda e a terceira e entregá-las nas mãos da pessoa que dominou essa quarta temporada com uma voracidade admirável: Robin Wright. Naquele quarto de Elizabeth, Claire enfrentou a dor, a aceitação e o amor pela mãe em meio ao luto de ter que matá-la e usá-la para sua campanha. Paralelamente, Ellen Burstyn abraçou o Emmy ao ofertar a vida de Elizabeth pelo futuro político da filha. Fora do universo de House of Cards, a cena poderia ser perturbadora, mas ali, naquela casa, com aquelas pessoas, foi um momento triste e bonito. Sem ter a mãe como alguém que a conhecia e com o marido focado na política, seu envolvimento com Yates foi consequencial. Ela precisava do contato de alguém que pudesse acalentá-la.
A melhor cena do episódio, no entanto, ficou guardada para o final. Depois de tanto falarem em um discurso perfeito que derrubasse todos os outros discursos, Claire proferiu suas palavras em prol de sua candidatura. Foram vários episódios, várias brigas, várias humilhações e muitos sacrifícios. Ver a Primeira Dama subir àquele palco e ficar atônita em ver todas as aquelas pessoas ovacionando-a me gerou arrepios contínuos. E, no fim das contas, ainda ficou uma dúvida: todo aquele discurso foi, de fato, escrito por Yates? Teria Claire falando naturalmente na hora? Em minha mente o discurso e a improvisação estiveram presentes. Foram muitos anos de espera e, se tem alguém que naquela situação poderia administrar as emoções em seu favor, era a Primeira Dama.
Bem-vinda ao circo da política estadunidense, Claire Underwood. E, bem-vinda à história, Robin Wright. Chapter 49 foi um arrasa quarteirão emocional. Um testamento da força da Primeira Dama e de sua intérprete. Um testamento da selvageria do Presidente e de Spacey. E que venham os três últimos capítulos da temporada.
P.S.: A interação de Yates com Elizabeth foi, oh, <3
P.S.: Esse episódio tem que ser a Emmy tape de Robin tanto para atuação quanto para direção.
P.S.: Leann confrontando Doug. Pena que ela não teve mais espaço ao longo da temporada.
P.S.: Tom continua se aproximando da verdade sobre Underwood e conseguiu uma aliada em Dunbar.
P.S.: “Não, nós não matamos ninguém, mas teríamos, se fosse necessário”.
P.S.: Com as novas regras do Emmy, Atkinson seria coadjuvante, o que dificulta suas chances de indicação, mas que ela merece, sim, ah, como merece.
P.S.: Preguiça da crise de consciência de Doug.














![[Exclusivo] Serviço de streaming ‘Belas Artes à La Carte’ exibirá séries icônicas da BBC Studios](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2022/01/capa-2-218x150.jpg)
