Seria esse o BBB do fim da moral demagógica?
Eu sempre digo que se um dia eu entrasse na casa do Big Brother Brasil iria me comprometer a nunca dizer certas frases feitas comuns ao show. Sem dúvida uma delas seria “eu não estou jogando”. Essa afirmação não é somente contraditória (visto que você está numa competição), como também é absolutamente falsa. Ninguém entra numa partida de buraco para ficar só olhando e lugar de fazer fotossíntese é na floresta. Porém, o que leva alguns participantes a dizerem isso é o peso da própria história do programa.
Não consigo lembrar exatamente qual foi o momento em que isso começou… Claro que sempre houve um aspecto cultural envolvido nisso. “Jogar” é uma palavra que – aplicada ao convívio social e não ao esporte – conota uma ideia errada de pejoratividade. No BBB eu acho que isso pode ter começado na terceira edição, quando Dhomini se aproveitou das estratégias totalmente limpas de Jean Massumi, para fazer o “jogo da perseguição”. Muitos dos espectadores compraram a ideia de que havia uma conspiração para tirar alguém que “não estava jogando”, quando Dhomini só manipulava emoções de maneira premeditada. Defender em voz alta valores e morais, dentro do BBB, na maioria das vezes, é jogo externo. E seja o jogo externo ou interno, não deve ser condenável.
Semana passada falamos sobre como o melhor papel de Ana Paula na edição é o de desmascarar esse jogo externo que quer passar de discurso demagógico. A eliminação de Daniel, uma espécie de influenciador desse tipo de estratégia, foi um sinal de que nem tudo está perdido no programa. Não adianta dizer que a moça ficou porque é louca, porque em outros tempos esse tipo de participante limítrofe nunca foi poupado baseado no senso de espetáculo. Alguma coisa mudou e pela segunda semana seguida, Ana Paula fica e outro membro do “grupo da justiça” vai para casa. Para mim foi novamente surpreendente, porque o que esses anos todos de espectador me ensinaram foi que o público não salva quem é, mas quem quer ser. Por isso a vitória “do bem” sempre foi a cruzada dos votantes.
Arrisco dizer que a razão pela qual Renan perde o controle diante de Ana Paula é essa consciência de estar perdido dentro da “mitologia” do show. Eles dois são agora os líderes dessas duas vertentes de jogo e uma inversão curiosa de expectativas se conduz conforme as semanas vão passando. A provocação constante de Ana Paula, vista por eles como vilã (do mesmo jeito que foram outros provocadores), é aceita pelo público, enquanto a busca pela reafirmação das próprias qualidades morais não salva os outros da eliminação. Essa não é, definitivamente, a dinâmica habitual do BBB e esse pode ser o sinal de uma edição em que a estratégia supere o falso moralismo.
Renan
Essa quinta semana de programa manteve em pauta a guerra entre os grupos. Assim que Daniel foi eliminado, o objetivo maior de Renan passou a ser colocar Ana Paula num paredão verdadeiro e com isso, vingar a memória do amigo. Não foi surpresa vê-lo ganhar a liderança, numa prova de resistência em que os mais ameaçados desistiram primeiro. Para Renan, o “câncer” da casa só tinha ganhado a eliminação falsa porque “o povo queria ver o circo pegar fogo”, sendo esse o único argumento válido para qualquer vitória alcançada por ela no decorrer do show.
O ponto alto da semana foi a briga entre ele e Ana Paula, no domingo, logo após a formação do paredão. Tão provocativo quanto ela – embora não admita – Renan partiu para cima com os mesmos argumentos moralistas de sempre: Ana Paula é uma pessoa pior porque é rica e nasceu em berço de ouro. Só mesmo a típica demagogia impensada pode considerar que ter dinheiro é uma imensa falha de caráter. No que diz respeito a educação Ana Paula tem algumas melhorias a fazer, mas de forma alguma precisa pedir desculpas por não ser pobre.
Com as mãos para trás e uma atitude agressiva muito parecida com a que os homens tem quando estão brigando com outros homens, Renan evitou xingamentos machistas e físicos. O lance dele não é esse. O lance dele é mostrar para as pessoas aqui fora que ele “é ele mesmo”, que “ele não finge”, que “ele não joga”. Ele precisa fazer o público acreditar que ele e seu grupo estão se protegendo de quem “prejudica a harmonia da casa”, sem nunca se perguntar se o entendimento do que representa o termo “harmonia” é somente o oposto de “confusão”. Jogar “harmonicamente” é perfeitamente possível. Mas, como dizer que se joga é proibido, qualquer um que os confronte com essa prática inevitável precisa ser eliminado.
Ana Paula
Está longe de merecer qualquer defesa. Quando falo da importância de sua permanência, estou me referindo à instituição do programa, a como ele se afeta por isso como um todo. Nessa briga com Renan a performance dela foi odiosa como sempre. Ana Paula descamba logo para a ofensa pessoal vulgar, mencionando coisas físicas e ironizando com sexualidade. Sob esse aspecto ela é um problema… De forma alguma a vejo como uma pessoa homofóbica, mas há de ser abominável que sexualidade ou até mesmo questões de gênero, sejam usadas como xingamentos. Mulheres e gays sofrem de pejoratividade constante por parte da cultura popular. Ana Paula chamar Renan de “fofa” e “querida” chega a ser aplaudido nas redes sociais, assim como seus apontamentos desnecessários sobre os dentes ou o cabelo dele. Se fosse no sentido oposto e Ana fosse o alvo dos comentários sobre sua aparência, haveria, sem dúvida, uma grande movimentação contra ele. Ana Paula é perdoada a favor do senso de espetáculo, a favor do que é cool nas redes. Mas, a postura dela nas discussões geralmente é transtornante.
Nessa semana de articulações, o foco também esteve nos que estão à deriva. Foi curioso ver que, embora Geralda e Matheus estivessem flertando com o outro lado da casa, seus votos refletiram apoio à estratégia de Ana e Ronan. Eram Geralda e Matheus os aliados mais importantes de Renan para evitar que Juliana fosse para a berlinda. O problema é que as opções de voto deles se resumiram a Munik, única integrante do grupo oposto que poderia ser votada (já que Ronan estava imunizado e Ana indicada pelo líder). E Munik faz um ótimo jogo social, o que afastava a possibilidade de que Matheus ou Geralda votassem nela. Assim, os dois precisaram se posicionar a favor da maioria, numa escolha totalmente estratégica que ilustra bem a inevitabilidade do jogo. A mesma inevitabilidade que fez o grupo de Renan entender que se Ronan fosse imunizado, Ana Paula colocaria sua amiga e maior aliada na reta. Enfim, puro movimento estratégico e que é jogo em essência.
Enfim, falando da novidade nas votações, por um momento tive dúvidas de que o novo sistema de apuração de votos fosse prejudicar o ótimo andamento de resultados. Pesquisei algumas coisas a respeito e só achei duas explicações:
A Oficial: A direção do programa acha que assim as regiões se sentirão melhor representadas e relevantes.
A Extra Oficial: São duas as possibilidades: 1. Afastar as possibilidades de fraude depois que um estudante conseguiu hackear os resultados dos últimos paredões 2. Evitar que a internet tenha mais relevância, já que é o único modo gratuito de votar, tendo alcançado muita força desde que fã-clubes começaram mutirões.
Independente das razões que levaram a mudança, gostaria que ela não tivesse ocorrido, justamente para que os argumentos de manipulação não tivessem mais força. Já gastei muito latim explicando para as pessoas que manipular resultados de votação é algo no qual nunca acreditei pelo simples fato de que se fosse possível, o BBB não teria perdido participantes-chave tão precocemente. A manipulação se dá através de provas e dinâmicas que possam resultar em caminhos convenientes para a produção, o que ainda depende de sorte. Em última instância, uma edição de imagens comprometedoras ajuda, mas geralmente o público só reclama de edição tendenciosa quando a vítima é seu preferido.
Ver Juliana perder para Ana Paula foi um ótimo sinal de que talvez essa seja a edição da predileção pelos caminhos do jogo. Do jogo, ele mesmo. Esse amaldiçoado que não pode ser jogado em paz. Ver Renan e seu grupo precisando reavaliar posicionamentos não tem preço… A melhor edição será aquela em que não será possível sentir-se seguro. E essa de número 16 caminha lindamente nesse sentido.

Munik: Como ser a maior aliada e melhor amiga da pessoa mais odiada da casa e conseguir não ser odiada por osmose? Munik te ensina.
Ana Paula: Conseguiu o impensável até agora: causar a audiência a ponto de superar o julgamento.
Geralda: Só porque um Top 3 desses seria um sonho.
Matheus: Torço para que suas mentiras continuem vindo aos montes, para afastar qualquer chance de virar queridinho caipira.
Adelia: “Se ela fala comigo daquele jeito fora daqui eu pegava a cara dela e esfregava no chão”. Adélia sobre Ana Paula.
Tamiel: Just go.
















