É tudo uma questão de propósito.

Vocês já imaginaram como seria uma sociedade onde a existência de Deus pudesse ser provada? Será mesmo que o ser humano tomaria decisões diferentes se a possibilidade de julgo eterno fosse inevitável? De certa forma, o que os personagens de The Leftovers chamam de Partida Repentina é uma evidência de forças superiores, não exatamente ligadas a Deus, mas que partem de alguma esfera sobrenatural desconhecida e preponderante.

O livro Os Deixados pra Trás – de onde surgiu a premissa do show – começa com Laurie bastante indignada ao descobrir que uma de suas amigas largara a família para se juntar a um grupo chamado Os Remanescentes Culpados. Laurie sabe pouco sobre eles, mas o bastante para entender o que eles querem provocar. A cada dia em que tenta levar a vida normalmente (sobretudo porque ninguém dos seus foi levado), Laurie vai se vendo tomada por uma sensação de estar interpretando a vida e não a vivendo.

Nós já sabemos que The Leftovers não é sobre o mistério, mas sim sobre como a sociedade se ajusta após o fenômeno. E a escolha de situar a trama três anos depois é crucial, porque depois de passado o tempo em que a população aguarda o próximo movimento, todos são compelidos a voltarem a constituir a rotina. E sejamos sinceros… tem como voltar à rotina com uma informação do tamanho da que representa a Partida? Para os RC não, não tem como; e arrogante como toda organização, eles querem obrigar o resto do mundo a não conseguirem ignorar também.

Em dado momento desse episódio em questão, uma das mulheres que Laurie tenta reagrupar à rotina, conta sobre como se sentia “atuando” uma vida que não tinha mais nada de natural. Os Remanescentes são muito poderosos justamente porque sabem onde devem atacar. Para os que não são capazes de recuperar o propósito da vida pós-trauma, eles oferecem o trauma como o verdadeiro propósito. E é genial, porque é muito mais fácil ceder ao drama do que lutar contra ele.

Off Ramp foi outra delícia textual vinda do mundo de Damon Lindelof e Tom Perrota. Ver Laurie criando uma espécie de resposta contra os RC foi um movimento que eu não esperava do roteiro. A rejeição ao que pouco tempo atrás a tinha reconfigurado tanto estava presente mesmo nos pequenos detalhes, como a forma como ela ouve música muito barulhenta e luta contra o vício da nicotina. Laurie reconheceu a linha de fabricação mental dos Remanescentes e está disposta a tudo para quebrar essa influência.

A personagem Susan surge como uma ferramenta importante para a condução dessa ideia, porque mesmo que esteja disposta a reviver sua família (notem que assim como com Laurie, Susan aparentemente não perdeu ninguém de sua família nuclear), ela também não consegue se livrar das hesitações que naturalmente lhe engolem. Ela não consegue ver a vida pré-partida como uma vida real – não dentro do contexto pós-partida. O propósito de Susan após o evento se despedaçou e os RC puderam oferecer uma perspectiva de futuro focando justamente naquilo que ela nunca conseguia esquecer.

A equação de Off Ramp se fortalece mais ainda com o papel de Tom nessa trama. Tom é um candidato perfeito a membro dos RC, porque ele também precisa servir a um propósito. A série divide muito bem os papeis dos filhos dos Garveys. Jill é como Kevin e tenta se reajustar, enquanto Tom procura por alguém que lhe diga o que fazer. Antes foi Wayne, agora é a própria mãe. O moço se comporta como um soldado exemplar, indo de “colmeia” a “colmeia” em busca de candidatos potenciais a se libertarem da “filosofia branca”. Chris Zylka, inclusive, está assustadoramente entregue ao personagem.

O fato é que Tom sabe o que Laurie ignora: não se pode tirar o propósito de alguém que foi dominado pelos RC. A Sra. Garvey não consegue se dar conta disso porque conduz seu trabalho como uma psiquiatra, friamente, montando grupos de apoio para que todos falem burocraticamente sobre como se sentem. A cena com o editor trouxe um pouco da afetação negativa da primeira temporada, mas foi importante porque tudo que foi dito por ele estava certo. Mais tarde, Laurie reconhece isso, assumindo que psiquiatras não falam sobre si mesmos. E ela o faz ao perceber, também, que fracassa ao não oferecer um novo propósito a seus seguidores.

É aí que Off Ramp nos oferece uma virada emocional muito calculada. Laurie usa sua história com os RC e Tom usa seus conhecimentos sobre Wayne para proporem uma nova abordagem. Aqueles “reabilitados” precisam de algo ligado à Partida Repentina para que possam lidar com a Partida Repentina. Então, Tom decide que no meio de um insight quase espiritual, o dom propagado por Wayne lhe foi transmitido. Algumas verdades que conhecemos se juntam em meio a mentiras potenciais e os abraços cheios de poder estão de volta.

Mal posso expressar como fico satisfeito que o roteiro tenha aproveitado tantos elementos do primeiro ano nesse episódio. A mudança estética da série foi grande e eu tive medo de uma renúncia completa. Aqui, entretanto, vimos que os Remanescentes voltaram para a roda; assim como Wayne, que teve uma morte inesperada no ano passado. Acho que com a atitude de Tom a mitologia também está nos dizendo que o trabalho do Santo era prioritariamente sugestivo. Posso estar errado, mas acho essa manobra intelectual muito esperta.

Estamos no terceiro episódio e The Leftovers só me orgulha. Damon e Perrota tem demonstrado um domínio impressionante do universo que construíram e têm tomado decisões certeiras e seguras a respeito. Infelizmente, isso ainda não significa que teremos chances de uma nova temporada e o cancelamento (por causa da audiência) se revela cada vez mais iminente. Isso será realmente uma pena, já que temos aqui uma dramaturgia peculiar e poderosa.

Entre tantas produções pós “apocalipse” que retratam o ser humano voltando ao estado selvagem, The Leftovers oferece a destruição do individuo pela ótica idealista. E vejam só… Os Remanescentes são o agente principal do plano de retirar da psique humana todas as referências emocionais que lhes proporcionam uma existência possível.

As Sobras: A cena com Liv Tyler foi bem emblemática (com direito a nu frontal dela e de Chris), mas não podemos dizer muito dela por enquanto. Podemos apenas dizer que Meg estava fodona; não estava vestida do puro branco dos Remanescentes e parece ter forçado uma fecundação que pode usar contra Laurie no futuro.

As Sobras 2: Na cena da editora, um dos presentes pergunta a Laurie sobre os cigarros e a pergunta reflete a dúvida de metade dos espectadores. Laurie não responde por que também não sabe, assim como também não sabe o que existe por trás do grupo.

As Sobras 3: Uma notícia na TV fala de um homem que saiu de uma caverna em Perth, na Austrália. É outra menção ao país que reforça a suspeita de que algo está reservado nesse sentido. Perth é conhecida por ser uma das cidades mais isoladas do mundo.

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