Nem todo quebra-cabeça é interessante.

Algumas pessoas são apaixonadas por quebra-cabeças difíceis. Algumas pessoas são apaixonadas por quebra-cabeças desafiadores. No caso delas, a preocupação maior não está em saber qual desenho será formado quando todas as peças se juntarem, mas o prazer de tê-las juntado. Para elas, ainda elas, quanto mais peças jogadas ao redor, quanto maior o desafio para entender cada encaixe, cada desenho abstrato, maior o prazer de seguir esse desafio. Desenho conhecido não vale, peças comuns também não! É preciso um desafio que nasça do outro, alguém que embaralhe tudo, alguém que diga que jamais adivinharíamos o que está por vir. É preciso alguém que roteirize em nossa cabeça uma jornada; alguém que dê as peças aos poucos; alguém que nos entupa de peças, mesmo quando ainda não cuidamos de achar o lugar para as que estão espalhadas a nossos pés. O perfil de pessoas citado até aqui vai chegar ao fim do piloto de “Quantico” (de onde estou tirando o circunflexo que preciso apagar todas as vezes?) sedento por mais episódios.  Outras, como eu, perceberá que o Piloto se chamar “Run” é uma boa dica para o que pode se esperar para o fim da temporada.

Quantico segue Alex, uma nova agente do FBI que se torna suspeita de um ataque terrorista por ter saído ilesa do incidente, estar muito próxima do local e outras obviedades adicionais. A história se desenvolve de forma não linear, mostrando seus primeiros dias como recruta, no passado, e toda a investigação ligada a esse ataque terrorista no presente. Acompanhamos seus colegas de treinamento, principais suspeitos, além de seus conflitos pessoais e relacionamentos interpessoais com outros agentes. Tudo muito rápido e sem muita profundidade, como já esperado para a maioria dos pilotos da tevê aberta americana.

O problema com Quantico já começa com sua personagem principal. Saber desenvolver personagens é um problema que transcende a televisão e alcança o cinema, e aqui temos um bom exemplo disso. Nos primeiros minutos, até acreditamos que Alex será uma personagem feminina questionadora, forte e bem elaborada, mas isso se perde durante os quarenta minutos a seguir. Conforme a história segue e percebemos que ela está se encrencando pouco nos importamos com o seu destino e as consequências de suas escolhas. A atriz não ajuda muito na tarefa de criar empatia com o público, mas o maior problema está no roteiro. Acredito que criar uma personagem forte, que batesse de frente com a CIA e por quem torcêssemos — não de quem devêssemos sentir pena, teria sido um caminho mais inteligente para seguir. O desdobrar da história pode atiçar a curiosidade de muitos quanto ao destino reservado à história, mas não à protagonista. O restante do elenco está tão bem escalado quanto se pode esperar (ou seja, atores bonitos), e suas personagens são introduzidas de forma apressada. Alguns, devo reconhecer, entretanto, são interessantes o bastante para chamar nossa atenção.

A produção da ABC pode ser definida como “apressada”. Mesmo seus pontos fortes são desenvolvidos dessa forma. As reviravoltas dos últimos dez minutos, por exemplo, são jogadas uma após a outra e sequer temos tempo para processá-las. A série se apressa em criar vilões, se apressa em criar momentos de tensão e se apressa em formar um possível casal para sua protagonista. Muitos momentos que poderiam ter sido o clímax do episódio se perdem em cenas que falham em provocar surpresas. E somos treinados com histórias assim, logo, uma ou outra revelação (ou todas) soarão mais absurdamente óbvias do que os roteiristas possam ter planejado. Os mais otimistas dirão que é por ser um piloto, episódio em que a série tenta nos vender sua história e apresentar tudo de uma vez, mas que depois pode se ajeitar — American Horror Story sempre consegue se recuperar. Além do texto de Quantico demonstrar esse vício em reviravoltas desde sua primeira hora na televisão americana, percebemos uma quantidade absurda de tramas. É sempre preferível uma única trama bem conduzida a um leque de possibilidades mal exploradas. Espero que a série acerte seu ritmo daqui para frente, investindo na história de uma personagem por episódio, e não essa salada apresentada aqui.

Por mais que eu não tenha achado seu primeiro episódio sólido, reconheço em Quantico um potencial para ser lapidado nos próximos domingos, principalmente no que se refere a algumas personagens. A trama principal não demonstra nada de original e só nos entrega mais um material repleto da obsessão americana com terrorismo e teorias da conspiração. Ainda é muito cedo para condená-la, eu sei, mas já não espero muito daí. Protagonistas tentando provar sua inocência diante de um atentado já foram mostradas na tevê, e em um passado não tão distante.  Alguns detalhes técnicos me incomodaram, como a edição que transita entre passado e futuro de uma forma não tão fluída e uma trilha sonora fora do lugar e alta demais para cenas que ficariam melhores sem sua presença.

Run” trouxe bons momentos, como o do interrogatório (se excluirmos aquele desfecho no mínimo estranho e a investigação individual pouco crível de cada um) e deixou pegadas que podem levar a destinos interessantes. Enquanto as peças ainda estão espalhadas fica complicado condenar ou louvar a série, mas já fico desapontado por não terem vendido o quebra-cabeça de um modo tão interessante quanto poderiam. É bom ir sem expectativa para uma temporada inteira e se deparar com uma viagem maravilhosa que chegou aonde você nem imaginava — é quando o desenho, depois de montado, mostra-se bem arquitetado. Mas ir sem expectativa e se deparar com uma coleção sem fim de reviravoltas que não convencem e não se explicam, e aqui já temos uma possibilidade, só vai nos provar que tínhamos uma dica no título de uma letra, mas ignoramos por ter fé demais nas séries. Não estaríamos nesse site se não tivéssemos, não é mesmo?

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.