Cheque…
“Despegue” é um final interessante para uma temporada que conseguiu do primeiro ao último plano manter um ritmo dinâmico ao conseguir ao mesmo tempo desenvolver a ascensão de Pablo Escobar como principal nome do narcotráfico colombiano, ao passo que traz em paralelo uma trama de captura do criminoso que, se ainda ocupou um papel menor do que deveria, conseguiu durante boa parte do tempo manter um paralelo entre as ações desencadeadas pelo vilão (na falta de termo melhor) e por aqueles que o querem a todo custo. Estando todos estes elementos aqui presentes, em um episódio que, se não foi o ápice dramático do ano, conseguiu encerrar no momento apropriado a viagem do espectador à Colômbia do final do século XX.
A trama se inicia no exato momento em que o episódio anterior termina e tem como principal eixo os esforços de Gaviria em se utilizar do exército para invadir La Catedral e capturar Escobar (simulando um acordo pacífico), o que encontra um obstáculo no momento em que o narcotraficante toma como refém o vice-ministro da Justiça, Eduardo Sandoval. Em paralelo, Murphy é capturado por um captor desconhecido, levando Peña a ter de investigar sobre o paradeiro de seu parceiro.
A estrutura central do episódio se dá na fórmula utilizada anteriormente pela série de mesclar negociação entre ambos os lados da guerra e corrida contra o relógio, sendo o primeiro episódio até o momento que se ambienta no período temporal de apenas um dia (trazendo uma prévia da dinâmica que será estabelecida na próxima temporada) ao se utilizar do fator tempo como um dos principais recursos dramáticos. E se a utilização deste recurso parece não ser bem conduzida na trama envolvendo Peña (tornando-se ainda mais sintomático quando a própria composição de Pedro Pascal é claramente mais calma do que deveria), mas esta suposta falha logo mostra sua razão de existir quando se revela o papel do agente na equação.
Ambientado mais de uma década após o início da temporada, “Despegue” é apropriado ao enfatizar as principais mudanças ocorridas não apenas na Colômbia, mas nos principais personagens da história. Escobar, se em seus primeiros momentos se mostrava uma figura enigmática que trazia um inusitado idealismo em sua causa, passa a trazer uma melancolia em seu olhar que expõe a metamorfose sofrida durante todos esses anos de ilegalidade (alegrando o espectador nos poucos momentos em que mostra um recuo a certas ações de seu passado, como ao optar por não matar Sandoval ao considerar que esta morte deveria ser debitada ao governo colombiano); enquanto Murphy, em sua obsessão pela captura de Pablo, não percebeu ter incorporado a si aquilo que de pior existe no seu inimigo (tendo como escudo uma suposta legalidade), o que se torna notável no momento em que não demonstra o mínimo remorso ao ter exposto diante de si a morte de uma inocente (falta de empatia esta que nem mesmo Escobar seria capaz).
Entretanto, o melhor momento do episódio se dá na interação entre Escobar e Sandoval. Moura utiliza de todos os artifícios construídos pelo ator durante a temporada para trazer a suposta cordialidade do narcotraficante como um elemento de ameaça, ao passo que Manolo Cardona é eficiente ao trazer uma mistura de racionalidade e idealismo que foram marcos não só do seu personagem como da própria dupla formada entre ele e Gaviria. O momento mais marcante do diálogo se dá justamente quando o narcotraficante tenta mostra a seu interlocutor que poderia estar ocupando o seu cargo, trazendo o rancor do personagem em não ter conseguido o principal plano do seu projeto de alcançar a presidência do país (e o ódio que sente pelas oligarquias que dominam o país não deixa de ser um reflexo de uma própria inveja em não ter conseguido entrar neste universo político). A resposta do vice-ministro é incisiva entrar no mérito de que Escobar é um criminoso, mas não deixa de gerar uma reflexão no espectador sobre se os políticos poderiam justamente se considerar tão isentos deste rumo horrendo de uma guerra que, não importa qual dos lados vença, traz como maior prejudicada a própria população. Mesmo que consideremos que o intuito de impedir que a população consuma substâncias entorpecentes seja supostamente nobre, não seriam as consequências desta política ainda piores do que as do consumo de drogas?
Triste é que a própria guerra se torna um vício para aqueles que a disputam. Enquanto narcotraficantes como Escobar se mostram entorpecidos por uma vida de luxúria e poder que jamais possuíram em vida, os integrantes do aparato estatal se viciam no próprio ato da caça a ponto de não haver mais dúvidas sobre a motivação de Murphy se dar mais por uma obsessão em conseguir dar ao seu inimigo aquilo que o julga merecer do que por realmente acreditar na sua função de combate ao crime em nível internacional.
A Colômbia retratada pela série, afinal, é o habitat natural de ambos os lados deste jogo de presa e predador.















