A mais sombria das maquetes.
Quando era criança eu tinha uma mania estranha de devastar cidades… Já menino, gostava imensamente da beleza da dramaturgia, mesmo que não soubesse que esse era o nome da coisa. Com meus “brinquedos de menino”, promovia versões infantes dos filmes de ação que assistia. Esticava um rolo de ataduras entre duas cadeiras e fingia que aquilo era uma ponte que precisava ser atravessada pelos meus bonecos-personagens. Já com meus “brinquedos de menina”, imprimia mais sofisticação e montava quartos, casas e até cidades em compartimentos vazios de armários. Tudo tinha uma intenção derradeira: montar para enfim, destruir.
Até hoje tenho um carinho especial pelos filmes-catástrofe de Roland Emmerich e acho que na minha infância, uma boa parte daquilo era meu prazer pelo mundo da criação ficcional e outra parte era o deleite infantil sinistro de destruir colônias de formigas apenas para ver como elas reagiam enquanto estavam sendo mortas. Todo mundo encontra algum prazer brincando de Deus… Todo mundo encontraria prazer em poder construir uma cidade apenas para depois, devasta-la. É a morbidez velada de cutucar um bicho para ver como ele se comporta, de enfileirar dominós somente para vê-los sendo derrubados, de construir castelos de areia e fingir depois que somos gigantes a esmaga-los.
Wayward Pines encontrou seu fim semana passada e parece mesmo que será definitivo. Em sua ótima abertura, a metáfora da cidade de brinquedo já nos avisava que aquela era uma maximizada maquete humana, enlouquecida para reproduzir rotinas impossíveis naquela nova ordem da natureza. Em sua única temporada, o show mostrou com muita categoria, que o que reside de natural na raça humana não é só o medo do fim, mas a necessidade de manter-se como centro absoluto do pensamento prático e filosófico.
A estrela desse Series Finale não foi Ethan Burke (RIP), mas sim David Pilcher. Movido por um humanismo fundamentalista, esse cientista recusou-se a aceitar as transformações naturais da evolução da espécie e traiu o equilíbrio das coisas ao tentar reproduzir no futuro os modelos pré-concebidos do passado. O sujeito vilanizou a ação inevitável do tempo, a transformação iminente da vida e arrogantemente, julgou-se o salvador da lógica da humanidade.
Acho que vocês nem precisam se esforçar pra perceber que eu gostei imensamente do programa. Não só pelo ótimo clima de suspense do pré-segredo, como pela vastidão de analogias promovidas pelo pós. Durante todo o tempo, Pilcher justificava suas ações num desejo de preservar a memória de um mundo racional, mas fazia isso forçando os moradores da cidade a abrirem mão das memórias que os fizeram humanos. A dinâmica promovida por isso era fascinante, porque a cidade agia vilanescamente buscando ou protegendo uma verdade que definitivamente não seria suportável.
Pensando em tudo isso, posso dizer que as questões analógicas e metafóricas da trama foram encerradas de modo correto. David, incapaz de aceitar mudanças espontâneas, tentou eliminar o Grupo B e acordar o Grupo C, para com isso recomeçar o processo. Essa ideia de grupos experimentais é sensacional e acho que os roteiros foram muito felizes na exposição do detalhe. A morte de Pilcher pelas mãos da irmã antes vilã e agora heroína, também foi bastante adequada. Ela entendeu o que ele jamais viu: uma das partes de ser humano é afetar-se pelas mudanças forçadas… Ainda que apenas 10 pessoas do Grupo A sobrevivessem, elas seriam aquelas que teriam reconstruído a sociedade espontaneamente.
Mas, é claro que nem tudo são flores… O Series Finale de Wayward Pines foi editado de modo quase amador. É bem verdade que a bagunça pode ter sido provocada pela necessidade de encaixar tudo em 43 minutos, mas, foi uma bagunça assim mesmo. A falta de orçamento restringiu demais as cenas de ação e houve uma falta de catarse quase injustificável na sequência do sacrifício de Ethan. O salto entre o acordo firmado por Pam e Kate, até Ben acordando anos depois, foi um pouco grosseiro e diminuiu o impacto da cena final, que partia de uma noção maravilhosa de ciclo de equívocos e que me chocou de verdade. De certa forma, há até uma certa beleza em ver Pam e Kate falando sensatamente sobre o poder da verdade para depois pularmos para os corpos dos “rebeldes” pendurados pela cidade com uma plaquinha de “Não tente fugir”. É como a confirmação absoluta e impressionante de que o ser humano SEMPRE vai querer voltar pro que conhece, pro que o constitui e não importa o quão honestos os “sequestradores” sejam a respeito. Enfim… Apesar da força da mensagem, a execução acabou sendo frouxa.
Sei que a galera que leu os livros vai se manifestar nos comentários, então vale relembrar que Blake Crouch se envolveu ativamente nas mudanças e segundo soube em minhas pesquisas, criou o conceito da Primeira Geração especialmente para a série. Embora afetada, a ideia parte de uma noção corretíssima de que os jovens têm menos do que lembrar. Essa ideia foi essencial para que a sequência final de Ben acordando tivesse ainda mais sentido. Como Pilcher mesmo disse, sua “ideia” sobreviveu e os adolescentes treinados por Megan acabaram aprendendo muito bem sua lição. Provavelmente foram eles, protegidos pela “Arca”, que reinstalaram a intimidação e o medo entre os moradores.
Parte de mim lamenta o fim do show e parte de mim festeja esses dez episódios. Segura, ágil e digna, a série fez mistério sem cansar, revelou segredos interessantes e traçou paralelos psicológicos realmente fortes. É assustador pensar em qualquer dos pontos de tensão propostos pelo programa… Uma evolução que nos transformará em animais irracionais e um pedaço de uma humanidade forçada, devorando-se tal qual seus vizinhos do outro lado da cerca. A diferença é que os pensantes se devoram de dentro pra fora, num exercício incessante de ser livre e consciente da verdade, a qualquer custo.
Donwton Abbies: Que tosca a forma como Ben ficou inconsciente. Cheguei a rir.
Downton Abbies 2: Apesar de cumprir direitinho a jornada do herói que se sacrifica, Ethan não foi uma presença marcante nesse final.
Downton Abbies 3: Wayward Pines sempre terá um lugar querido no meu coração, porque sou muito fã de Shyamalan e por conta da vinda dele ao Brasil para divulgar a série, acabei conhecendo-o e falando com ele. Agradeço a todos vocês por terem compartilhado dessa temporada comigo e nos vemos quando The Visit, o novo filme dele, estrear.






















