O fato é que Ray Donovan nunca foi uma série que exorciza seus fantasmas. Os corpos que enterra são só um pretexto para o fim de suas tramas. A bem da verdade é que hora ou outra as assombrações que rondam a história irrompem mais uma vez para cobrar as questões pendentes e acertar as devidas contas. Mas não muito longe de ser uma série de horror, o que Ray Donovan faz nada mais é do que operações fundamentalmente objetivas. A saber: ação e reação.

Engraçado que esses dois episódios funcionaram como um verdadeiro contraponto. Enquanto o segundo foi todo de gestos definitivos, de golpes, braços quebrados, confrontamentos e tapas na cara. O terceiro (dos melhores episódios da série??) foi construído na base dos acordos, favores e assinaturas de contratos. Só para mostrar mais uma vez como Ray Donovan sabe concatenar suas tramas e fazer um jogo intrincado com seus movimentos. Não surpreende, portanto, que essa terceira temporada revele isso da maneira mais acertada:

Ray – O sozinho, ao se dirigir para o quarto de Abby encontra o gigante cão branco protegendo a porta. O plano joga de um lado o poder de Ray numa escuridão inabalável, registrando a altura do teto e a altura do homem. O contra campo mostra o animal confrontando o estranho gigante que se coloca diante de sim. Nada mais do que um jogo de dominação que passou a representar a casa e o casamento de Donovan e Abby. Depois temos outra cena na mesma lógica. O contra plongee agora pertence a Luchadora, que de braços na cintura e pose ameaçadora obriga Bunchy – O miserável, curvado e no canto do plano, a limpar o banheiro. A submissão verteu-se, enfim, na própria condição do homem. Estilhaçado, fraturado, relegado a se masturbar na escuridão criminosa, Bunch é a própria escória. No final, Terry – O azarado, contra todas as forças desse mundo cruel que o colocaram na cadeia, enfim domina o plano em um gesto igualmente bárbaro e espanca o prisioneiro ariano. Esse movimento de revolta lhe confere, assim, sua condição mais violenta, sua gravidade mais resoluta.

A violência, o ódio e o fracasso compõe um mundo de uma hostilidade inabalável que estende seus disfarces nos corpos mais poderosos. A trama do episódio girou basicamente em torno de tirar Terry da prisão antes de ser morto. Em cena, duas forças opostas que caminhavam com o mesmo objetivo e preocupação – de um lado o amor do irmão. Do outro, o desespero do pai.

Ray, mais ligado a família do que nunca (o episódio começa com ele no quarto de Bridge e termina com Terry) é constantemente assombrado pela visão da irmã morta. Essa imagem fúnebre o relembra constantemente da dor de perder alguém de sua família. Ray ameaça, chantageia, suborna, para no final compreender que a única solução é inverter o jogo: se vender. Engraçado como o seu sorriso parece vir de uma compreensão de que as coisas simplesmente estão voltando para o lugar onde devem pertencer. Ezra por Finney. Terry de volta. Adeus Abby?

Quanto a Mick, com todos os seus parcos recursos tenta ainda assim salvar seu filho. Não deixa de ser triste que o seu toque de midas invertido contamine todos aqueles a sua volta, e que por isso mesmo, longe de ajudar, apenas descarrila os trilhos para a completa decadência. A figura da garotinha e a presença de Bunch e Daryll parece ser esse conforto que ele precisa – os únicos que enxergam alguma grandeza no seu caráter.

Quem parece querer distância disso tudo é Abby. Que abandona tudo e todos. Querer uns dias não é nada mais justo para quem passou por tanta coisa. O seu choro depois de voltar para dentro de casa e perceber que o cão (Ray?) não voltaria mais, combina de uma só vez o ressentimento, o desejo, o perigo e os seus objetos que rodeiam os seus soluços sufocados. Mas ela não seria egoísta por abandonar seus filhos, assim como fez Ray?

O fantástico terceiro episódio representou e sintetizou sem disparar uma bala sequer, sem precisar de um só soco, todas as ameaças possíveis nesse universo decadente. As faces são marcadas por ferimentos não apenas pela brutalidade do espaço, mas porque a própria visão da morte é o suficiente para assombrar os rostos dos homens.

PS.1: Das cenas antológicas de Ray Donovan: Abby entra com a Garotinha na casa de Mick e dá de cara com Bunch vendo peitos no computador e uma mulher com dois bebes enchendo uma mamadeira de leite – que obviamente não é para seus filhos.

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