A submissão é um dom.

Os crimes de Charles Manson contra a humanidade foram muitos. Os mais famosos acabaram assim porque eles feriam o status hollywoodiano que emergia violentamente naquela Los Angeles cheia de promessas de futuro. Manson queria, como já dissemos, se vingar daquele mundo célebre que não o aceitava e aproveitar, também, para jogar a culpa do sangue derramando nos negros, unindo o “útil” ao “agradável”. E ele sabia – mesmo nos seus devaneios – que tinha um séquito disposto a tudo que ele ordenasse.

A sétima semana de Aquarius nomeou-se de Cease to Resist, numa referência a outra letra de Manson, que, vejam só, é aquela que tem mais relação com tudo que diz respeito a seus métodos. Uma dessas principais referências parte do ódio que ele sentia das portas que se fecharam brutalmente atrás de si. Os Beach Boys, que gravaram essa canção em 1969, não sabiam que estavam levantando a ira do assassino. Dennis Wilson queria se afirmar para Charlie e mesmo sabendo que a música não poderia ser alterada, mudou seu título de Cease to Exist para Never Learn No To Love You, humilhando o compositor original, que numa noite reuniu toda “a família” para ouvir o disco, tendo sido surpreendido pelas mudanças e, inclusive, pelo descrédito na autoria.

Mas, espere… Cease to Exist? Sim… Outra mudança feita por Wilson foi a alteração do verso que dizia Cease to Exist (deixe de existir) para Cease to Resist (deixe de resistir), mudando completamente a ideia da letra. Os Beach Boys não queriam falar de moças que aniquilavam a própria identidade para seguir um homem e fizeram com que a música parecesse falar sobre uma mulher que resiste a ideia de envolver-se e ceder ao impulso apaixonado de um amante. Isso realmente não era algo que Charlie fosse escrever, tornando o roubo dos créditos até mesmo justificado. O que Manson tinha feito era uma canção que, descaradamente, descrevia a manipulação que ele exercia sobre suas garotas.

Linda garota, linda, linda garota
Deixe de existir
Apenas venha e diga que você me ama
Dê-me o seu mundo”
 

A letra era categórica… O que ele fez com Katie, Sadie, Mary, Leslie e tantas outras, foi literalmente aniquilar qualquer existência independente que elas tivessem. E sua influência sobre elas durou muitos e muitos anos, sendo superada apenas quando ele se manteve afastado por um longo período. Charlie era tudo que elas tinham e tudo que elas eram, e quanto mais crimes elas cometiam em nome dele, mais essa dependência se fortalecia, já que tudo que elas faziam era por ele (mesmo que ele sempre repetisse que elas só deviam fazer coisas por si mesmas).

Sendo assim, Aquarius veio com seu melhor episódio, nos mostrar um pouco mais sobre como Manson começou seu trabalho de dominação. Para isso conhecemos “a primeira”… Mary Brunner era uma moça responsável e equilibrada, que um dia, quando passeava pelo campus de São Francisco, conheceu um cara bonito, charmoso e encantador, que tocava violão para ela e lhe dizia como ela era linda. Aquarius fez uma série de quatro pequenos webisodes (infelizmente não disponibilizados no Brasil) que mostram, em um deles, a ocasião desse primeiro encontro. O problema todo é que Mary não estava muito satisfeita em dividir Charlie com outras e quando ele partiu para Los Angeles ela preferiu não ir junto.

Cease To Resist mostra que Manson não se esqueceu dela e envia Emma e Sadie para convencê-la a juntar-se a ele. É bem verdade que o que ele quer mesmo é manter seu caixa eletrônico por perto… Mary era a única seguidora que trabalhava e a família tinha muitas dificuldades de continuar estocando mantimentos e drogas. Talvez ninguém nem insistisse tanto em ter Mary de volta se não fosse a descoberta de sua gravidez. Toda essa passagem do episódio ajudou a reforçar a ideia original acerca de Aquarius, que, repito, não investe em background e deixa seus fãs no completo escuro acerca dessas referências.

A outra grande frase dessas duas semanas é “Um dia o mundo saberá nossos nomes”. Charlie era desse jeito… Falava sobre um mundo sem hierarquia, mas fazia questão de reforçar que queria fazer parte da indústria do entretenimento. Enganava os seguidores fazendo parecer que era pra “espalhar uma mensagem”. Mas, ele só queria mimo e atenção. Por isso, qualquer oportunidade era valiosa. No episódio 1X08 a chegada de um produtor faz com que ele, sem disfarce nenhum, converta seu ninho de “paz e amor”, em um prostíbulo de quinta categoria. Mas, por alguma razão quase sobrenatural, as meninas continuam acreditando nele cegamente.

Sei que estou sendo muitíssimo referencial nessa review, mas isso parte de uma vontade sincera de ver Aquarius através de muito mais do que ela oferece. Ainda vemos uma profundidade medíocre sendo estabelecida na hora de descrever essas personalidades e relações e para que a experiência de fazer a review também seja interessante para vocês que estão lendo, eu me debato sobre informações que deveriam estar ali, mas não estão. O pecado maior de Aquarius continua sendo cometido: ela não nos mostra muito sobre como Manson conseguiu catequizar aquelas mulheres até aquele ponto de completa servidão. Quando o show começa, isso já está estabelecido. Emma deveria ser a ponte, mas não creio que essa ponte esteja fortalecida.

Do lado procedural do show, Sam e Brian tiveram uma boa semana na investigação sobre o assassino de gays. Brian, na verdade, é que teve mais chances de crescer. O preconceito latente faz todo sentido quando levamos em conta a época em que ele vive. Brian está comprometido em resolver o crime, mas não se sente à vontade com a ideia de se expor num bar homossexual. Nós, que o assistimos daqui dos anos 2000, não podemos deixar de compreender de onde parte essa ignorância.

Na cena em que esses preconceitos dele explodem, temos também um vislumbre de qualidade na construção do texto. A analogia usada por Brian é cruel, compara gays a viciados, que “fazem algo mesmo sabendo que está errado”. A resposta de Sam está longe de ser uma defesa, mas demonstra como ele se esforça para ver o aparato humano por trás do julgamento. Independente do sexo, todo mundo acaba sempre vivendo e morrendo por aquilo que ama e por aquilo que odeia. Porém, somente mais a frente é que essas palavras serão capazes de penetrar a consciência de Brian de algum jeito.

Enfim, mesmo que na sua sétima semana Aquarius tenha tido tanto  a oferecer, logo na semana seguinte ela voltou a seu tom genérico e maçante. Ainda assim, a sensação de que algo pode se revelar ligeiramente especial nessa série, aumentou. Permanece bizarro pra mim que uma biografia tão fervente como a de Manson tenha produzido uma série tão hesitante. Aquarius ainda acha que é feio se comprometer com a história, mesmo que seja a história a sua maior e mais forte aliada.

Lost Songs: Cease to Resist começa com uma invasão domiciliar e já mostra o modus operandi de Charlie: invada, amarre, torture e se for servir ao meu propósito, mate.

Lost Songs 2: Em Sick City vemos Charlie sugerir a Emma que se emancipe dos pais. Isso a aproxima ainda mais de uma comparação com a seguidora Ruth Ann, que, casando-se com um estranho, buscava o mesmo efeito.

Lost Songs 3: Sam tentando seduzir primeiro no bar gay: eu ri.

Lost Songs 4: Charlie tem uma prole caminhando pelo mundo… O quão perturbador isso pode ser?

Lost Songs 5: A imagem usada nessa review é de Charlie conhecendo Sadie em um dos webisodes. Usei-a porque ela se relaciona melhor com esse texto, sobretudo porque é Sadie a seguidora mais servil com a qual ele esbarra no início de toda essa loucura.

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