1. Introdução

Antes de qualquer coisa, preciso dizer o óbvio: sou fã da Jessica Lange. Fã mesmo, fã hard. Sempre tive um carinho grande por ela, principalmente depois que descobri, lá pelo começo da minha adolescência, que ela ganhou o Oscar na edição que premiou filmes lançados no ano do meu nascimento. Me tornei fã mesmo, dedicado, a partir de 2009, quando ela venceu o Emmy de Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme, interpretando a lendária Edith “Big Edie” Bouvier em Grey Gardens, ótimo projeto da HBO.

Qual não foi a minha surpresa ao saber que Jessica havia entrado para o elenco de uma série nova do Ryan Murphy para o canal FX? Essa American Horror Story me conquistou logo que eu soube disso, bem antes do lançamento. A série estreou, e no fim do primeiro episódio eu pensei comigo mesmo que, com a interpretação da amargurada Constance Langdon, Jessica Lange seria a nova rainha da televisão.

Constance

Dali em diante, 2012 se mostrou um ano recompensador para mim, pois Meryl ganhou o terceiro Oscar, e eu gritei e chorei feito um doido, e Jessica ganhou seu quinto Globo de Ouro, segundo Emmy e primeiro Screen Actors Guild Awards. E, em outubro daquele ano, dei início à minha vida real de série maníaco quando American Horror Story: Asylum estreou. Jessica interpretava sister Jude, que comandava com mãos de ferro o hospício Briarcliff.

Sister

De imediato a segunda temporada de AHS me conquistou, e, somada à minha paixão por Jessica, veio a vontade de ler tudo que encontrava sobre a série. Comecei a acompanhar os textos do Henrique Haddefinir, sempre tão profundos e complexos, e me tornei leitor assíduo do Série Maníacos. Quando vi que tinha vaga para entrar para a equipe, me joguei de cabeça e, dois anos depois, aqui estou.

2. “Jessica Lange virá ao Brasil em fevereiro”

Pulemos para outubro de 2014, dois anos depois da estreia de Asylum. Meus amigos Will e Luciano dariam uma festa de Halloween (ou, como eu chamava, HalloWill), e eu precisava de uma fantasia. Como não me fantasio de qualquer porcaria, honrei uma das melhores personagens em séries de terror: sister Jude. Franja loura, crucifixo, roupa sensual por baixo e maquiagem para marcar meus ossos no rosto de modo que eu ficasse parecido com Jessica Lange.

Haloween

Com fotos publicadas no Facebook, fui recebido no trabalho com aclamação na segunda-feira após a festa. De acordo com meus colegas, eu era a melhor freira que já tinham visto. Perguntavam o porquê da franjinha, e eu explicava que “era o personagem da Jessica Lange numa série chamada American Horror Story”. Fui mais elogiado ainda. E, embalado por esses comentários, comecei a ler um post interessantíssimo do Papel Pop enviado por um amigo que se lembrou de mim. O texto, Um tributo para Jessica Lange, a rainha suprema da TV e do cinema, apresentava curiosidades sobre a carreira de Jessica para um público que, em maioria, conhecia apenas seu trabalho em American Horror Story. Não havia nenhuma grande novidade no post pra mim, até chegar nesse parágrafo: “O que?! Nossa suprema é fotógrafa?! Isso mesmo. Há 20 anos, seu até então marido Sam Shepard lhe deu uma câmera Leica de presente e a atriz amou! Ela começou a fazer fotos de seus filhos, família e lugares que visitou, tudo em preto e branco. Em 2008 ela lançou o livro “50 Photographs”, uma coletânea com 15 anos de fotografia. Melhor parte: Tudo isso poderá ser visto em breve! Jessica Lange vem ao Brasil em fevereiro de 2015. Ela trará a exposição ‘Unseen’ ao Museu de Imagem e Som de São Paulo. Serão 135 fotografias da atriz, boa parte delas durante visitas ao México, Finlândia, Etiópia e Rússia”. Fiquei em choque. Falei para meus chefes na hora que, em fevereiro de 2015, eu veria Jessica Lange em São Paulo. Não tinha a mínima ideia de como iria, onde ficaria, se teria dinheiro. Mas essa oportunidade eu não deixaria escapar.

Lá por janeiro anunciaram que ela viria para a abertura da exposição em um evento apenas para convidados. Isso não diminuiu em nada meu ímpeto de ir, tanto que entrei em contato com amigos paulistanos que poderiam ter conhecidos dentro do MIS, e de alguma forma pudessem me colocar lá dentro. No fim do mesmo mês, a programação definitiva foi anunciada: seria um bate-papo com o público no dia 10 de fevereiro. Hora de comprar a passagem, mesmo pagando o dobro do preço que pagaria se tivesse comprado com um mês de antecedência. Tive que explicar para meu planejamento financeiro e para a minha mãe que não tinha culpa sobre a data certa da vinda de Jessica ser divulgada tão tarde, e, apesar de não esconderem o contragosto, os dois me ajudaram nessa empreitada. Voo da Azul saindo 11h para Congonhas no dia 06/02, volta às 14h do dia 11/02 para Porto Alegre. Lá se foram R$ 450 reais, doloridos ao servirem como investimento na realização de um sonho incerto, mas necessário. O sonho era incerto porque o MIS abriu 50 vagas para quem mandasse um minicurrículo mostrando o porquê que a pessoa merecia garantir uma entrada sem precisar chegar cedo na fila. Eu só consegui mandar o currículo horas depois do prazo, porque estava sem internet e cuidando de uma insolação violenta. Fiz um texto muito legal, explicando meu problema de conexão e comentando que estava indo de Porto Alegre só para o evento. Não colou. Então, amigos, seria na cara e na coragem.

3. Contagem regressiva

Passagem comprada, tudo acertado com o meu primo Rodrigo para ficar no apartamento que ele divide com a namorada, Martina, em São Paulo. Cheguei sexta-feira 6, deixei minha mala no apartamento dele e saí para passear. Eu teria quatro dias inteiros antes do evento para passear, então preenchi todas as horas possíveis com planos para tentar tirar meu pensamento de Jessica. Fui ao MASP, Parque Trianon, Itaú Cultural, Memorial da América Latina, Edifício Copan, carnaval de rua na praça Roosevelt, pontos de táxi na avenida Angélica, 25 de Março, Liberdade, visitar as inimigas lá no Instituto Butantan. E, nesses dias antes do evento, todas as noites fiz uma caminhada pela supreme das avenidas, a Paulista, ouvindo Life on Mars, Gods and Monsters, Heroes, The Name Game, September Song, We Belong Together… Era uma dose diária de ansiedade, mas que servia para manter meu furor aceso – não que precisasse ouvir Jessica cantando para me deixar on fire, mas por que não?

Elsa Mars

Enfim, me diverti demais nesses dias, mas quando chegou a noite de segunda-feira eu sabia que precisava me dedicar ao máximo ao motivo maior da viagem. Antes de me acomodar, deixei roupas, documentos, dinheiro e o livro 50 Photographs separadinhos. Só não consegui domar meu lado fã, o que me levou a deitar às 22h e conseguir dormir quase 1h. Afinal, eu sabia que acordaria em um dia surreal.

4. É hoje!

4h20 da manhã: toca o despertador. “Só mais cinco minutinhos”, que no fim foram uns vinte. Quando acordei de vez, me sentindo o rei da inconsequência, olhei para a janela entreaberta e pensei “é hoje”. Vesti as calças, meias, tênis. Ia para a fila com a camiseta que usei como pijama, e lá trocaria por uma limpa e bonita. Na sacola de tecido estavam o livro, uma caneta, uma revista, balas e uma caixinha de barras de cereal. Comi um sanduíche, tomei água e saí para caçar um táxi na Paulista. Sempre movimentada, a avenida é o máximo no fim da madrugada. As banquinhas de café da manhã na rua, pessoas indo para o trabalho, skatistas. Achei um ponto de táxi perto do Itaú Cultural, entrei no carro e disse “Jardim Europa, no Museu da Imagem e do Som. Não lembro mais a rua, desculpa”. O motorista sabia, e lá fomos eu e ele conversando.

Foi um percurso relativamente longo. Passamos o Ibirapuera e entramos nas ruas tortuosas e arborizadas dos Jardins, área nobre paulistana que eu só conhecia de nome, e de saber que a Marta Suplicy mora por lá. Achei curioso como é um contraponto da ideia que a cidade de São Paulo nos passa, porque o Jardim Europa é um bairro surrealmente escuro. Não tinha um poste de luz nas ruas, e por isso foi engraçado quando chegamos à iluminada avenida Europa. Paguei os trinta reais ao taxista e desci.

5. Avenida Europa, 158

Era seis e alguns minutos da madrugada, e, como eu disse e volto a ressaltar, ainda estava tudo escuro. Caminhei da esquina até a entrada do museu, e não tinha uma alma por ali. Logo em seguida uma senhora desceu na parada de ônibus e passou por mim, e aí perguntei para ela se havia um bar ou algo assim ali por perto, e fui tagarelando e dizendo que a distribuição dos ingressos era só às 17h, e eu estava com sede, etc. Ela me indicou uma banca de revista naquela mesma quadra, e um posto de gasolina numa esquina três ruas acima. E, cordialmente, me desejou boa sorte.

Passei na banca e comprei uma Folha de São Paulo só pra ver se a exposição e a vinda da Jessica seriam noticiadas, e qual o espaço dado a isso no jornal. Depois fui até o posto, e lá comprei uns chocolates, um refrigerante e uma keep cooler (afinal, o dia seria longo… e, mesmo na falta do meu amado Martini, já era bom ir começando os trabalhos).

Fiona

De volta ao MIS, vi um rapaz e uma mulher vestidos de preto sentados num banquinho dentro do pátio do museu. Como a corrente ainda estava posta na entrada, pensei que trabalhavam por lá. Então, sentei na calçada e comecei a dar uma lida sobre novidades na captação de água no sistema Cantareira. Não muito tempo depois, os dois de preto vieram falar comigo. “Você está na fila pra ver a Jessica Lange?”. “Sim, estou”. “A gente também, o segurança nos falou para ficar aqui dentro. Vem com a gente”. Então eu não era o primeiro, era o terceiro. O que, no fim da história, não mudaria em nada as minhas chances de conseguir a senha.

A moça se chamava Marina, 24 anos, dona da primeira agência de modelos alternativos do Brasil. O menino era o Bruno, 17 anos, que ajuda a mãe numa oficina de costura em Guarulhos. E, junto com esse estudante de jornalismo gaúcho de 20 anos, éramos os três primeiros na fila. E lá ficamos apenas nós três, conversando sobre Jessica. Logo chegaram mais pessoas, com as quais também fizemos amizade: o Hermano, o Paulo, a Natália e a Fernanda. Como eu, Marina e Bruno ocupávamos o único banco que não estava molhado, espalhei folhas do jornal no banco ao lado para que os quatro não ficassem de pé. Já havia localizado e guardado a nota sobre a exposição na Ilustrada, uma nota discretíssima de uma frase só. Achei maravilhoso.

O tempo passou, o dia amanheceu e foi chegando mais gente na fila. Alguns com camisetas de American Horror Story, outros que pareciam ter saído da Miss Robichaux’s Academy for Exceptional Young Ladies. Quando o relógio marcou 7h, comemoramos: daqui a dez horas distribuirão as senhas.

*

Na parte 2, tem polêmica, atenção da mídia e distribuição de senhas. A história continua… Mas já adianto que teve final feliz.

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