As estrelas não pagam.

Aqui estamos nós, quem diria, depois de tanto tempo desde que finais espiritualizados foram amaldiçoados pelo senso prático dos série-maníacos, diante de um finale que respira essa referência, dando ao mundo de Freak Show um encerramento lúdico que aqui se aplica com ainda mais coesão se colocamos em perspectiva que quando as cortinas do circo se fecham, a plateia não tem acesso ao universo de desligamentos entre o real e o imaginário, que costumam envolver esse tipo de arte performática.

Essa foi uma temporada conduzida em cima de uma grande plataforma: a aceitação. E como sabemos que naqueles tempos o abraço social era uma missão impossível, o foco da temporada foi a auto aceitação, foi estabelecer a dificuldade que os freaks tinham de entender a aceitação como uma oportunidade de viver em paz a despeito do mundo que está em volta. Quando a temporada se situa no período de decadência, também estamos sendo informados que tudo será uma questão de encerrar destinos. Quando um circo de aberrações termina, pra onde vão suas “estrelas”?

Essas não são estrelas fáceis, comuns, digeríveis. Essas não são estrelas que brilham num firmamento hospitaleiro. Essas são estrelas que por viveram numa órbita paralela a nossa (forçadas a isso), criam seus próprios códigos e funcionam conforme a própria amoralidade. Sendo assim, são estrelas pontiagudas e agressivas, que ferem, machucam e até matam. Seus pecados são pagos dentro dessa mesma esfera da existência… Por isso, faz absolutamente TODO sentido que as sentenças fossem executadas ou sofridas baseadas apenas numa lei: a do mais forte.

Então, o season finale dessa incrível temporada foi dividido em dois julgamentos distintos, onde os réus também estavam muito bem definidos. Quando esse último episódio se arruma dessa forma, também está buscando amarrar seus pontos de uma forma que não deixe espaço para especulações. O circo chegou na vida desses dois acusados para fazê-los descobrirem algo sobre si mesmos e foi a partir desse mesmo circo que seus destinos foram traçados e discutidos. Nessa dança de sentenças, os mais fracos foram as baixas necessárias para estabelecer os maiores ganhos.

Dandy

Dandy era aquele que NÃO se denominava como “a maior aberração de todas “. Sua psicopatia manteve-se latente até o momento em que encontrou a inspiração em Twisty, que ali estava para rondar o circo. Dandy, como todo psicopata, se achava um arauto da vontade de Deus, se via numa existência superior e era incapaz de reconhecer suas limitações, inclusive artísticas. Ele era um delusional, alguém que não podia ser amado, não podia ser aplaudido… Alguém que queria se cercar de pessoas que ele julgava serem inferiores, mas identificáveis. Ele desprezava os freaks, mas achava que eles seriam o mais próximo que ele encontraria de reconhecimento interior e pessoal. Gente deformada por fora deveria aceitar gente deformada por dentro e vejam só, que interessante, ainda que humilhasse aquelas pessoas, Dandy se considerava uma célula daquela mesma engrenagem.

Elsa

Elsa era aquela que se denominava “a maior aberração de todas”. Essa compreensão se manteve latente até o momento em que ela matou Ethel, quando a deformidade de seu caráter a fez achar que abraçava finalmente aqueles que a seguiam. Elsa, como toda artista fracassada, se achava incompreendida e vivia sob a expectativa de que um dia alguém reconheceria isso e lhe daria a chance de ser adorada como merecia. Mas, ela era uma delusional, alguém que não podia ser amada, não podia ser aplaudida… Alguém que queria se cercar de pessoas que julgava serem inferiores, mas identificáveis. Ela desprezava os freaks, mas achava que eles seriam o mais próximo que ela encontraria de reconhecimento interior e pessoal. Gente deformada por fora deveria aceitar gente deformada por dentro e vejam só, que interessante, ainda que humilhasse aquelas pessoas, Elsa se considerava uma célula daquela mesma engrenagem.

No entorno desses dois grandes réus, estava o séquito do Freak Show, formado por gente que – em sua maioria – pisava nos mesmos trilhos de negação. Apenas três personagens (um com duas cabeças), encontraram uma outra espécie de jornada, que na contramão de toda a opressiva escuridão que rondava o ambiente, os levou para aquilo que os salvaria da morte: aceitar o que se é e todas as possibilidades de ir para onde pudessem ir.

Desi é o tipo de personagem que qualquer ator adoraria interpretar. Ela pode parecer – numa olhadela rápida – um pequeno pedaço da trama, mas de mansinho, fez seu trajeto passar por toda a temporada e por todas as viradas relevantes. Teve boas cenas com Dell, com Ethel, com Jimmy, com Elsa e passou pelas narrativas de uma forma que a possibilitou ter consistência para ganhar esse spot final. Sua virada derradeira deu-se quando descobriu que era uma mulher de verdade, e ainda que respeitasse e amasse o meio que a acolheu, construiu uma identidade pessoal (e pessoal apenas, porque pro mundo ela ainda teria três peitos) de que era como qualquer outra mulher do mundo. Isso a libertou, a fortaleceu e ela desafiou a natureza para encontrar felicidade. Me emocionei de verdade ao vê-la com seu marido e filhos.

Jimmy começou vivendo seus conflitos existenciais do mesmo modo que qualquer outro rapaz sensível que teve um pedaço de sua própria história tirado de si. Ele viu suas referências parentais se confundirem, seus iguais sendo dizimados e isso fez com que ele chegasse a uma catarse interior que explodiu quando suas mãos de madeira surgiram como suas mãos de outrora. Naquele momento ele aceitou quem era e como tinha chegado até ali. Ele parou de lutar contra o fato de que ele não estava à margem do mundo… Aquele era seu mundo. E sua decisão de ficar com Dot (porque me pareceu que Bette não era parte do matrimônio) só reiterou isso. Maggie era a representação da normalidade, mas os sentimentos verdadeiros não partiriam dela.

Bette e Dot passaram metade da temporada achando que a separação era o melhor caminho, mas quando aceitaram que havia beleza e prazer naquela existência, o mundo ficou mais leve e elas puderam ver tudo com mais clareza. Ao invés de sublinhar a bizarrice da condição das duas, os roteiristas tomaram a decisão de retratá-las como mulheres normais, que querem o amor e a segurança de um lar mais que qualquer coisa na vida. E foi isso que elas ganharam como recompensa… Elas, Desi e Jimmy colecionaram pecados por todo o ano, mas eles se tornaram estrelas conscientes de seu brilho e como vocês sabem, as estrelas não hão de pagar.

Curtain Call foi um episódio todo de fechamentos e mesmo que as críticas à temporada estejam flutuando por aí, tenho uma segurança plena de que esse foi o ano com mais horror, mais coesão e mais beleza. Gostei muito de Coven, mas sempre admiti que havia buracos. Pra mim eles não prejudicavam a força das alegorias, mas em Freak Show não tem espaço pra isso… Todas as tramas foram bem amarradas, não ficaram arestas relevantes e embora o drama costurasse com elegância as tramas, o horror sempre esteve presente em abundância. Mortes, tripas, sangue, mutilações, sexo, deturpação psicológica, valorização visual do grotesco… Horror essencial e com aquela pitada de verdade que é o que faz com que American Horror Story seja tudo que ela é.

Dandy

Primeiro Dandy sentenciou os remanescentes do circo a uma vida de privações… Como Paul bem disse, aquele era um mundo que estava morrendo e o destino daquelas pessoas era a fome ou a loucura. Depois, os freaks sentenciaram Dandy a conhecer a grande verdade: ele não era NADA. Claro que o único movimento possível de resposta seria o ataque e o episódio nos presenteou com uma sequência maravilhosa em que o psicopata matou um por um de seus algozes. Caminhando lentamente, cantarolando, com as vítimas reagindo sem nenhum ruído. Um primor de sequência, que ainda que nos choque tem um efeito colateral até poético: no final das contas foi Dandy quem lhes poupou de um destino muito mais terrível.

Em seguida, o próprio Dandy sofreu a execução de sua pena… Ele levar as gêmeas como troféu é bem coisa dele… Ele acreditar no amor delas, idem. O que acho realmente sensacional é que para a maior aberração natural de todas, haja o maior jarro de todos. Até mesmo a caixa de ilusões de Houdini a série arrumou um jeito de aproveitar. Jimmy, Desi e as gêmeas assistindo tudo com pipoquinha foi sensacional. E finalmente Dandy fez seu show, pela primeira e última vez.

Elsa

Em mais uma prova de coerência, os roteiristas respeitaram o flash forward de Pepper e realmente deram a Elsa tudo que ela queria… Eles precisavam fazer isso… Elsa tem uma personalidade tóxica, realmente amaldiçoada e precisava ver que o problema nunca foi o que ela perdeu (Jimmy, Desi e as gêmeas também perderam muito), mas sua incapacidade de aceitar o que ganhara, vivendo eternamente em insatisfação. Então, ela precisava morrer e assim como Dandy, também morreu em frente a uma plateia de curiosos que esperavam seu fim.

O fim de Elsa trouxe de volta Massimo e Edward Mordrake. Um veio para reiterar o mundo externo tirando dela a sua chance de ser feliz. Elsa sente que está sendo mutilada o tempo todo e isso impede que ela enxergue o que fica e só foque no que vai. Depois de perder o amado e ter seu passado ressurgido das cinzas, ela decide se apresentar no Halloween sabendo que Mordrake virá para busca-la. Aqui começa a complacência narrativa que sempre incomoda os que buscam por finais muito práticos.

Precisamos considerar que Mordrake apareceu no começo da temporada e interagiu com os personagens… Sendo assim, ele voltar no final é só uma questão de consistência narrativa. A vinda dele é um recurso dramático conveniente e coeso com o que a série propusera até aqui. Depois disso tem a questão da morte em si… Edward sabe, melhor do que Elsa, que ela não tem o perfil para juntar-se a ele pelos mesmos motivos que o fizeram não leva-la antes. Além disso, seu rosto traseiro sabe que trata-se de um suicídio. Mesmo assim, ele a executa.

Os princípios criativos que levam até o mundo espiritual encontrado por Elsa são os mesmos que guiaram o trabalho de Damon Lindelof em Lost. Usar Lost como referência aqui pode ser outro tipo de suicídio inevitável, mas, o fato é que ela reencontrou todos aqueles que fizeram parte daquela que era a passagem mais icônica de sua existência e ali eles podiam reviver os dias áureos dos freak shows, eternamente.

Embora nada, nos mantenha juntos
Nós poderíamos enganar o tempo, apenas por um dia
Nós podemos ser heróis, para todo o sempre”

A canção que ela canta também se conecta com essa perspectiva e havia, é claro, a necessidade de também homenagear a passagem de Jessica pelo show, o que tornava esse recurso lúdico ainda mais valioso. Elsa, entretanto, reconhece o privilégio daquela pós-vida mágica e quer saber se não deveria pagar por seus pecados… O texto de AHS nunca, nunca mesmo deixa de nos desafiar com sua autocrítica voraz. E na hora de responder essa pergunta, usa uma frase da própria Elsa, lá do piloto, quando se recusa a pagar a conta do restaurante: “Estrelas não pagam”. Primeiro no sentido prático e logo depois, no sentido metafórico. Assim, com essa licença cheia de reverência, o roteiro se explica. Elsa era uma estrela sim, mas ela nunca se permitiu ver-se dessa forma porque nunca era o bastante…

A narrativa linda dessa temporada deu outra volta, e lá estávamos de novo prestes a mais uma dose de Life on Mars, que se fosse realmente executada, naquele contexto, teria outros significados. Nesse ponto eu já estava em prantos… Compreendo todos aqueles que não embarcaram nessa viagem como eu, mas pra mim Freak Show foi uma das coisas mais belas e divertidas que já tive a oportunidade de ver e que apenas confirmaram que American Horror Story é um verdadeiro presente pra quem gosta de ver em dramaturgia, boas doses de mitologia, referência, cultura pop e poesia. Ela é uma grande alegoria imagética e textual, ousada e desafiadora, que me comove porque se aceita como tal, vislumbra poder em sua existência marginalizada e que assim como os personagens que construiu nesse ano, sabe que apreciá-la é uma questão de para onde você direciona o seu olhar.

Obrigado, Freak Show… Meu olhar, em todas as direções, é seu.

Last Performances: O encontro entre Jimmy e Desi depois do massacre foi uma bela oportunidade para reafirmar o poder daqueles laços involuntários. Assim como quando as gêmeas falam da tristeza de perder a chance de ter amigos.

Last Performances 2: “… but freak babies”. Uma menção honrosa ao trabalho lindo de Finn.

Last Performances 3: O pequeno monólogo de Ethel ao apresentar Elsa dando outro recadinho pra Jessica Lange: Estrelas que um dia tiveram uma luz muito forte, sempre reencontram seu brilho.

Last Performances 4: Quero agradecer MUITO a todos os comentários, positivos e negativos, que tornaram a experiência dessas reviews ainda mais maravilhosas. Vocês são leitores incríveis e seus debates depois de cada episódio me deleitavam. Mas, um agradecimento em especial eu preciso fazer: @LenaGronchi, você é muito responsável por tornar essas reviews ainda mais completas, obrigado.

Last Performances 5: Vou deixar colado aqui o vídeo da abertura dessa temporada. Não me canso de ver e só tenho mais orgulho a cada vez que vejo.

http://youtu.be/ZFLKPMLdR2c

Em tempo: a demora dessa review teve como principal motivo o meu aniversário, que foi no final de semana passado (sim, eu posso estar dizendo isso pra ganhar parabéns).

Artigo anteriorPrimeiras Impressões: The Man In the High Castle
Próximo artigoPrimeiras Impressões: Felizes Para Sempre?