A Globo continua apostando na qualidade de suas produções de início de ano com esta minissérie que é ainda mais ousada do que Amores Roubados.
Já vem de algum tempo a tentativa da Globo de abrir mão do padrão que a própria se impôs e se tornou refém, sempre, claro, sem abrir mão do seu grande carro-chefe… E dessa forma, as vezes vemos uma novela das seis inovadora, uma aposta numa trama mais complexa no horário das 23h, e até mesmo a mudança da tônica da sua segunda linha de shows noturnos (às 23h30, normalmente), mas é definitivamente em suas já tradicionais minisséries de início de ano que a Globo vem ousando cada vez mais e mais…
Primeiro tivemos O Canto da Sereia (2013), que mesclava a dramaturgia habitual da emissora a um thriller interessante (e bem brasileiro) que foi um sucesso. No ano seguinte a Globo ousou ainda mais com Amores Roubados (2014), minissérie que trazia uma trama ainda mais complexa, lidando com um tema complicado como a traição e que seguia uma trajetória dramatúrgica bem diferente das demais produções do canal – o “mocinho” morreu no meio na história, afinal de contas – e, mais uma vez, tornou-se um sucesso retumbante, transformando Amores Roubados em uma das minisséries de maior audiência da história da Globo.
Mas agora, definitivamente, a Globo parece ter enlouquecido, e esquecido da sua segurança (um tanto quanto soberba) de líder absoluta de audiência, que pouco arrisca…
E digo isso porque, apesar da qualidade textual (e técnica, no geral) absurda de O Canto da Sereia e Amores Roubados, no fim das contas, as tramas universais dessas minisséries (o “Quem matou?” da primeira, e a dupla vingança+traição da segunda) atraíam o público e tinham a capacidade de prender até o telespectador médio da emissora… Já Felizes Para Sempre?, nova aposta da emissora, ao que parece, traz uma trama complexa e intricada demais para o telespectador padrão.
Escrita por Euclydes Marinho (Eu Que Amo Tanto, O Brado Retumbante), baseado em sua própria obra “Quem Ama não Mata”, de 1982, Felizes Para Sempre? conta a história de cinco casais, suas crises e desencontros, desenvolvendo essa narrativa miscigenada que poderá resultar em um crime passional, envolvendo um dos casais. A série terá dez capítulos, que serão dirigidos pelo brilhante Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel, Ensaio Sobre a Cegueira), e conta com Adriana Esteves, João Miguel, Maria Fernanda Cândido, Enrique Díaz, Paolla Oliveira, Cássia Kis Magro e outros nomes de peso no elenco.
Criando uma pequena linha que amarra as histórias, ao focar em casais ligados a um mesmo eixo familiar, a minissérie pretende abordar as tramas separadamente, aproveitando-se, obviamente, das interações entre os diferentes núcleos, apesar do desenvolvimento separado. Foi por isso que todo o primeiro ato se preocupou apenas em nos mostrar que Cláudio, Hugo e Joel são filhos de Norma e Dionísio, casal que completou 46 anos de casados e que, teoricamente, deveria ser um exemplo para o relacionamento dos três filhos.
Superada a necessidade de nos apresentar o fio condutor entre os núcleos, este primeiro capítulo serviu basicamente para nos apresentar os casais principais (sendo apresentado quatro dos cinco casais) e já começar a liberar algumas dicas dos problemas que circulam esses relacionamentos. Mas foi com Marília e Cláudio que “Onde colocar o Desejo?” mais se preocupou.
Após superarem a perda de um filho, vítima de um acidente doméstico, Marília (Maria Fernanda Cândido) já não aguenta mais a distância e a falta de interesse que Cláudio (Enrique Díaz) demonstra por ela, e tenta, por meio do sexo, apimentar as coisas entre os casais, nem que isso signifique contratar uma prostituta, Danny Bond (Paolla Oliveira) para ver se realizando a fantasia do marido, o interesse volta a despertar entre o casal.
Primeiramente, é incrível como a série conseguiu transformar Marília em Cláudio em pessoas tão palpáveis, tão reais. É um casal que se ama, que se respeita, que passaram por um grande trauma juntos, mas que não se interessam mais um pelo outro. Acontece. E com muito mais frequência do que imaginamos. A trama dos dois, apesar de estar ligeiramente mais avançada que as dos demais, ainda está muito no começo, e a chegada de Danny Bond apenas serve de aviso que muitas viradas virão.
No geral, eu já esperava uma direção impecável para Felizes Para Sempre?, já que sou um fã incontestável do trabalho de Fernando Meirelles, por isso, o que acabou me surpreendendo mesmo foi a qualidade absurda do roteiro que a minissérie nos apresentou neste primeiro capítulo.
O texto foi ágil, moderno, inteligente, sabendo ser conciso e orgânico e sem, em nenhum momento, perder a naturalidade… As conversas de casais pareceram mesmo sair da intimidade de um lar, bem como as escolhas das palavras nas cenas com a psicóloga de casais, e todas as tentativas da série em ser moderna, usando palavrões ou sendo – em alguns momentos – absurdamente irônica, foram bem sucedidas.
Com um texto fluído e natural destes e um elenco espetacular, o capítulo de estreia de Felizes Para Sempre? passou sem que eu notasse o tempo passar… E aqui acho necessário não apenas elogiar o texto em si, mas todas as sacadas além das falas que os atores empregaram em cena, como uma excelente interação com gadgets tecnológicos, ou até mesmo posturas e pequenos gestos de alguns personagens, como a insegurança de Marília no consultório psiquiátrico ou sua indecisão ao se arrumar para receber a prostituta em casa.
Já tendo reconhecido os méritos do roteiro e do elenco da produção, está na hora de rasgar elogios abertos á direção, já que Fernando Meirelles dificilmente me decepciona e desta vez, novamente, mostrou porque pode ser considerado um dos melhores diretores do mundo na atualidade.
Como já disse, já tinha ficado animado só de ver o nome de Meirelles no projeto, quando eu descobri que – por opção do diretor – a minissérie seria ambientada em Brasília fiquei ainda mais fascinado, e com ainda mais expectativas da visão que o diretor imprimiria da capital federal.
Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro e ser um louco apaixonado pela Cidade Maravilhosa, assumo ter arrumado em Brasília uma amante. Depois de viver praticamente por toda a minha vida aqui, aprendi a amar cada parte dessa cidade…
Brasília pode ser fria, mas também abrasiva, pode ser urbana, mas tem muito verde, e muita vida, pode ter uma das arquiteturas mais modernas e diferenciadas do mundo, mas não perde o charme de manter a essência da sua década de nascimento… E Brasília é absurdamente charmosa, ahh, como é charmosa… Como pode ser viva, alegre, bela e hospitaleira… E ainda tem o céu de Brasília que, olha, dispensa comentários além dos já tecidos por muitos de nossos poetas ao elogiar a imensidão azul do céu de Brasília…
E é com toda essa paixão (assumida) pela cidade em que vivo que estava com a maior das expectativas de que Fernando Meirelles um dos diretores que mais admiro, fosse capaz de quebrar o estigma político que está presente em todas as produções que são gravadas aqui. E apesar de um capítulo ser muito pouco para tecer comentários mais profundos, preciso dizer que estou absolutamente maravilhado com o que nos foi apresentado até aqui, desde as imagens mais icônicas, como a Ponte JK ou a Esplanada dos Ministérios – com uma sequência no Congresso feita por meio de drones absolutamente fantástica – até pequenos detalhes, como ruas, quadras, trechos do Parque da Cidade e até mesmo os azulejos do banheiro de Norma e Dionísio, toda a composição da cidade como pano de fundo – e até mesmo um personagem, como afirmado pelo próprio Meirelles em entrevista – foi tudo muito bem desenvolvido.
Maravilhado com o apuro técnico, sobretudo com uma direção soberba, espantado com a qualidade do texto e surpreso com a ousadia da Globo de levar essa trama tão complexa ao ar, termino o primeiro capítulo de Felizes Para Sempre? com a certeza de que, novamente, a Globo acertou em sua produção de início de ano.
Temos, novamente, uma produção que uma das maiores emissoras do mundo pode fazer (mas que, infelizmente, nem sempre QUER fazer)… O que devemos fazer, então, é aproveitar cada um dos 9 capítulos que nos restam.

::: FRASE DO CAPÍTULO:
– “Bond. Danny Bond, como o James…”
::: OBSERVAÇÕES FINAIS:
– É o primeiro trabalho de Adriana Esteves após o fenômeno de Carminha em Avenida Brasil (2012), e pelo menos eu, tenho muitas expectativas para uma trama excelente para Tânia.
– Como falei, a trama é inspirada numa minissérie que o próprio Euclydes Marinho escreveu em 1982. Ele atualizou as histórias e modernizou os casais, mas como homenagem à história original, decidiu dar o nome dos ATORES que viveram os casais na primeira versão aos PERSONAGENS da segunda:
O primeiro casal, Alice e Jorge, que na versão de 1982 foram interpretados por Marília Pêra e Cláudio Marzo, se transformaram em Marília e Cláudio, vividos desta vez por Maria Fernanda Cândido e Enrique Díaz.
Já o segundo casal, que na primeira versão recebiam os nomes de Laura e Raul e eram vividos por Susana Vieira e Paulo Villaça, viraram Susana e Joel – que foi o único nome que não homenageou seu intérprete original – vividos por Carolina Abras e João Baldasserini.
Denise Dummont e Daniel Dantas foram os intérpretes do terceiro casal, Júlia e Chico, na obra original, mas que em 2015 se transformaram em Denise e Daniela, vividas por Paolla Oliveira e Martha Nowill.
Odete e Fonseca eram o quarto casal da versão original, interpretados por Tânia Scher e Hugo Carvana, e que viraram exatamente Tânia e Hugo na atual versão, dessa vez vividos por Adriana Esteves e João Miguel.
O último casal, que na versão original tinha Norma Geraldy e Dionísio Azevedo dando vida à Carmen e Aurélio, agora surge com Selme Egrei e Perfeito Fortuna na pela de Norma e Dionísio.
– Fernando Meirelles, apesar do trabalho fantástico feito nesta estreia, dirigirá apenas os capítulos 1, 2 e 10… Paulo Morelli dirigirá os capítulos 5, 6 e 8, Luciano Moura 3 e 7 e Rodrigo Meirelles, os capítulos 4 e 9.
– Apesar dos elogios ao Fernando Meirelles, preciso deixar registrado que muito do trabalho de ambientação aqui em Brasília tem mérito total dos diretores de fotografia: Adrian Teijido, Lito Mendes da Rocha e Marcelo Trotta.
– Necessário elogiar ainda, a lindíssima cena do acidente com o filho de Marília e Cláudio e afirmar que, apesar do recurso ser bem parecido com o utilizado em Anticristo (Lars Von Trier, 2009), foi reproduzido com tamanha perfeição que não é nenhum demérito, pelo contrário, é de se alegrar ver algo deste nível na TV brasileira.
– Para ser ainda mais puxa-saco de Brasília, me despeço com um trecho da entrevista dada por Fernando Meirelles ao Correio Braziliense:
“Brasília é diferente em qualquer aspecto, não só como cenografia. A quantidade de céu e de horizonte talvez seja o que a torna distinta e os grandes vazios urbanos também. Eles refletem lindamente a alma solitária dos personagens. Usamos sempre a câmera baixa para explorar ao máximo o céu do Planalto e voamos livres com nossos drones pelo meio daqueles monumentos. Isso foi um prazer do tamanho da Esplanada”.
“A minissérie está impregnada da cidade. A maioria dos brasileiros conhece apenas as imagens da Esplanada e poderá se surpreender com a vida ao redor do Lago Paranoá, ao entrar numa superquadra e circular pelas avenidas da cidade. Brasília virou uma personagem da história. Se a percepção da cidade não mudar para os espectadores, ao menos para mim terá mudado e muito. Cheguei achando que a cidade tinha uma certa frieza e saí com a certeza de que além de ser a cidade mais bonita é o melhor lugar para se morar no Brasil”
– MEIRELLES, Fernando.














