Quando o esforço do roteiro é sucumbido por todo o resto.

A série baseada em um livro de trezentas páginas, que poderia ser enxugado em cem, e daria um filme razoavelmente divertido de uma hora e vinte, mas se tornou série, chega à sua segunda semana. Investindo nos acertos do Piloto, mas falhando em alguns pontos quase irritantes, Eye Candy rende momentos divertidos, alguns criativos e outros engraçados. Se dois erros não fazem um acerto, talvez a solução seja acrescentar mais negativos à soma.

Depois da ousada decisão de matar uma personagem importante logo na sua primeira hora, o roteiro se permite o salto de algumas semanas para retomar a história. O luto de Lindy se resume a uma sequência de fotos retiradas por seu assediador anônimo, nas quais ela aparece expressando tristeza. Relevando essa bobagem mal feita utilizada para simbolizar a passagem da primeira fase do luto para a segunda, fico agradecido por não ter sido investido muito tempo em um processo lento de recuperação de sua rotina. É muito difícil uma série conseguir cativar nossa empatia pela morte de alguém logo no segundo episódio — Six Feet Under é uma exceção. Para ocupar o lugar da dinâmica problemática do casal e a tensão sexual desdobrada entre as brigas, ganhamos diversos momentos de atrito entre a Candy Girl e Tommy que não funcionam com a força devida.

Um grande problema na série é não desenvolver a maioria do proposto como potencial, seja pelo roteiro, direção ou atores, de modo a empregar as ferramentas disponíveis da melhor forma. Um exemplo disso é o mau aproveitamento da química natural fluída no trio Lindy, Sophia e Connor. Em apenas duas cenas entre eles já nos importamos mais com o desenrolar de um diálogo do que com a investigação criminal da polícia de Nova Iorque. Na divertida cena do jantar (porque inventar a doença da mãe para não pegar carona, mas permitir um jantar oferecido por um serial-killer faz todo o sentido), tivemos um deslumbre da virtude dos atores como um time. Se a investigação fosse mais amadora e simples (três jovens adultos caçando um esquisito pela cidade), assim como no livro, o resultado seria mais satisfatório, arrisco dizer. O momento em si não tem o impacto pretendido, e aqui devo culpar a direção. Seria muito mais interessante apostar em um jogo de olhares e indiretas, em vez de satirizar a própria situação, transformando o perigo iminente em três minutos de texto desperdiçado. Se a ideia é colocar as personagens em momentos críticos, melhor seria se isso fosse de fato aproveitado, investindo em cada olhar e gesto, e não apenas acrescentando um momento embaraçoso antes de pular para o próximo.

Se a dinâmica do trio funciona bem junta (Connor tem capacidade de virar um bom alívio cômico e uma conduta de contraste às duas outras), não posso dizer o mesmo sobre a protagonista. Além de não ser muito crível toda sua sagacidade, tão empurrada pelo roteiro desde o primeiro minuto do Piloto, sua oscilação entre a garota corajosa e a mais estúpida da cidade não é muito interessante — e Justice não ajuda. A atriz apoia-se nos mesmos olhares e caretas, provando possivelmente duas coisas: a inércia de sua personagem, por mais cedo que seja para concluir isso, ou a incapacidade de conduzir um bom desempenho. É impossível sentir afinidade por quem deliberadamente decidi se colocar à mercê de perseguidores. Até posso fingir a verossimilhança presente na invasão do sistema de segurança da cidade feito da mesa de trabalho, mas me importar com alguém que acredita fazer algum sentido trabalhar adjacente à polícia da cidade (a mais boazinha do mundo, por sinal), e ainda se mostrar contra uma colaboração no primeiro instante é pedir muito esforço. Não compreendi qual é a real importância da garota para o departamento de investigação, mas, aparentemente, eles estão procurando alguém para assistir à morte de camarote.

Com tantas cenas sem importância ou destino, outras com potencial, mas fatalmente reduzidas, a verdade é que muito do roteiro precisa ser enxugado. A participação de uma personagem a mais só para ser o amigo da Lindy capaz de obter a senha do sistema de vigilância urbano mal justifica o salário do ator ou seu acréscimo ao episódio. Essa troca de suspeitos também não é interessante, pois logo no começo é imaginável a perda de tempo só para elaborar cenas “eletrizantes”. A transição das cenas também não é das melhores, porque o episódio foi dirigido pela mesma mão responsável pelos exageros no Piloto — o tom muda drasticamente depois de um debate de egos para referências ao luto de uma forma insossa. Se a atriz já não consegue carregar sozinha uma personagem “complexa”, implantar pequenas cenas de saudade e ressentimento não ajuda em nada. Sobre tudo isso, temos um hipotético mergulho na mente do assassino e sua voz ecoando pelos cenários, mas a impressão que fica é que, na verdade, molhamos apenas a ponta dos pés e sequer queremos entrar nessa lagoa — aliás, confesso ter visto um vislumbre do meu passado de ABC Familly. Pensar como o assassinado e dar espaço a ele, sendo este hipoteticamente o objetivo, seria uma boa maneira de contar a história e deslizar entre o assustador e o divertido (na nossa mórbida vontade de ver outras pessoas em risco).

Mesmo sabendo da previsível demora para algo se desenrolar de fato, algumas coisas são atiradas a nós cedo demais: Tommy já rendido de amor; um suspeito descartado, mesmo quando a construção de sua personagem começa a dar ares de esperança, só para exemplificar. Como todos sabem, menos muitas vezes é mais. Quando os erros são tão pontuais, conseguimos adiantar um bom futuro para a série, caso eles sejam consertados. A mudança de diretor, uma conversa sincera com Victoria e uma boa revisada no roteiro antes de partir para as gravações seriam mudanças suficientes para a série não mais figurar como uma quase versão preguiçosa de si mesma. Acrescentaria a eliminação da previsibilidade, de muitos temas de uma só vez e de coincidências incômodas à pilha.

Mais uma vez, Eye Candy não se compromete e não nos compromete. Ficamos por teimosia ou por fé — ou por ambos, no fim das contas.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.