A minissérie que deu origem a The Wire é tão devastadora quanto sua sucessora.
Tempo pra que?”
– Scalio
Quando comecei a assistir The Corner eu me esforcei para manter as expectativas baixas. Poucos dias atrás havia me decepcionado com Oz, a série que foi o estopim das produções originais da HBO e que abriu caminho para as maiores gigantes do canal em qualidade televisiva. Me decepcionei simplesmente porque esperava mais, e isso foi errado da minha parte. Oz era um pedra preciosa bruta que com o tempo seria lapidada até a perfeição por outras produções, e seus erros não escondiam a base estrutural que estava sendo montada para o sucesso de inúmeros seriados da atualidade. Se Oz era a antecessora cambaleante da HBO como um canal, The Corner seria a mesma coisa para The Wire como uma série. Assim, assisti sem grandes expectativas. Erro meu. Afinal estamos falando de David Simon, um Godzilla televisivo que criou a melhor série de todos os tempos. Fui totalmente devastado por The Corner assim como fui totalmente devastado por The Wire, mesmo que as duas produções tenham características muito discrepantes.
Começa pelo escopo. The Corner possui seis episódios, sendo a segunda minissérie dramática original da história da HBO, e enquanto The Wire se aventura com maestria pelo mundo da política, do jornalismo, da educação e do combate ao crime ela se restringe a um único tema: o vício das drogas e o impacto delas na comunidade de West Side Baltimore. É como assistir um spin-off focado apenas em Bubbles, e essa escolha traz alguns resultados muito interessantes. Já que não vemos o trabalho da polícia concomitantemente ao tráfico de drogas, somos isolados em uma bolha sem informações sobre o outro lado. Tudo subitamente se torna mais imprevisível: quando a polícia irá aparecer e prender nossos protagonistas? Em questão de segundos a vida de todos pode ser virada de cabeça para baixo com uma prisão em flagrante e alguns anos na cadeia, e não sabemos se isso irá acontecer. Será que existe uma investigação? Uma escuta, talvez?
Essa é a questão que mais aflige DeAndre, um dos protagonistas da minissérie. Seus pais, Gary e Fran, já viveram de forma abastada em virtude da inteligência do primeiro. Entretanto, tudo começou a desabar quando Fran começou a consumir drogas. Depois foi Gary. A riqueza da família foi sendo paulatinamente destruída, e agora os três vivem sob o jugo do tráfico de drogas. Gary e Fran são viciados, chafurdando na lama por algum pedaço de metal que possa ser vendido rapidamente e convertido em dinheiro para mais uma dose. DeAndre é um vendedor, tendo abandonado a escola para ganhar dinheiro nas ruas. The Corner gira em torno desses três personagens, uma família corroída pelo tráfico entre outras tantas na cidade de Baltimore.
Pois é aqui que está outro trunfo de The Corner, algo que pode ser a salvação e a derrota de uma produção dependendo de como é usada: a história baseada em fatos reais. Tudo é verdadeiro nessa produção, todos os personagens existiram e é visível que David Simon teve contato íntimo com eles para a produção da minissérie. The Wire registra a degradação de uma cidade criando suas próprias histórias. The Corner dá exemplos reais dessa mesma destruição, e todo o ambiente nefasto, escuro e dilapidado de The Wire, que ultrapassa qualquer elogio, é reproduzido aqui com a mesma qualidade.
Na verdade, The Corner chega a ser até mais depressiva comparativamente. O humor negro era uma característica marcante da segunda produção aqui é quase inexistente, e algumas cenas são tão opressivas que é difícil suportar tamanho sofrimento. O tom de documentário é fortalecido por entrevistas no começo de cada episódio, a caracterização é medonhamente realista e a sensação de que estamos numa viagem para o inferno é palpável. É possível sentir o efeito das drogas sobre os personagens, e em alguns momentos é como se estivéssemos assistindo um daqueles filmes sobre doenças mortais que se espalham pelo mundo trazendo o apocalipse: basta uma cena, um relance do personagem afetado para que ele seja identificado com o vício, e a partir daí sabemos muito bem onde tudo irá parar. O primeiro sintoma é a sentença de morte, e depois disso apenas assistimos embasbacados a destruição física e mental de um ser humano.
The Corner consegue ser tão intragável quanto The Wire nesse sentido, e eu realmente não a aconselho para pessoas propensas a sofrer de depressão. Na verdade estamos assistindo a um retrato apurado da nossa Cracolândia, e devo dizer que se você conhece alguém que está enterrado nesse mesmo túmulo faça com que essa pessoa assista essa minissérie. Os discursos de seus pais sobre o perigo das drogas nunca será tão efetivo para deixá-lo longe delas quanto uma sessão de The Corner. Ela está povoada com tantos momentos de reflexão pessoal, algo que o personagem de Gary faz com primazia (*), que a vários pontos da série estamos parando para pensar sobre o que está ocorrendo na tela apenas para ficarmos mais tristes com todos os acontecimentos.
(*) Gary é interpretado por T. K. Carter, que faz um trabalho fenomenal digno de Andre Royo e seu eterno Bubbles. Entretanto, ele sumiu das telinhas. Seu último trabalho foi uma participação minúscula em uma série desconhecida em 2013, e antes disso seu único crédito é por uma produção feita no longínquo ano de 2007. Assistir as obras de David Simon costumeiramente nos traz essas tristezas: atores fenomenais que desaparecerem após suas magníficas atuações.
Um desses momentos de reflexão é quando um dos vários amigos viciados de Gary fica doente e descobre que tem poucos meses de vida (ele é interpretado por um ator queridíssimo para quem assistiu The Wire, numa minissérie cheia deles). Gary o visita no hospital e outros dois parceiros aparecem para presenteá-lo com uma dose de heroína. Ele argumenta que se esse amigo parar de usar drogas ele terá mais tempo de vida, de acordo com o médico. Um dos visitantes, Scalio, lança um olhar confuso para Gary e pergunta: Tempo pra que?
Esses e tantos outros momentos que juntos transformam The Corner em uma obra pungente e devastadora. Nenhuma outra produção, televisiva ou hollywoodiana, conseguiu captar o desespero e a destruição causada pelo tráfico de drogas como David Simon e Ed Burns fizeram em suas colaborações. Você irá chorar assistindo a essa minissérie e não conseguirá extrair dela nem sequer um pingo de alegria. Você será destruído pela narrativa implacável de Simon e talvez não queira voltar nunca mais. Mas apesar de tudo isso, você irá invariavelmente reconhecer o brilhantismo dessa produção. Aproveite esse hiato e mergulhe em The Corner.
Outras observações importantes:
– The Corner é baseada num livro do mesmo nome escrito pelos dois criadores da minissérie. David Simon e Ed Burns passaram um ano nas esquinas de Baltimore observando a dinâmica da venda de drogas e seus efeitos na população da cidade. Enquanto os showrunners atualmente contratam consultores executivos para entender melhor o assunto sobre o qual discorrem, os dois criadores de The Wire colocaram a mão na massa e mergulharam na mesma escuridão que eles retratam em suas séries.
– O verdadeiro DeAndre morreu em 2012. Você pode acessar aqui o epitáfio que David Simon escreveu para ele (em inglês). Faça essa leitura após terminar de assistir The Corner. Ela será são impactante quanto todo o resto.












