A supremacia subestimada de Revenge.
Coloque o plot principal de Revenge em uma série de TV a cabo, como AMC, HBO ou Showtime, ou até mesmo o Netflix, com um número reduzido de episódios por temporada (jogaremos 13) e faça um planejamento de marketing sutil, mas eficiente com o público que queira ser atingido (jornalistas, blogueiros e fãs de séries). Dê uma ajeitada aqui e ali no roteiro, mas sem mudar muito as reviravoltas e pontos críticos de Revenge. Leitores lhes apresento uma das melhores séries da década.
O tema vingança já foi inúmeras vezes utilizado como storyline em centenas de produções artísticas, tanto como plot central como coadjuvante. Novelas brasileiras, filmes, séries, minisséries, livros, e até a bíblia já utilizou esse assunto. Quase todos os seres humanos possuem senso de justiça, seja na ficção exibida nas telas, ou na vida real, como a raiva que sentimos quando policiais, executivos ou políticos corruptos se safam após ações duvidosas, ou a alegria quando são punidos justamente. No Brasil, o caso do mensalão conseguiu prender a atenção de um público que pouco se interessava com a política, assim como de assassinatos brutais e as inúmeras reviravoltas que ocorrem até o julgamento. Nos Estados Unidos, a morte de Osama Bin Laden liberou os americanos de certa forma dos horrores de 11 de setembro, enquanto o Estado Islâmico acredita que o ocidente é o real inimigo. A partir desse senso de justiça do ser humano, por volta de 50% da força motriz de Revenge vem dessa emoção, despertando a curiosidade e como conseqüência, o justiceiro em cada um de seus telespectadores.
Muitos defendem os fracos e debilitados, passando a mão na cabeça dos necessitados, enquanto outros vivem pelo lema de ir atrás do que se quer, não ficar parado e não depender da boa vontade dos outros. Revenge consegue juntar os dois ao apresentar a história de Amanda Clarke, a filha de David Clarke, um executivo condenado por um ato terrorista ao explodir um avião comercial, entretanto usado apenas como laranja por seu chefe, Conrad Grayson. Amanda viveu por vários anos odiando o seu pai, tendo uma infância e adolescência turbulenta, até descobrir a verdade. Por fim, a vingança se torna a única saída. E como bem dito por Emily Vancamp e escrito por Mike Kelley no teaser da temporada de estreia, “Esta não é uma história sobre perdão”.
Pode-se perguntar sobre a superioridade de deixar pra trás, o famoso “forgive and forget” (perdoar e esquecer), e assim seguir em frente, entretanto, Revenge abraça a defesa dos injustiçados e corroí os verdadeiros culpados pouco a pouco. Cristãos diriam que pessoas de índole dúbia irão receber a sentença final no purgatório, espíritas corroborariam com a teoria de que se está pagando os feitos de vidas passadas, enquanto alguns outros iriam acreditar no carma, tudo de mal que se faz, um dia ainda pagará por seus atos em vida. Ao final, todos recebem a retribuição pelas atitudes realizadas. A série consegue abrir um leque enorme de assuntos ainda inexplorados, que na TV a cabo, os roteiristas teriam a liberdade de cruzar fronteiras na criação, e surpreender os telespectadores e o público crítico, mas sempre baseados no tema vingança, sem divagar muito longe (como ocorreu na muito criticada segunda temporada).
De todos os episódios já exibidos, quase todos tiveram roteiros muito bem construídos e sempre puxados através de um fio condutor bem delimitado, entretanto, alguns possuem storylines irrelevantes e poderia até mesmo dizer, erros e equívocos. Um dos pontos para isso ocorrer são as temporadas possuírem vinte e dois episódios cada, com barrigas aparecendo para atender esta demanda. Dez, doze, treze episódios por ano seria perfeito, como o criador Mike Kelley propôs para a ABC ao final da segunda temporada, todavia, sendo recusada pela emissora e originando em seu afastamento. Ao final do terceiro ano, esse fio foi queimado e a proposta inicial da série chegou ao fim, mas a quarta continua a prender a atenção e surpreendendo, o que é a alma de Revenge. Aquele gostinho de quero mais veio nesta temporada, e podemos perceber a mente brilhante dos roteiristas em esticar e criar novas histórias e por enquanto, sem perder o fôlego. Ainda há bastante lenha para pôr no fogo, entretanto, até quando este fogo irá queimar de forma rápida e não demorada?
Utilizando o clássico livro “O Conde de Monte Cristo” como inspiração, Mike Kelley tinha enorme potencial em trazer inúmeros prêmios para casa, e estar no mesmo patamar de Sons of Anarchy e Homeland com a crítica e o público aclamando a série, entretanto, a profundidade do desenvolvimento dos personagens teria que ser ainda maior, o que por um lado, traria maior compreensão das storylines, mas por outro, poderia comprometer a agilidade e o suspense de Revenge ao decorrer dos episódios, trazendo a monotonia em cena e conseqüentemente, o abandono de seus fiéis telespectadores, que como dito anteriormente, é o diferencial da série.
As protagonistas Emily Vancamp e Madeleine Stowe conseguem carregar praticamente Revenge nas costas quando o quesito é atuação. Vancamp muitas vezes é confundida como uma pessoa sem expressão, contida e extremamente tediosa em cena, porém, é preciso conhecer o seu personagem para compreender o seu excelente nível de atuação. Stowe surpreende a cada episódio através de sua máscara, que por vezes cai e nos presenteia com emoções fortes a cada momento em que a sua personagem é posta contra a parede e o sorriso falso presente na matriarca se esvazia. Os demais atores e atrizes também possuem um calibre respeitável, todavia, outros deixam a qualidade de Revenge escapar com as suas atuações medianas. Às vezes, trazer corpos sarados parece ser a prioridade para os coadjuvantes invés do talento, e isso se torna um pecado para uma série que poderia ser impecável.
Revenge está com números extremamente baixos de audiência em sua atual quarta temporada, e acho difícil passar de um quinto ano. Torço muito para uma temporada reduzida para finalizar a história inesquecível de Amanda e seu pai David, o laço de amor e ternura que originou toda a mágoa e rancor e o quão longe essas emoções podem modificar e levar o ser humano ao extremo. Não me preocupo se Revenge no final irá deixar os seus telespectadores insatisfeitos, pois todo final de temporada a série entrega episódios mestres no quesito qualidade e no fator surpresa. Apenas Amanda perdoar Victoria poderia arruinar isso, todavia, como bem dito por Emily Vancamp, essa não é uma história sobre perdão.
Revenge tinha o ouro nas mãos, mas foi lapidada erroneamente. Perdeu muito de sua essência sendo exibida por uma emissora de TV aberta, especialmente a ABC. Poderia ter cortado muitos pontos inúteis e pegado firme desde o começo no quesito suspense e deixado de lado a parte novela, e assim, atrair atenção de telespectadores que hoje não assistem ou até mesmo repudiam a série. Não acredito que a produção irá atrair o interesse de outras emissoras caso seja cancelada, e se ocorrer algum movimento administrativo de algum veículo com este objetivo, torço para que seja um canal fechado ou um site de streaming, pois Revenge ainda pode nos surpreender muito mais em qualidade e não quantidade. Vida Longa a Amanda e David Clarke.
“Antes de você embarcar em uma jornada em busca de vingança, cave duas covas”
Confucius (551 A.C. – 479 A.C.)






















