A primeira metade da nossa vida é estragada pelos pais e a segunda pelos filhos”

– Clarence Darrow 

A  Aninha era cega e sofria de um severo caso de deficiência mental que ninguém tinha coragem de perguntar qual era. Ela morava numa casa imensa, numa das melhores ruas do bairro, com a mãe, os irmãos e o padrasto. Um dos irmãos tinhas pernas atrofiadas e andava numa cadeira de rodas… Aninha era o caso mais grave, porque ela “não tinha consciência de nada”. Aquilo parecia um pouco estranho, porque alguns podiam jurar que a moça estava quase sempre zangada e raiva não deixa de ser, enfim, uma emoção consciente. Quase todas as tardes se podia vê-la, acompanhada do padrasto, no pequeno sobrado de frente pra rua, sentada e calada, enquanto seus olhos brancos se movimentavam aleatoriamente pelas órbitas.

A mãe de Aninha era uma mulher distinta, mas os dois filhos deficientes lhe sugavam a vida. O rapaz sabia andar sozinho em sua cadeira, mas a mocinha não, ela precisava ser acompanhada por todos os lugares… E assim era. Quase sempre estavam juntas, Aninha e a mãe, salvando-se aquelas tardes em que, no sobrado, a companhia de Aninha era do padrasto. Muitas vezes ouvia-se as pessoas da vizinhança dizerem “ainda bem que ela tem a mãe” e as concordâncias eram absolutas. Caramba, ainda bem mesmo. O que seria daquela pobre moça se ela não tivesse aquele braço estendido onde pudesse se defender? O problema é que um dia a barriga da Aninha começou a crescer, algo começou a se mexer dentro dela, podia-se ouvir os gritos ecoando pela rua com mais frequência e inesperadamente aqueles passeios que eram só entre ela e a mãe, passaram a ter um terceiro elemento. Aninha teve um bebê.

Eu devia ter uns 15 anos quando recebemos pela primeira vez a visita do filho dela. Como sempre vieram as duas, mas Aninha parecia menos zangada e mais perdida. O bebê, vejam só, nasceu absolutamente perfeito. Mas, a existência daquela criança levantava uma série de perguntas que a mãe da moça respondia com evidente constrangimento. A única coisa que ela dizia era “Não sei como isso aconteceu” e eu até achava que ela não devia saber mesmo, porque em seus olhos havia uma notória alienação. O problema era quando olhávamos para o pequeno Lucas… Aquela paternidade era tão evidente quanto monstruosa. Onde estava a mãe de Aninha quando aquilo aconteceu? Bem, ela estava sempre do lado da filha… Sempre.

Semana passada falei muito sobre como AHS se apoia no drama para elegantizar seu espírito macabro. Essa semana, enfim, esse recurso chegou ao seu mais extremado apogeu, com um episódio que já está na galeria dos mais maravilhosos que a série já fez, sobretudo porque ele foi apenas uma coisa: coerente. As famílias que são agraciadas com a oportunidade de viver a força da diferença quase sempre sucumbem. Naqueles tempos então, ser igual era ser correto, ser normal era ser afortunado. Deformidades que não limitam a comunicação podem ainda gerar indivíduos seguros, mas a linguagem restrita e inocente de pessoas como Pepper colocam a questão sob outros pontos de vista.

Quando apareceu em Asylum a personagem já não falava muito. Já que estamos vendo-a anos antes de chegar ao sanatório, faz sentido que suas capacidades estejam algum nível para trás. A existência para pessoas como Pepper é solitária e introspectiva e mesmo cercada de outros excluídos, ela mantinha a intimidade de seu próprio mundo. No monólogo inicial, Elsa explica como a morte natural de uma aberração não é surpreendente para o mundo, mas também explica como essa mesma morte física pode quebrar o espírito dos que estão em volta. Orphans é um episódio que atira em toda dinâmica fraternal da temporada, mas que serviu para mostrar como Pepper perdeu seu caminho e serviu também para dar a Naomi Grossman seu direito de brilhar.

Numa tacada só, vimos como Elsa começou sua coleção de freaks e como Pepper chegou como primeira aquisição. Foi um flashback muito bem estruturado e absolutamente relevante para a trama. E volto a reafirmar a competência das conexões narrativas ao observar como até mesmo Ma Petite foi ajustada na dramaturgia tendo uma função e uma base. Ela foi o bebê de Pepper assim como Salty foi o namorado. Ela esteve em conexão direta com Elsa, que nesse episódio mostrou uma certa redenção. Elsa, aliás, demonstra uma riqueza de impulsos desbundante. Existe uma obscuridade na alma dela que sempre passa por breves momentos de luz quando procura convencer a si mesma de que todas as suas ações visam a proteção dos seus. Por vezes eles são a isca, mas algumas vezes eles são mesmo só “os bebês”.

De todas as atitudes de Elsa na temporada, a de levar Pepper de volta para a irmã foi a mais complicada de desmascarar. E nem consegui, de fato. Aparentemente, ela queria mesmo apenas poupar Pepper de mais sofrimento quando ela mesma tivesse que ir embora. Toda a sequência envolvendo esse momento foi de uma delicadeza dramatúrgica histórica. E sim, eu me dou o direito de usar essa hipérbole licenciada apenas porque American Horror Story continua dando uma rasteira na agressiva conceitualização do feio e do desagradável. Ela abraça esses conceitos mentindo pra eles… Tem tanta beleza no meio daqueles dejetos que chega a sufocar às vezes. E Naomi Grossman mostrou que sua paciência para esperar a hora de brilhar tinha um propósito. Não me lembro, em nenhum momento desse ano, de ter visto um personagem tão pequeno exalar tanta importância em apenas uma chance de aparecer. Cada gesto, cada impulso, cada olhar de Pepper era uma honraria aos mais complexos estudos de interpretação. Pequeno, sutil, delicado, mas cheio de emoções milimetricamente construídas.

Nós já sabíamos como a história com a irmã ia acabar, mas havia o momento derradeiro, o mais esperado, aquele que foi anunciado e louvado sem nenhuma hesitação: a volta de Mary Eunice. Mas, eis que American Horror Story toma as rédeas de mais uma decisão inteligente e corrige essa ação verbal. Mary Eunice não voltou, não ressurgiu… Ela só apareceu. Mal posso dizer o quanto fiquei feliz com o fato de ver a personagem dentro de seu ambiente, em sua época e ritmo, sem que os roteiristas tivessem caído na tentação cafona de fazer Elsa e ela se encontrarem apenas para que Mary Eunice  dissesse: “Você me lembra alguém”. Não… Vimos apenas Pepper ser levada para o manicômio, vimos a freira fazer anotações, vimos Briarcliff num flash e demos o aplauso definitivo para essa série. Mesmo sendo uma antologia, ela deu a volta nas regras e fez o que apenas dramas correntes podem fazer: criou e explorou mitologia.

Lily Rabe é uma espécie de deusa para os fãs da série… E ela deve saber disso, porque Mary Eunice, mesmo sem capeta, estava lá, sensorial e única. Até há uma certa dose de crueldade nessa escolha, porque percebemos pela forma com que a freira desvenda Pepper, que aquela possessão demoníaca algum tempo depois aniquilaria uma mulher realmente comprometida com a reabilitação através da atenção e do amor. E tiro o chapéu de novo pro Ryan, porque acessar o mundo de Asylum no meio dessas injustiçadas e teimosas comparações, é coisa para os fortes… Se não bastasse toda a beleza daqueles instantes, o momento final adianta um espécie de spoiler-flash-forward, com Elsa numa capa de revista, aparentemente tendo conseguido firmar seu nome na televisão. Freak Show tem flertado com ilusão e previsão desde o começo, e por isso nem dá pra comprar a ideia imediatamente. Só digo que se houver concretização, essa temporada só terá sido ainda mais brilhante do que já está sendo.

Com essa verdadeira profusão de atenções direcionadas a Pepper, o restante do episódio parou e respirou, decidindo fazer a volta contrária. O horror apareceu em pequenas doses e veio através de Stanley/Spencer. Por alguma razão que ainda saberemos qual é, a temporada resiste em abordar o passado dele, ainda que o tenha feito com Maggie. Preferiram pintar o cenário do soldado, que nesse caso não era tão surpreendente como se esperava. As pistas de uma construção moral e emocional em Maggie vem sendo dadas desde sempre e a temporada acertou de novo quando fez com que a moça virasse o novo apoio dramatúrgico de Desi. A sequência das duas indo até o Museu e encontrando a cabeça de Salty e o corpo de Ma Petite já teria sido forte por si só. Mas, foi ainda melhor quando aquelas mãos que poderiam ser de Jimmy, apareceram para a surpresa delas e nossa.

As manobras de Stanley tem sido interessantes, precisamos admitir. Ele conta muito a sorte, mas sabe safar-se muito bem nesses improvisos. Convencer Jimmy a “vender as mãos” seria mesmo uma tacada de gênio, sobretudo quando ele usa o nome de Clarence Darrow, que foi mesmo um advogado famoso por sua capacidade de argumentar brilhantemente sobre coisas que eram julgadas indefensáveis. O tal “Julgamento do Macaco” foi um grande embate entre ele – um agnóstico declarado – e o acusador William Bryan, defensor ferrenho das teorias criacionárias da bíblia. Clarence defendia um professor de biologia que tentara – numa época onde era proibido – ensinar a teoria da evolução em sua aula. As argumentações e contra-argumentações desse julgamento ficaram famosas pelo caráter maximizado que tiveram numa sociedade que mitificava muito mais que esclarecia. O julgamento virou até um filme e a forma de defesa de Darrow (que derrubava interpretações bíblicas) virou referência. Darrow quase convenceu seu júri de que a religião estava errada… Será mesmo que Stanley convenceu Jimmy de que suas mãos eram sua alforria da cela?

Freak Show agora só retorna em 7 de janeiro, para um episódio que parece ser incrível, com a presença de Neil Patrick Harris e Jamie Brewer. Falta pouco para a temporada acabar e já me sinto muito satisfeito com o que vi até aqui. Orphans foi um episódio tão cheio de plenitudes, que merece estar na galeria dos melhores que já foram feitos pela série até hoje. Não só por seu aspecto dramatúrgico tão seguro, mas porque seu efeito sensorial é quase sinestésico. Podemos quase encostar no sofrimento de Pepper, quase sentir a indignação de Elsa… Podemos desejar ardentemente que seja suficiente que esses órfãos involuntários encontrem farelos de afeto pelos lugares por onde passam, quando sabemos, no fundo, que não é. Infelizmente, a única coisa em profusão na vida de uma aberração é o infortúnio. 

Pepper’s Goodbye: Stanley arrancando a cabeça de Salty como se estivesse cortando madeira num dia feliz. Se aquelas são as mãos de Jimmy, quero ver como ele as arrancou também. 

Pepper’s Goodbye 2: Episódio escrito pelo James Wong. Ele nunca me decepciona. 

Pepper’s Goodbye 3: Ma Petite chegando numa coleira foi bom demais… Melhor ainda quando é trocada por três caixas de refrigerante. 

Pepper’s Goodbye 4: Dot e Bette indo por um bom caminho depois que a cirurgia foi esquecida. Acho que agora elas começarão a explorar essa união forçada de muitas formas. E preciso mencionar também que a criatividade para resolver ângulos de cena com elas continua irrepreensível. 

Pepper’s Goodbye 5: Não, esse episódio não foi brilhante justamente porque invocou Asylum… Ele foi brilhante apesar disso.

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