Não assisti mais do que cinco capítulos da falecida série Dexter (Showtime) que trazia o talentosíssimo Michael C. Hall como “serial killer de seriais killers”, mas sei que houve uma comoção em relação ao seu polêmico final. Não li em lugar algum alguém que se mostrasse a favor do epílogo da série, que aconteceu no ano passado. Tudo bem, mas o que tem a ver falar de Dexter no review de Under The Dome? É que se você está assistindo a segunda temporada e viu o final da série de Hall, deve estar revendo seus conceitos sobre o final ruim.

Eu gostaria de começar dando um enorme “nota zero” (para me sentir mais aliviado) para direção capenga do Sr. Edward Ornelas, responsável pelo trabalho ruim de “Reconciliation”, um dos mais patéticos episódios de Under The Dome desde o primeiro episódio exibido ano passado. A falta de correção e exigência de Ornelas foram tão fundamentais para um péssimo capítulo, que ao invés de um bode expiatório, coloco-o como verdadeiro culpado e tentarei explicar minhas razões nesta parca resenha.

Antes que você diga que o roteirista Brian K. Vaughan e sua auxiliar Cathryn Humphris possuem culpa no cartório, concordo que ambos possuem alguma parcela de responsabilidade, mas a condução do episódio é que é responsável pela manutenção da audiência sentada com o traseiro na cadeira. Podemos ter um texto ruim, falho e raso, mas com uma direção meia-boca podemos suscitar algum tesão em quem assiste. O que tivemos em “Reconciliation” foi uma pataquada do início ao fim.  Irei me prender nas questões mais pontuais.

Gira o mundo, a redoma fica e só Junior não sabe que foi seu próprio tio que matou Angie.

As questões que envolvem as pessoas debaixo da redoma se tornaram tão fundamentais e vazias ao mesmo tempo, que as personagens parecem ter esquecido de uma vez por todas que estão presas e que esta situação teria consequências muito claras conforme o passar do tempo. Com uma malandragem esdrúxula, eles (produtores e diretores) não deixam claro quanto tempo se passou para que a cidade esteja passando por uma crise alimentícia e óbvio que ela viria. E quando você pensa que tudo está perdido, necessitando uma mobilização filantrópica, onde o “todo” irá importar mais do que “um”, aparece uma senhorinha com uma reserva gigantesca de comida e água, alegando que o que tem na sua humilde casa seria o suficiente para sustentar a cidade por meses. Absurda solução que não recebeu nenhuma menção durante todo o drama da cidade, nem um easter egg, nem uma simples menção do marido freak que poderia participar do reality “Acumuladores”. Mais uma ideia de girico da cabecinha dos roteiristas para safar os problemas causados pelo rolo que foi o malfadado incêndio. Aliás, verdade seja dita: o fogaréu só trouxe prejuízo moral para que a “cidade” (não me conformo com a pobreza de figurantes para uma cidade que deveria ter a participação de umas três mil pessoas) pudesse fazer sua escolha de quem deveria manter o sistema nervoso de Chester´s Mill. Depois voltamos a ela.

Enquanto isso Junior e Sam estão atrás de pistas de Lyle que justificasse a morte de Angie e Verdreaux com a habilidade e sagacidade de uma porta, consegue manipular seu sobrinho para que ele pense a partir da sua orientação. E é por isso que eu culpo os diretores supracitados no primeiro parágrafo para atuações tão ruins em vários dos episódios; os personagens de Sam, Junior, Barbie, Rebecca, Joe, Melanie são interpretados na conta do chá, sem qualquer estoque de emoção fajuta, transformando o único ator decente da série – Dean Norris – em um turbilhão de sentimentos que vem e vão, sem qualquer cerimônia. Aliás, o ator ficou com o olho esquerdo vermelho durante todo o episódio, sem que se utilizassem uma explicação para a irritação ocular. Episódio feito sob encomenda de uma criança de cinco anos.

Apesar da insistência, triângulo amoroso entre Melanie – Joe – Norrie, não funciona.

Os diretores da série (e por que não dizer o Sr. Stephen King?) são também responsáveis pelo público perder o interesse sobre o principal mistério que deveria envolver todos: Por que diabos uma redoma apareceu para cercar a cidade? Quando criou outras dúvidas para servir de cenário para a trama central, saturou os episódios de histórias secundárias sem valor para a própria aventura, ou alguém se importa se quem comanda a cidade é Big Jim, Julia ou a péssima Rebecca Pine, vivida pela atriz (?) Karla Crome. Ninguém está interessado também em como alguém que morreu em 1988 apareceu com a mesma aparência em 2014. Essas ideias deveriam ter sido resolvidas com alguma força artística. Não bastasse a ousadia de transformar uma professora de ciências (aliás, onde estão os outros professores da escola?) em uma sabe-tudo sobre biologia e epidemiologia, que tem um texto irregular, dicotômico e que não se acha em momento algum da trama.

O que dizer do trio Malhação? Norrie, interpretada pela atriz Mackenzie Litz (que não é tão ruim), até acerta nas ocasiões em que é solicitada. Ainda está com a fumacinha preta sobre a cabeça, característica que manteve desde sua primeira aparição, mas não convence nos sentimentos que sente pelo inócuo Joe, que agora é disputado por alguém que, ao menos teoricamente, é bem mais velho que ele e que deveria estar mais preocupada com o fato de ser uma espécie de morta-viva, andando por aí, sem paradeiro e sem qualquer objetivo prévio. Sabe da onde veio, como se escafedeu, mas não tem a mínima ideia para onde vai. Um desperdício de personagem. O livro é tão ruim assim?

O que falar de Phil, ex-DJ e agora um inescrupuloso xerife (ah, fala sério), que depois de sair das carrapetas da rádio, tornou-se peça fácil na mão de Big Jim, transformando ideias idiotas como a que colocou fogo na “despensa” de Chester´s Mill, em momentos patéticos no episódio.

E “Reconciliation” termina com um grande comes e bebes no restaurante da falecida Rosie, para a “cidade toda”, comemorando a abundância de mantimentos no mesmo local que estava prestes a sofrer um ataque viral para selecionar quem iria viver ou morrer.

Há chances de Under The Dome ter uma terceira temporada?

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