Para salvar-se é preciso buscar no escuro os sinais da saída.
Existe uma história sobre religião que eu ouvi uma vez, quando criança, e que deu a justa medida das diferenças entre fé e vaidade. É difícil para alguns separar as coisas, porque o sentido bruto de fé nos diz que devemos acreditar sem questionar, enquanto na maioria das vezes a fé é muito mais sobre aceitação do que sobre crença. Ter fé é aceitar o inexplicável e entender que existem estágios superiores que se relacionam conosco de formas invisíveis. Mas, isso transcende a tangente da divindade, já que fé também é uma questão de conforto e equilíbrio.
A história a que me referi era sobre um homem que estava perdendo sua casa numa inundação e depois que só restou o teto, continuava se recusando a aceitar ajuda, dizendo que Deus o salvaria porque ele era um crente em sua palavra e poder. Veio o primeiro barco e ele recusou o resgate. Veio o segundo barco e ele continuou a dizer que Deus o salvaria, recusando-se a entrar. Por fim veio um helicóptero, em última instância, mas o homem recusou novamente o socorro, terminando seus dias se afogando na inundação. Ao chegar no paraíso, questionou Deus perguntando: Sempre acreditei em sua palavra meu Deus, e mesmo assim me deixaste morrer. Deus, então, delicadamente, lhe respondeu: Eu enviei dois barcos e um helicóptero e mesmo assim preferiste recusar.
É claro que The Leftovers está estabelecendo aqui que vai falar sobre a natureza da fé. O Reverendo Matt apareceu muito rapidamente nos dois primeiros episódios, tentando fazer com que todos entendessem que se criminosos tinham sido levados, aquele evento não era uma questão de Arrebatamento; e se não estávamos falando de Arrebatamento, só podia ser uma questão de termômetro de fé. Assim, bem simples. Deus teria levado gente de todo tipo, confundindo a humanidade com a ideia do fenômeno, para que nossa capacidade de crer fosse testada. Contudo, a partida dos culpados não podia transformá-los em inocentes.
Isso aparece logo nos primeiros minutos de episódio. Matt é um homem peculiar, ambíguo, que já no monólogo inicial nos diz que, quando criança, desejou ter de volta a atenção que o nascimento da irmã tinha lhe tirado, desejando assim, implicitamente, o mal dela. Quando a doença dele veio, ficou presa entre os conceitos de benção e punição. Ele estaria sendo punido pela própria vaidade ou abençoado com a mudança de uma perspectiva? Em algum ponto da vida ele resolveu que sua vida era pautada pelo exercício da fé, ainda que aquele garoto egoísta ainda estivesse ali. Matt não vê problemas em reagir com violência, em contornar leis ou falar mal do próximo; desde que isso respeite seus próprios códigos, sempre defendidos pela crença na própria importância.
No início do episódio vimos a inscrição “Ele está sempre com você” e isso se correlaciona com todos os signos divinos que permeiam esse foco no personagem. Pai, Filho e Espírito Santo se reúnem na simbologia da Santíssima Trindade, representada pela figura de uma pomba e pelo número 3. Matt se depara com esses signos o tempo todo e para ele, esses momentos confirmam sua ligação com a própria fé. Isso, num mundo onde as pessoas não acreditam mais em Deus (como Nora) e onde pais batizam filhos escondidos de suas esposas céticas. Matt é um elo perdido de crença religiosa, e que tem uma missão: fazer o mundo voltar a acreditar, porque a fé sempre precisa ser testada. Porém, até que ponto se deve recusar a ajuda implícita que Deus envia pelas mãos do próprio homem?
The Leftovers fez um trabalho muito curioso essa semana, porque flertou com a ideia de que talvez, Matt precise aceitar a ajuda do barco e do helicóptero, e simplesmente libertar sua fé da responsabilidade de todos os seus atos. Às vezes é só teimosia, não é crença.
E então Damon Lindelof assina em neon no roteiro… Quando a narrativa se fragmenta no tempo, vemos que Matt estava no acidente de carro da abertura do piloto e isso nos ajuda a montar um pedaço maior da história. Ele não perdeu nenhum ente querido no 14 de Outubro, mas sua fé foi testada fazendo com que sua mulher ficasse em estado vegetativo. Ele perdeu também, mas sua perda se concretizou diante de seus olhos todos os dias, e é como se sabe: os mais crentes são sempre aqueles que mais perdem. Mas, volto a dizer: Muitas vezes a fé precisa reconhecer as placas de salvamento e aqui, nesse caso, quanto mais Matt luta para reafirmar seu compromisso com Deus, mas a vida lhe joga em outras direções. O problema é que pra ele, isso é para testar sua fé; quando, na verdade, isso pode ser apenas uma questão de conformidade. Deus, enfim, pode nem ter nada a ver com o Dia da Partida. Com os eventos desse episódio, Deus estaria só querendo dizer a Matt: Aceite a ajuda, entre no barco e pare de acreditar.
A coisa ganha uma perspectiva mais complexa ainda quando a gente percebe que Matt faz um trabalho de questionamento do Arrebatamento, achando que se criminosos estão sendo levados, esse não pode ser o rebanho do paraíso. Ele aqui questiona um fenômeno baseado em julgamento pessoal, mesmo que a ideia desse fenômeno se justifique por si só. A fé não residiria em acreditar que injustos seriam levados por um propósito maior? Não. Matt se recusa a não ser elegível e então se martiriza. Ele sofre, porque é nos sofredores que reside a verdadeira ligação com Cristo. E ele é o único que vê; ou – como no homem da nossa história do helicóptero – pensa que vê.
The Leftovers não está pra brincadeira… A série continua despreocupada com amarrações imediatas e muito confiante no interesse do espectador em suas discussões metafóricas. Pra mim tudo isso funciona muito bem, porque o sentimento de perda sempre foi o maior propulsor de mudanças de comportamento. E no que diz respeito aos conflitos de percepção provocados pelo Dia da Partida, The Leftovers não tem se poupado de boas e relevantes colocações. No escuro, o pânico pode levar ao fim, a não ser que você procure pelas indicações de saída.
Então vi outro anjo, que voava pelo céu e tinha na mão o evangelho eterno para proclamar aos que habitam na terra, a toda nação, tribo, língua e povo. Ele disse em alta voz: “Temam a Deus e glorifiquem-no, pois chegou a hora do seu juízo”
(Ap. 14:6-7)
As Sobras: Nora e Matt não tem uma ligação tão próxima no livro Os Deixados pra Trás, mas a série resolveu a coisa toda muito bem.
As Sobras 2: Não estou seguro disso, mas é bem provável que não seja uma coincidência que sonhos e chamas tenham sido correlacionados. De certa forma, o Arrebatamento é sempre uma lição de proteção contra os pesares do mundo… Não seria difícil ver o mundo que ficou como um estágio para a danação do inferno.














