O tempo em que todos cantavam juntos essa música nova e especial.
Em algum lugar, algum dia, eu ouvi de alguém muito mais sábio que eu, que a arte não deve temer o sentimentalismo, o chavão, o clichê… A razão era muito simples: a arte nasceu dos nossos sentimentos mais pueris. Ela veio de um amor sofrido, de uma paixão correspondida, de um anseio existencial, de um desejo proibido. A arte nasceu da nossa tentativa de eternizar as partes boas da vida e de expurgar-nos dos ácidos que nos corroem quando os trilhos se desalinham. Geralmente, todos esses sentimentos são acompanhados dos “devaneios do coração”. Expressões gestuais ou verbais que chegaram à modernidade condenadas ao ridículo.
Mesmo ali, no meio da euforia geral e unânime, Lost trazia consigo, embutida em sua dramaturgia, um flerte crescente com expressões como essas. Se no Ano 1 houve uma constante inserção velada das noções de destino e livre arbítrio (um lado escuro e outro claro), chegamos ao Ano 2 para não só reforçar essas noções, como para inserir outras, baseadas – também – em aspectos primitivos das nossas emoções. Começamos a brincar com ideias de merecimento, crime & castigo e principalmente, energia. Ela, a mais perigosa de todas. Ainda que renegada mais do que o próprio anticristo quando chegamos ao Ano 6, a “luz” de Lost e suas implicações físicas e metafísicas começaram a aparecer e se consolidar aqui. A questão é que durante a Season 2 ninguém tinha motivos para reclamar dessa nova maneira de “tocar uma canção”. Todo mundo estava louco pra subir no palanque e cantar junto.
“But you’ve gotta make your own kind of music
Sing your own special song
Make your own kind of music”
Não pode ter sido coincidência que essa tenha sido a música escolhida pela produção para iniciar a temporada de uma forma que ninguém – ninguém mesmo – estava esperando. Um homem acordando, ligando uma vitrola, preparando uma vitamina, aplicando-se uma injeção e ouvindo o barulho de um invasor. Depois de passarmos um ano diante da paisagem de uma ilha, a cena de abertura do ano seguinte revela, descaradamente, aquilo que todos nós queríamos ver: o que havia dentro da bendita escotilha.
Foi um começo de temporada que demarcou muito bem quais eram as pretensões dessa equipe de roteiristas. As ideias decididas e as outras, surgidas no decorrer do primeiro ano, foram assentadas e embasadas dentro de um hiato que definitivamente, resolveu se não todo, ao menos boa parte do futuro de Lost. A segunda temporada pode ser encarada como o início da demonstração de um planejamento que ia desde as idas e voltas nos acontecimentos desse mesmo ano, como também nas pistas do que estava por vir. E muito, muito mesmo do que acabou sendo o núcleo motivador de Lost, surgiu quando foi tomada a decisão de abordar ciência e sobrenatural, lado a lado.

O episódio de estreia se chama “Man of Science, Man of Faith” e é uma alegoria aos papéis de Jack e Locke na mitologia da série. Vamos aceitar, antes de tudo, que aqui se repete uma conceitualização que permeia toda a trama: um lado branco e outro preto, os homens da ciência e os homens da fé… É tudo uma questão de abordagem e inteligentemente, Lost também se repartiu e resolveu explorar com a mesma seriedade, os dois extremos. Principalmente porque, em perspectiva, o programa utilizou sua pesquisa para apoiar suas discussões no vasto e complexo campo da eletromagnética. Campo esse, que quando passa por qualquer pesquisa, revela uma infinidade de teorias que desfilaram pelo show de formas não só objetivas quanto veladas.
Dentro da escotilha, um personagem que seria crucial para a natureza científica da mitologia da série. Desmond é um sujeito que bebe das influências circunstanciais da série (o “destino” o levou até ali), mas que por causa de sua ligação com a fonte de boa parte da energia eletromagnética da ilha, acabou se tornando uma constante dentro dela. Pra ficar ainda mais claro, podemos até esquematizar da seguinte maneira:

Quando os sobreviventes entraram na escotilha, eles redimensionaram a série e já mostraram, desde aí, que o futuro era o entendimento da ilha de uma perspectiva tão prática quanto abstrata. E por conta disso, não podemos deixar de achar GENIAIS soluções como a do código que precisaria ser digitado a cada 108 minutos (a repetição e a importância de números) e os destroços da Iniciativa Dharma, um projeto de pesquisa que faz com que a ilha seja ainda mais real. Afinal de contas, estavam nos dizendo aqui mesmo que esse era um solo riquíssimo em energia eletromagnética maciça e o mundo, em algum momento, descobriria os desdobramentos provocados por essa constatação. Eletromagnetismo é considerado a chave para muitas das mais improváveis teorias da ciência e da física quântica, enquanto nós mesmos, indivíduos vulneráveis ao meio, podemos sim ser transformados por qualquer manifestação energética.

Em termos de narrativa, Lost deu banho. Enquanto o mistério da escotilha era revelado, a explosão da balsa levava os espectadores até um recurso que não só expande as possibilidades, como também nos presenteia com mais detalhes sobre o acidente de avião e sobre os mistérios da ilha: os sobreviventes da traseira. É curioso como Lost sempre tomou a decisão de usar até quatro episódios seguidos para abordar o mesmo período de tempo, em espaços distintos. Mas, isso aqui na season 2 não provocou o mesmo descontentamento que na temporada posterior. O jogo de escotilha-balsa-praia-sobreviventes-da-traseira segurou o espectador de forma impressionante e inaugurou a unanimidade acerca da série. Aquela, sempre perigosa, mas nesse caso, muito justa.
Eram tantas novas informações que os arrepios vinham da nuca a cada nova cena vista no ar. E tudo envolto daquela atmosfera de mistério que fazia com que uma palavra, um quadro, um rosto, tudo fosse gancho para algum tipo de teoria do que finalmente seria a ilha… E é extremamente irônico, porque a ilha já mostrava parte do que era, desde o início.
A Ilha Segundo Os Homens da Ciência = Banco de Energia Eletromagnética.
Energia essa, descoberta pelos egípcios nos tempos primordiais e mais tarde, pelos cientistas da Iniciativa Dharma. Energia essa que altera não só a estrutura do lugar, como também todo mundo que passa algum tempo exposto a ela. Assim, podemos explicar a dificuldade de gestação (confundida pelos egípcios com ação dos deuses), a cura de enfermidades e a mudança de atmosferas comportamentais. Se a Lua e as marés são capazes de nos afetar implicitamente, a energia eletromagnética e suas propriedades complexas, podem acabar fazendo muito mais do que isso.
Só nesse começo, Lost já nos manipulou emocionalmente de formas impressionantes. Locke encontrara sua importância maior e sua fé é prepotente, já que obrigar Jack a fazer parte dela é seu novo objetivo crucial. Todos se revezam para digitar o código, enquanto Hurley, sempre evitando se comprometer (o que completa sua trajetória lá no futuro), reafirma sua jornada de ajuste em seu próprio mundo.
Junto com os sobreviventes da traseira, mais detalhes sobre Os Outros, que também ENLOUQUECERAM a audiência. Código pro fim do mundo, símbolos Dharma em tubarões, monstro na mata, residentes hostis… Lost era de uma competência dramatúrgica que chegava a chocar.
E uma das decisões que foram tomadas logo no início dizia respeito à Shannon, que após a morte de Boone, ficou à deriva. No ótimo episódio dedicado a ela (Abandoned), vimos que nem sempre Shannon foi alguém que se apoiava no que sua aparência poderia lhe oferecer. E vimos claramente porque ela foi poupada para morrer exatamente nesse momento: nesse ponto, os roteiristas pareciam estar querendo incutir a ideia de que sair da ilha só era possível após o amadurecimento de um comportamento pretérito que “condenou” o indivíduo ao acidente. Essas noções aumentaram as especulações sobre purgatório justamente porque ao se importar com Vincent e Walt, Shannon quebrou o ciclo de individualismo que a tinha rotulado desde sua chegada. E sim senhores, a pequena relação dela com Sayid era uma das mais fortes da história do show.
Estava na hora, então, de redividir a narrativa. Já tínhamos a realidade da escotilha, a informação de que Os Outros eram hostis e tinham capturado Walt e um novo grupo de sobreviventes… Então, a decisão de explorar esses sobreviventes foi tomada, naquele momento que eu considero como o momento em que Lost escreveu seu nome na história e provou que ISSO ERA SABER CONTAR UMA HISTÓRIA.
Assim, com um simples teaser antes da abertura, em meros 30 segundos.
É tão simples e ao mesmo tempo tão poderoso, que me comove ainda hoje. E não só pela brilhante ideia da abertura do episódio, mas pela iniciativa de voltar 48 dias no tempo, para mostrar como a dinâmica dos sobreviventes da cauda foi diferente dos que estavam no meio do avião. Além de caírem na água (algo que acabou matando mais), a relação deles com Os Outros foi muito mais violenta, pautada em merecimento e provocando de novo uma noção de “crime e castigo” que perseguiu os fãs com ideias de paraíso e inferno. Aqui, ainda não sabíamos que o “merecimento” tinha a ver com a utilidade para a rotina dos Outros e que Jacob não tinha nada a ver com metade das ordens que eram atribuídas a ele por Ben.
Ana-Lucia era a protagonista dessa nova leva de sobreviventes e foi construída por Michelle Rodriguez com uma especial profundidade. Embora violenta, antipática e grosseira, a torcida por ela cresceu progressivamente, sobretudo porque os roteiristas foram muito espertos ao mostrarem que as atitudes dela ajudavam a proteger as outras vítimas de um verdadeiro inferno diário. Nessa pequena “volta no tempo”, um show de competência na continuidade… Vimos, por exemplo, quem falou com Boone quando ele subiu no avião do padre e tivemos, também, o primeiro flashback todo passado dentro da ilha. Um primor de episódio. Um primor…
Então, apenas algumas semanas depois da premiere é que vimos a conclusão de todos os eventos que nortearam esse começo, numa nova reunião de personagens na praia, emocional e poderosa como só Lost sabia fazer.
Respiramos um pouco no episódio que mostrou o que Kate fez para ter virado uma fugitiva. O cavalo que ela vê nesse episódio é um dos exemplos de erros cometidos pelos roteiristas, que plantavam enigmas vazios apenas para escapar de episódios inexpressivos. O apogeu disso seria na terceira temporada, no episódio sobre as tatuagens de Jack.
A respirada, entretanto, durou pouco, porque logo outro novo personagem, Mister Eko, nos traria de volta a questão da fé.
Do mesmo jeito que a cura da paralisia foi o “sinal” para Locke, o reencontro inesperado com o irmão, soa para Ecko como uma nova chance de se redimir dos próprios pecados. Esse é um momento importante da nossa busca pela sincronicidade e coesão de Lost. O monstro, até então, só tinha aparecido espontâneamente e sem violência para Locke (outro homem de fé). Em retrospectiva, sabemos que para alcançar seus objetivos futuros, o monstro-de-fumaça precisaria de algumas peças importantes desse tabuleiro e em sua forma tão ligada ao sobrenatural, fazia absoluto sentido que se mostrasse apenas para o lado crédulo da ilha. Além disso, aqui, na segunda temporada, já deixou-se estabelecido que os flashes dentro da fumaça e as imagens de pessoas mortas representam um ato de manipulação do monstro para com o interlocutor. Vale REAFIRMAR que desde o primeiro momento, o monstro-de-fumaça e as cortinas da morte sempre estiveram conectados.
Essa sincronicidade e coesão já mencionadas buscaram, espertamente, manter-se nas impressões do espectador, que embora fosse acalmado com ótimas sequências do trivialismo da ilha (Jin dando um peixe pra Ana-Lucia me comove até hoje), estava sempre sendo lembrado de que havia uma mitologia de bases muito sólidas a serem consideradas. Em Fire and Water, por exemplo, Charlie tem um sonho e nele, duas pombas, uma branca e outra preta, atravessam a praia em meio a um quadro que mostra Claire de uma forma santificada.

E já que falamos bastante sobre os possíveis efeitos da energia eletromagnética, vale uma outra menção ao que já poderia estar sendo planejado como o futuro definitivo de Lost. Numa cena em que buscam um sinal de rádio no aparelho trazido pelos sobreviventes da cauda, Sayid e Hurley ouvem uma espécie de resposta. Sayid diz que poderia vir de qualquer lugar e Hurley completa dizendo:

Entre os milhões de reverberações possíveis na hora de se lidar com a ação da energia eletromagnética, o desnivelamento do eixo de tempo e espaço da ilha seria um dos maiores pontos explorados.
Então, na metade da temporada, o roteiro deu entrada no terceiro ato desse ano, que era, inevitavelmente, a exploração dos moradores mais antigos da ilha: Os Outros. Eles poderiam ter feito isso de formas absolutamente impactantes. À essa altura, os espectadores estavam tão tensos a respeito desses personagens, que aceitariam com todo prazer, qualquer exposição hiper eloquente do tema. Mas, Damon Lindelof e Carlton Cuse foram equilibrados novamente e tomaram uma decisão que tornaram a ação e o suspense mais flexíveis, garantindo uma temporada sem barrigas.

A entrada de Michael Emerson na série foi um momento especial do show. Poucas vezes vimos um personagem tão importante para uma trama ser inserido nela de modo tão eficiente e tão perturbador. Encontrado preso numa armadilha de Russeau, aquele que se dizia Henry Gale era franzino, frágil, tinha olhos esbugalhados e uma história triste sobre ter perdido a esposa numa queda de balão.
Campeão ABSOLUTO de manipulação psicológica, Henry foi torturado e agia como um gatinho acuado na maioria do tempo. Porém, em seus enormes olhos pairava uma sombra que parecia nos dizer o tempo todo que havia alguma coisa de errado com ele. Henry mexeu tanto com a cabeça de Locke, que os efeitos disso foram sentidos em todas as temporadas seguintes. Não sabíamos nesse ponto, mas Ben e Locke eram unidos pela mesma necessidade de importância no mundo e não passavam de marionetes de quem tinha realmente o poder. No entanto, Ben jogava nesse jogo há mais tempo e conseguiu levar Locke à completa ruína.
Isso sem falar no trabalho de Michael Emerson, que era irretocável. No vídeo abaixo, assim que é descoberta sua farsa, sem nenhum texto, vemos a expressão de Henry desfigurar-se na arrogância de Ben Linus em apenas alguns segundos. Impressionante.
Logo depois disso, revisitamos o drama do desaparecimento de Claire, que serviu apenas para reforçar os improváveis laços dela com Kate (outro ponto importante para o futuro). Mas, a pressão por uma temporada tão longa obrigava os roteiristas a providenciar cada vez mais momentos de relaxamento, que nessa temporada, apareceram com bastante frequência. Em Lockdown, por exemplo, houve vários momentos como esse, intercalados apenas pela descoberta do mapa das estações Dharma pintado na parede da escotilha.

Essa descoberta se dá dentro da escotilha, portanto, o montro-de-fumaça não teria acesso a ela. Porém, quando os sobreviventes descobriram a “casa de Desmond” e passaram a apertar o botão, os planos da criatura de desestabilizar os “escolhidos” de Jacob ficou comprometido. Sendo assim, ele precisou acessar outra fonte, seu novo recruta, Ecko. Portanto, assim que Ana-Lucia morre e sua imagem passa a poder ser acessada pelo monstro, ele aparece fingindo ser ela e convence Ecko a tirar Locke da escotilha, para que com isso, a manipulação continuasse.
É bem simples: hoje, olhando pra trás, fica muito claro que ao descobrir o ponto de interrogação no local da morte de Boone, Locke redescobre uma nova faceta da mitologia com que foi obrigado a lidar. Precisamos ter em mente que a escotilha foi encontrada por ele e Boone sem NENHUMA interferência das forças da ilha, mas as forças da ilha (o monstro) agiram para convencê-lo a abandoná-la. Com Locke surtado, decidido a não apertar o botão, tudo vai pelos ares e os sobreviventes voltam à vulnerabilidade de antes.
Sob essa perspectiva, parece que a morte de Ana-Lucia fazia realmente parte de um plano perfeito para manter a coerência dos eventos. Mas jamais saberemos se foi isso mesmo ou se foi o comportamento hipotético de Michelle e Cintia nos bastidores, que resultou nesse final prematuro. Tanto uma quanto a outra já tinham conseguido se firmar no show, mas as boatarias sobre os excessos de Michelle já anunciavam que os dias dela na série estavam contados. Então, os roteiristas inauguraram uma prática que vimos muitas vezes dali pra frente: se livrar de personagens importantes ou recém-chegados de modo espetacular.
Ao mesmo tempo em que começamos a lidar com a coisa toda “da ilha dar instruções”, voltamos a nos encontrar com as noções de merecimento e punição que pairava na vida pregressa de quem tinha chegado ali no vôo 815. Foi assim com Ana-Lucia, que encontrou alguma espécie de redenção não matando Ben. Mas, não foi assim com Libby, que soou mais como um acidente de percurso. Curiosamente, foi ela, justamente, quem continuou aparecendo na série, eventualmente, mesmo depois de morta.
Era como se o “Ato Dos Sobreviventes da Cauda” estivesse se diluindo lentamente. Os roteiristas teriam resolvido o problema comportamental de uma atriz e o problema temporal de um personagem, assim, tudo numa tacada só. Walt foi uma cilada na qual a série se colocou e nunca conseguiu sair. Havia um plano pra ele, mas o personagem crescia em dias enquanto o ator crescia em anos. Os sobreviventes estavam ali há dois meses e dois anos já tinham se passado. A série se salvou como pode… Sumiu com Walt por um tempão e depois resolveu sumir com ele quase permanentemente.
Foi uma decisão frágil para o planejamento, mas boa para Michael, que movido pela culpa, protagonizou toda a ação do Season Finale. Walt tinha alguma espécie de energia sombria. Mostraram os Outros fazendo várias perguntas sobre ele, mas nunca souberam nos dizer de fato do que se tratava. Uma das perguntas feita para Michael no episódio que mostrou-o sendo recrutado para trair o grupo, era essa: “Walt já apareceu num lugar quando deveria estar em outro?”. IMEDIATAMENTE isso remete aos momentos em que Shannon vê o menino na floresta. E por que Shannon? Porque ela tinha sido escolhida por ele para proteger Vincent. Enfim… Nada soa como acidental, mas creio que a evolução de Walt ia aproximá-lo, de algum jeito, das propriedades escuras que, primordialmente, atingiram o Homem de Preto.
Enfim, chegamos ao Season Finale com Desmond sendo guardadinho na manga, pro momento certinho de voltar à cena.

Com um episódio duplo sem flashbacks de sobreviventes, a ação se concentrou em nos contar quem era Desmond e qual o verdadeiro papel da escotilha no destino daquelas vítimas. Assim como com todos os outros, Desmond tinha uma trama pessoal totalmente fundamentada. Sua história de amor com Penny seria uma das mais fortes do show, e também seria nessa trama, que descobriríamos que o passado da ilha estava, de alguma forma, conectado com as ações do presente. Desmond viria a se tornar nesse finale, parte física do eletromagnetismo da ilha e seu algoz, o pai de Penny, veria seu tiro sair pela culatra exatamente por causa disso.
Hipnotizados, é como eu classificaria os espectadores enquanto assistiam esse final de temporada simplesmente brilhante. Enquanto Jack, Kate, Hurley e Sawyer eram levados para a cova dos leões, víamos a rotina de Desmond, que chegara à ilha “acidentalmente” e dá de cara com esse experimento oriundo das organizações Dharma. A explicação dele é absolutamente verdadeira. Apoiada em bolsões de energia eletromagnética maciça (que aparecerão no futuro tanto na fenda gelada com a roda que move a ilha quanto na caverna de Across the Sea), aquele pedaço da ilha passara por um acidente que aumentava a pressão de energia até níveis insuportáveis, sendo criado por isso, um mecanismo de escape que impedisse os efeitos da liberação desse poder. Que efeitos são esses? Desnível na linha do tempo, por exemplo. Sem o botão, como controlar esses vazamentos?

Não era a digitação do código a farsa, mas sim o monitoramento disso. A tal doença que precisava ser prevenida com vacina era só um embuste para impedir os recrutas de sair da estação. Sem o escape da energia, a ilha entra num colapso e quando Desmond não digitou o código, esse colapso acabou provocando a queda do avião, em 22 de Setembro de 2004.

Aqui, destino e circunstância se encontram novamente, mas a ciência está ali, lado a lado da questão. Quando Desmond gira a chave, ele se funde à energia eletromagnética, sofre os efeitos diretos dela, a partir dali, sendo ele mesmo, a primeira evidência de desajuste na linha temporal da ilha. Esse primeiro vazamento definitivo, provocado por ele, atinge-o primeiro. O segundo, mais tarde, desestrutura as coisas num nível bem maior. Mas ali estão, categóricos, os sinais do futuro do programa. Até o efeito de luz usado na cena da explosão provocada por Desmond é o mesmo que será usado quando a ilha começar a saltar de um período pro outro.
Com isso, só nos resta assistir ao final do acordo entre Michael e Ben, que resultará no primeiro ato do ano 3, esse sim, aquele que começou a demonstrar os primeiros sinais de cansaço. Até aqui, “Todos viveram juntos e alguns começaram a morrer sozinhos”. Essa melodia chamada Lost era a mais desafiadora canção já tocada na televisão. E estávamos juntos, eufóricos, orgulhosos, extasiados com esse hino de unanimidade que vinha para mostrar que indústria e inteligência podem sim, andar juntas. Eu continuei cantando feliz, cada verso dessa música mística. De fato, eu nunca deixei de ouvi-la… porque para cada interlúdio de instrumentação sem vocal, há um refrão poderoso em seguida.

Relatórios Transitórios 1: Quem se lembra da popular comunidade do Orkut, “Matem o Michael”? Ele não era mesmo dos mais queridos.
Relatórios Transitórios 2: O carregamento de comida da Iniciativa Dharma foi uma ideia ótima pra escapar da necessidade constante de comida.
Relatórios Transitórios 3: Hurley sofreu um bocado nesse ano.. Além da esquizofrenia atacando, no episódio Dave, ele ainda perdeu seu único interesse romântico. Mas, ao menos deu uma surra em Sawyer.
Relatórios Transitórios 4: O episódio de Rose e Bernard. O que dizer?
Relatórios Transitórios 5: A estátua de quatro dedos DESCABELOU a audiência, mas a razão para sua existência só apareceu quando a vimos inteira. Esse, outro detalhe lindo de uma mitologia construída para espectadores merecedores daquela atenção.
Relatórios Transitórios 5: O quão felizes ficamos com o português falado na sequência final da temporada? Mas, infelizmente, isso não seria refletido na esperada e festejada participação de Rodrigo Santoro no ano seguinte.
See you third season brothá…















