A balança da vida.

É muito provável que os profilers da BAU não considerem o trabalho deles como um simples emprego, mas como uma opção de vida. Afinal, não é fácil ter uma vida socialmente estável quando se viaja praticamente todas as semanas, sem quaisquer datas fixas ou até mesmo comprometimento com os afazeres diários ou momentos familiares, como um simples aniversário de casamento ou uma festa na escola do seu filho. Entretanto, este não é o único problema de quem optou por caçar os serial killers mais perigosos do país, visto que os agentes enfrentam o que de pior existe na humanidade e as consequências destes embates podem ser irreparáveis em diversos contextos, seja eles ligados a uma questão física, como um tiro, seja a uma descrença nos valores, feito executado ao desistir de seguir em frente neste mundo perverso. E, por esse motivo, os profilers se questionam se realmente vale a pena viver tudo isso, de forma que seus esforços sejam recompensados somente com o intuito de salvar vidas, mesmo que isso possa significar pesadelos, dores ou perdas irreparáveis.

Para isso, existe a necessidade da criação de uma família. Entre os próprios membros da equipe deve haver uma relação que ultrapasse os limites do simples profissionalismo, porque ali se as pessoas não realmente se importarem umas com as outras, mesmo na falta de um laço sanguíneo, o mundo será bem mais perverso do que ele realmente é. Em qualquer trabalho, ter um ambiente agradável é fundamental, mas reflitamos como seria a BAU se toda aquela família não se apoiasse de forma intrínseca, em todos os momentos possíveis. Terminar um caso com um sorriso nos olhos, num cenário cercado pela escuridão, é uma sensação única por construir uma noção de dever cumprido, mas como seria se eles estivessem sozinhos? Isso seria completamente impossível, porque, como disse Mario Puzo, a força da família está na fidelidade de seus membros. Todos ali são fundamentais uns aos outros e é muito difícil mexer num time que sempre é um sucesso, nos quesitos profissional e familiar.

Mas antes que cheguemos ao propósito desta discussão acerca da família BAU, é preciso ressaltar que Demons foi um grande episódio, talvez a melhor season finale da história de Criminal Minds. O intuito aqui não é comparar finais de temporadas anteriores, mas apenas ressaltar quão impressionante foi o vigésimo quarto episódio desta nona temporada, que primou por manter um ritmo constante e consistente, com momentos de exaltação em casos particulares. A conclusão da season finale trouxe um ritmo alucinante em que praticamente todos os telespectadores estavam literalmente preparados para o pior em vista das informações divulgadas pela mídia de que um dos profilers diria adeus para sempre. O fato é, que a cada cena de ação, era esperado que alguém morresse, motivo pelo qual foram cerca de quarenta minutos de extrema tensão. Além disso, Demons caracterizou-se por ressaltar o valor familiar em várias cenas, ao passo que tentava resolver os problemas daquela pacata cidade, mas sombria em sua força policial.

O grande problema era que, no interior do Texas, não havia em quem confiar. A corrupção era absurda e os lucros com a rede de prostituição eram enormes. Dispostos até mesmo a matar agentes federais para que não perdessem seus bens e dominados por Owen McGregor – cujos diálogos não foram tão interessantes como eu esperava que seriam – não havia espaço para hesitação daqueles principiantes oficiais, porque inclusive o chefe cometeu erros banais ao deixar seu nome assinado em vários documentos, mas experientes quando os assuntos eram assassinatos e dinheiro. Fico feliz por ter cogitado na review anterior que muitos deles não eram realmente o que aparentavam ser, inclusive a sempre prestativa policial empolgada com a presença do FBI na cidade.

Entretanto, toda a conspiração existente tinha como foco principal demonstrar como os agentes, nos cenários mais inóspitos, são capazes de constituir uma família. Notável foi a preocupação de todos com a possível morte de Reid, visto que a ausência de diálogos e as simples respostas mostravam como seria difícil perder um membro da família. Mas não foram somente os agentes que sentiram esse receio, já que, quase depois de dez anos do início da série, é muito difícil que não haja por parte dos telespectadores um enorme medo de perder um personagem. Desde a ambulância, passando pelas emboscadas no carro e no hospital, até a troca de tiros no ferro-velho, Erica Messer conseguiu deixar todos aflitos com uma season finale arrepiante e fantástica.

Absolutamente todos foram fundamentais para a equipe em Demons. Enquanto Blake se preocupava com seu “filho” a todos os instantes, Rossi se abria com ela e falava como era complicado ser um agente do FBI e um marido ideal ao mesmo tempo. Reid sofrendo com o tiro era o centro das atenções, este protegido pela sempre encantadora Garcia. JJ se identificava com uma mãe, ao mesmo tempo que Hotch comandava a equipe e Morgan fazia descobertas significativas sobre o Unsub. E ainda tinha Cruz para auxiliar Hotch em caso de eventuais problemas, algo bem provável diante de tantos acontecimentos. Mesmo que todos tenham sido fundamentais, é justo dar um destaque mais especial a quatro das personagens aqui citadas: Reid, Garcia, Rossi e, finalmente, Blake.

Primeiramente, a aflição em perder Reid foi inexplicável. Presente na BAU desde o início da série, era simplesmente inaceitável se despedir de Reid numa circunstância tão inoportuna como um simples tiroteio. Ele desejava ter filhos, e as crianças mais sortudas do mundo, como diria a professora de linguística, não poderiam ficar sem um pai tão inteligente, sensato e divertido como ele. Todo seu entusiasmo com uma singela gelatina ao ver toda a preocupação dos agentes apenas reafirmou a simplicidade existente no seu eu interior, já característico dele.

Enquanto isso, Garcia saiu da sua zona de conforto para finalmente atirar em um Unsub. Ela sempre falou que decorava todo seu escritório com cores alegres para fugir da escuridão que era obrigada a vivenciar em seu trabalho. Toda a sua inocência foi ressaltada por seus olhos trêmulos e suas vozes incertas ao atirar no falso enfermeiro, ou até quando viu Owen pela primeira vez no hospital. Correr riscos e fazer coisas antes inimagináveis são coisas que só podem ser feitas por membros de uma família que literalmente se completa, como a BAU.

Por outro lado, não posso negar que senti muita pena do Rossi quando ele contou a história de trocar a vida dos outros por sua própria. Ela havia resgatado mais crianças e trazido conforto e solução para os familiares, mas havia perdido sua esposa para sempre. Somente anos mais tarde ela voltaria, diante de uma doença terminal, constatando que não compreendeu exatamente o seu marido, assim como Haley. Nesse sentido, Rossi não havia conseguido balancear sua vida, uma metáfora perfeita para o episódio e para a grande protagonista dele, Alex Blake. Para isso, sugiro que você, leitor, leia as próximas linhas aos sons da seguinte música:

Assim que ela entrou na série, substituindo a aclamada Emily Prentiss, Blake de imediato mostrou as razões pelas quais havia chegado. Inteligente, desafiadora, portadora de um passado com Strauss e dedicada. Diferentemente das outras trocas de elenco – a esquecível Seaver e inclusive Rossi e Prentiss – eu consegui aceitar Blake com facilidade por observar nela uma pessoa perspicaz, que se destacava aos poucos e conquistava seu espaço num ritmo bem constante. Aos poucos ela integrou a família BAU, mas a sua relação foi particularmente mais profunda com duas pessoas – Reid e Rossi. Os diálogos desse trio eram sempre bem construídos e sempre se notava química e sintonia perfeitas em tão pouco tempo juntos. Sei que possam existir muitas pessoas felizes com a saída da personagem, mas é bem complicado aceitar que Blake tenha deixado a série, embora seus motivos sejam mais do que compreensíveis.

Era bem mais do que a sensação de ter o seu passado na sua frente o tempo todo. Blake viu que Reid era o que melhor representava o seu maior amor, diagnosticado com uma doença neurológica ainda na infância. A possibilidade de perder seu “filho” na sua mais nova família a aterrorizou, ainda mais pelo fato de ele próprio ter a tirado da linha de fogo. Ele tinha que sair daquela situação, até porque seria algo imperdoável trocar a sua vida pela a de Reid. Ao passo que ela chorava, ela sentia que o fato de salvar vidas muitas vezes não era suficiente para tantos riscos que eles sofriam. E talvez esse tenha sido o motivo de sua saída da BAU.

Não há como negar que aquele diálogo final foi o melhor da temporada por mostrar duas pessoas que não sabiam ao certo com o que estavam lidando. Blake tinha acabado de desenterrar a verdade, que havia crescido, engasgado e reunido uma força explosiva, como disse Emile Zola, capaz de explodir tudo com ela. As memórias haviam se associado ao presente de uma forma que não era mais possível controlar e o futuro passava, mas isso se tornava a cada dia mais complexo. Já estava muito complicado gerar uma balança na vida. Acabara o equilíbrio e os pilares não mais se sustentavam. Estava na hora de estar pronto para desistir da vida que fora planejada para ter a que era esperada, como diria Joseph Campbell. E assim, aconteceu.

Blake se foi. Fazendo uma analogia com o seu filho, talvez ela estivesse preparada para ir embora da BAU, mas não estávamos preparados para dizer adeus. Como diria a música de Lily Kershaw escolhida para selar sua despedida – Maybe –  é possível que Blake tenha pensado nestas exatas mesmas palavras:

Deixe-me ir

A gravidade sempre nos pega…

Só pensei que você deve saber

Que na luz da manhã de amanhã

As coisas parecerão muito menos assustadoras

E agora, e agora, e agora… 

E agora Blake optou por um caminho distante de salvar suas vidas, mas um caminho de felicidade ao lado de seu marido, provavelmente em Harvard. Quando Reid a observou descendo as escadas, aquele bye, Blake foi sincero o suficiente para demonstrar que ela realmente estava partindo. Antes disso, só a mensagem do telefone ainda no avião e seus olhares de dúvida já faziam isso. A sua entrada no táxi somente foi mais uma metáfora para revelar a vida esperada por Blake.

Depois de uma season finale alucinante, impactante e sensacional, só deixo aqui minha singela homenagem a Alex Blake e, consequentemente, Jeanne Tripplehorn, que conseguiu driblar um mar de desconfianças para interpretar uma brilhante e carismática personagem, a qual definitivamente fará muita falta. Sei que ainda é muito cedo para especular, mas não sei ao certo se será fácil aceitar uma nova personagem com facilidade.

Obrigado a todos os que comentaram aqui neste nono ano de Criminal Minds. O retorno de vocês é muito gratificante! Foi um ano difícil para mim – com constantes atrasos, inclusive esta review – mas estarei aqui firme e forte para a décima temporada. Nestas últimas semanas, com a correria para a Copa do Mundo, foram provas atrás de provas e nenhum tempo para respirar. Espero todos vocês em setembro!

Adeus, Blake!

P.S. Sei que a review ficou gigante, mas não encontrei uma forma melhor de descrever este grande episódio…

O profile da temporada 

Não foi uma temporada brilhante em todos os episódios, mas grandiosa quando esteve diante de muitas expectativas. Foi assim em Route 66, no arco envolvendo a investigação do Pentágono e nesta season finale. Claro que alguns casos foram cansativos e repetitivos, até porque é impossível fazer nove temporadas sem que algumas histórias sejam reaproveitadas, mas foi notável a capacidade de criatividade dos roteiristas ao criar casos interessantes e empolgantes em pleno meio de temporada, como os sombrios Strange Fruit e The Caller. Em mais um ano, fomos submetidos a reflexões com episódios, como os interessantes What Happens in Mecklinburg e Fatal. Muitos foram assustadores, como The Edge of Winter e Blood Relations. E outros, como Gabby, preocupantes.

O que se consagrou nessa temporada foi a família BAU, sempre presente nos finais dos episódios. A fuga da rotina com momentos de alegria, como uma simples celebração no Día de los Muertos ou numa canção num bar lotado. Ótimo foi o retorno de Emily Prentiss mesmo que para uma pequena participação especial no incrível ducentésimo episódio e foram muito interessantes as aparições do novo chefe Cruz.

De uma forma geral, Criminal Minds construiu uma ótima temporada, manteve índices de audiência interessantíssimos (como exemplo, a finale só perdeu em audiência, para as séries dramáticas, para a finale de Scandal) e se reinventou em vários casos que poderiam ser simplesmente procedurais.

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