Depois de uma temporada como esta, só nos resta dizer: obrigado, HBO!
Apenas dois meses atrás, tudo o que tínhamos sobre Looking eram promessas. Promessas de um retrato fiel da realidade da vida gay e, principalmente, promessas de uma série capaz de conquistar um público de nicho que estava órfão de séries feitas para si. A primeira temporada passou, oito episódios passaram, e, depois de assisti-los e de encerrar esse ciclo inicial, muitas perguntas e dúvidas ficam, mas nada está mais nítido do que a sensação de missão cumprida. Looking encerra sua temporada deixando claro que cumpriu exatamente o que prometeu, com o bônus de nos dar algumas surpresas maravilhosas no caminho.
Surpresas que nem de longe passam pelas tramas de Agustín, infelizmente. Frankie foi extremamente cruel com o artista, sem dúvida, mas Agustín já cruzou a linha da empatia há muito tempo. Em nenhum momento foi possível ter pena dele por ouvir as verdades que o ex lhe dizia, muito pelo contrário. Passei toda a briga dando razão para a revolta e o comportamento de Frankie. Existem erros e erros, e, por mais que Agustín tenha, finalmente, reconhecido o babaca imbecil que foi ao longo de toda a temporada, o caminho pelo qual ele escolheu enveredar-se não tinha volta pelo simples fato de ser uma traição muito pior do que qualquer infração ao modelo monogâmico de relacionamento. Agustín cometeu uma traição gravíssima de confiança, que já seria extremamente difícil esquecer caso ele tivesse sido um bom namorado durante todo esse tempo, mas esse também não havia sido o caso. Dessa maneira, o único personagem realmente chato e odiável da série acaba no lugar onde fez de tudo pra terminar: drogado na sarjeta, sendo resgatado por nosso querido Paddy. Torço apenas para que esse golpe seja algo criado para transformar Agustín numa pessoa melhor, e espero que sua trajetória ao longo da segunda temporada busque uma redenção do personagem aos nossos olhos.
O interessante dessa história foi justamente a cena retratada na imagem acima, um claríssimo aperitivo dos produtores da série para aumentar as especulações sobre Agustín sentir uma paixão encubada por Paddy. Como eu havia dito após o sexto episódio, essa seria realmente a única maneira de me fazer perdoar o modo como ele tratou Richie, e faria muito sentido quando paramos para perceber que Agustín sempre tentou desencorajar o amigo de investir em relações específicas. Aconteceu quando Paddy embarcava no flerte com Kevin e aconteceu de novo quando Richie foi apresentado como namorado. Não que eu esteja dizendo que Agustín seja maquiavélico e tenha tramado tudo, muito pelo contrário, mas acredito que, inconscientemente, o cubano fique realmente incomodado com a ideia de Paddy se envolvendo com outros rapazes. E, se for realmente esse o caso e se Agustín começar a entender isso na próxima temporada, nosso Paddy terá uma bela dor de cabeça pela frente.
E não é como se Paddy já não tivesse dor de cabeça suficiente. Nosso caríssimo protagonista enfrentou grandes problemas e decisões bastante complicadas nesse season finale. De um lado, Richie e sua chance de um relacionamento estável. Do outro, Kevin e seus belíssima aparência e perfil semelhante ao do próprio Paddy. Em meio a tudo isso, uma gigantesca crise do namoro que, mais uma vez, evidencia a imaturidade de Patrick. Novamente instigado por Agustín, que projetou no amigo os próprios problemas conjugais (“E se já tiver acabado?”), Paddy acaba cometendo um erro que certamente vai lhe custar em algum momento: o de transar com o chefe.
Atributos físicos de Russell Tovey à parte, é incrível como a cena de sexo entre os dois gritava desconforto, mérito e sucesso absoluto da direção de Andrew Haigh. Desconforto físico, desconforto emocional, desconforto psicológico. É quase impossível que uma relação que começou toda errada daquela maneira, com traições, carência, bebedeira e um esperadíssimo “não sei” de Kevin em relação à expectativa para o futuro, dê certo. Porque, por maior que seja o interesse físico em Patrick, Kevin ainda escolhe o namorado – como se sua fissura pelo subordinado não fosse um claro sinal de que aquela relação já estaria fadada ao fracasso independentemente do que acontecesse. Talvez se Kevin tivesse começado tudo de uma maneira um pouco mais honesta, talvez se Paddy não tivesse embarcado nessa também em um momento de crise no namoro, fosse possível torcer para os dois. Mas, por enquanto, a única coisa que esse casal tem ao seu favor é o fato de darem uma bela foto para mostrar à mamãe. Eu não diria que a situação é irreversível, mas superar as circunstâncias e obstáculos que envolvem esse início de relação será uma tarefa árdua, e o primeiro pré-requisito, que nenhum dos dois personagens chegou a deixar claro que tem, é a vontade de torná-la viável.
Em um claríssimo contraste à teia de mentiras e decisões inconsequentes de Kevin e Paddy estão a entrega e a verdade de Richie. Há de se reconhecer que o mexicano foi duro demais com nosso protagonista no início do episódio, mas o nível de sinceridade na afirmação “Não quero dizer nada que me faça me arrepender depois” leva qualquer pessoa a uma imediata compreensão do que o personagem está sentindo e dos motivos que o levaram a ser tão rígido. E acaba não sendo realmente uma surpresa quando, no fim, os dois se reencontram e Richie decide encerrar a relação.
Fiquei com o coração em mil pedaços enquanto ouvia o discurso do personagem, que legitimamente mostrou o quanto se importava com aquela relação, ao ponto de compreender que ela não era mais uma possibilidade. E, o mais interessante de todo aquele discurso foi que a série já nos havia estabelecido em episódios anteriores todos os problemas de Pichie que foram citados, sempre deixado claro que esses problemas eram involuntariamente culpa da falta de maturidade de Patrick.
Não me lembro se a série nos revelou a idade de Richie, mas a sensação é sempre de que existe pelo menos uma década de maturidade de diferença entre ele e o protagonista. Paddy é vítima de uma série de amarras sociais, é 100% apegado ao modelo heteronormativo de vida – modelo construído sem espaço algum para ser vivido pelos gays, mas que segue como a espinha dorsal de todos os que sofrem com a necessidade de adaptação gerada pelo preconceito – e isso o faz enxergar mais problemas do que benefícios em seu namoro com Richie. Até mesmo a questão do racismo, que a série já deixou claro em duas ocasiões distintas que é um problema real de Paddy, é posta na mesa com sinceridade e doçura, sem a menor vitimização, em uma enorme oportunidade oferecida por Richie para que Paddy possa olhar para si mesmo e tentar crescer – e acho até que esse tipo de questionamento pode ter sido inserido ali também como um convite à reflexão ao espectador que não aceitou tão bem a relação dos dois: será que a mera aparência não tem influência nisso?
Infelizmente, para alguém que havia acabado de fazer sexo com o chefe, não restava muita alternativa senão resignar-se e aceitar o fim do namoro com Richie. Duvido muito que Paddy estivesse em paz com a própria consciência naquele momento, então como argumentar depois do que ele havia acabado de fazer? Ainda assim, não acredito que Patrick vá desistir de Richie com tanta facilidade – principalmente se ele colocar na balança a capacidade do mexicano de realmente assumir o “quase amor” que sentia, suas intenções e a consideração que tinha por Paddy –, o que provavelmente gerará conflitos interessantes na segunda temporada. Kevin seria um investimento racional para Paddy, enquanto Richie representa uma escolha emocional, inexplicável, como pudemos ver quando Paddy tenta dizer a Agustín por que o ex-namorado valia a pena e não encontra palavras para definir o que sente. É um dilema muito válido, mas de pouca importância se o protagonista não conseguir amadurecer com essas experiências e se entregar de verdade a um relacionamento.
Por fim, temos Dom, que acabou sendo o personagem com a trama menos desenvolvida da temporada. Por enquanto, ainda há muita incerteza em relação ao sucesso do restaurante, assim como ainda há muita incerteza em relação ao sucesso de sua relação com Lynn. Não tenho tanta confiança de que o sentimento de Dom pelo ex-futuro-sócio seja suficiente para viabilizar uma relação com alguém tão diferente dele. Será que a paixão tem a ver com o carinho e cuidado financeiro e profissional que Lynn ofereceu? Será que tem a ver com o fato de a diferença de idade fazer com que Dom esqueça que está envelhecendo e se sinta jovem novamente ao lado dele? Acredito que essas variáveis tenham, sim, influência, mas, por outro lado, também acredito que Dom e Lynn sejam capazes de superá-las e estejam dispostos a isso. Resta saber se essa disposição será maior ou menor do que os obstáculos que certamente virão. Mas quem tem uma linda Doris-hostess-casamenteira ao lado não tem muito com o que se preocupar, tem?
E, se a trama de Dom andou pouco, não podemos dizer o mesmo sobre seu crescimento. Provavelmente Paddy continuará imaturo na segunda temporada. Provavelmente Agustín continuará babaca e covarde na segunda temporada. Ambos têm pela frente uma longa jornada de luta contra si mesmos em busca da felicidade. Mas Dom, esse certamente não se satisfaz mais com o sexo casual por meio do Grindr ou em saunas. Começamos a série com um Dom que tinha o sexo como o centro da sua vida, mas terminamos a primeira temporada com um Dom que descobriu que sua felicidade depende de experiências e realizações muito mais concretas do que isso. E isso certamente é mais precioso do que mil restaurantes abertos.
Looking encerra sua primeira temporada com o mesmo ar de grata surpresa com o qual a iniciou. Uma série de nicho, sim, mas que cumpre com maestria o papel de representar uma nova geração de gays da década de 2010, gays que colhem os frutos de muitos direitos conquistados, e que, agora que saíram das sombras, não precisam apenas dar seguimento à luta das gerações anteriores, mas também têm a difícil missão de encontrar o próprio lugar nessa nova sociedade. E quando paramos para pensar na luta diária dos gays para encontrar a si próprios, só podemos agradecer a Looking e à HBO por entregar a eles uma obra que, mais do que render dinheiro para a emissora, é capaz de nortear seus espectadores, de fazê-los acreditar que, sim, continua havendo pessoas que enfrentam os mesmos problemas e obstáculos que você, que está assistindo e, quem sabe, dar a esse público confiança para superar as adversidades.
Obrigado a todos aqueles que acompanharam o meu trabalho ao longo desta temporada. Escrever sobre Looking e compreender a maneira como vocês enxergam a série foi uma grande realização pra mim, e espero que o meu trabalho tenha contribuído para deixar essa experiência ainda mais bacana pra vocês. Um grande abraço, e, com muita alegria digo: até 2015!















