A série mais cara-de-pau da atualidade.
Quem aqui já leu O Senhor dos Anéis, sabe que Tolkien adotou uma narrativa fragmentada que fazia montagem cinematográfica muito antes das séries terem adotado essa dinâmica (desde Lost). A trilogia não segue linearmente os eventos, interrompendo uma trajetória longa num ponto chave para só retomá-la adiante, acompanhando um núcleo de cada vez. Assim, aumenta a sensação de tempo corrido, de sortimento de ocorrências, soa tudo mais épico justamente porque enquanto uma coisa está acontecendo aqui, outras muitas estão acontecendo – partindo da própria jornada – em muitos outros lugares.
The Walking Dead segue uma dinâmica parecida desde a terceira temporada. Assim que os personagens começaram a se separar, os roteiros passaram a aproveitar-se disso, fazendo com que as tramas demorem pra colidir, usando de alternância entre os núcleos para – no caso dessa série – adiar grandes momentos. Ainda que eu tenha usado a obra de Tolkien para ilustrar o método, The Walking Dead desonra essa estratégia com uma covardia injustificada, ludibriando seus 16 milhões de espectadores com monte de episódios do mais puro e absoluto NADA.
Enquanto estávamos na prisão, alternávamos entre ela e a comunidade do Governador. Eventualmente, quando um ou outro personagem resolvia sair numa busca por suprimentos ou salvamentos, era certo que nos daríamos com um episódio INTEIRO só pra isso. Depois da queda da prisão – num episódio épico – a série descarta totalmente suas chances de renovação e ousadia e se entrega a esse mesmo chove-não-molha com a maior desfaçatez. De peito aberto, a série diz: “Não adianta reclamar, vamos enrolar até o season finale. Temos esses 16 milhões de espectadores na nossa mão”.
E eles têm mesmo… Ainda que o sentimento geral com relação à série seja de insatisfação, ainda aparece muita gente pra defender esses capítulos contemplativos. E podemos criticá-los? Não. Estamos reclamando, mas estamos aqui, escravizados, enfeitiçados. Cientes de que mesmo sendo enganados com episódios que geram lucros milionários, mas foram filmados em um set e com as mesmas maquiagens, continuaremos voltando por amor a pequenas coisas, mínimos momentos e muita, muita esperança.
O que posso falar de Still? Nada. Não tem nada pra falar que valha nosso tempo que já foi perdido assistindo-o. Basicamente, tivemos Daryl e Beth correndo na mata, entrando em casas vazias, tendo diálogos sobre o passado e sobre a culpa das perdas… Tudo que a gente já vê desde sempre, sem nenhuma mudança, sem nenhuma ousadia, sem nenhuma vergonha de fingir que essa preguiça charlatã é “profundidade”. Nessa semana, mais do que nunca, eu me senti roubado. Roubaram meu tempo e minha paciência, enquanto riem e contam lucros, sem nenhum respeito pelo público que conquistaram e que tornou essa série um fenômeno de popularidade.
O apogeu desse sentimento veio na ceninha patética do joguinho do “Eu nunca”. Já é um clichê dos interlúdios de fuga, mas piorou porque veio com a ridícula necessidade de Beth de tomar umas biritas. Então, depois de dois blocos de coisa nenhuma, vem o joguinho tentar cavar um motivo pra expressar os sentimentos ocultos de Daryl. De um jeito bem rasteiro, o personagem se altera, grita, o ator faz valer seu salário, rola uma idiota perda de controle, pra depois Daryl chorar suas mágoas com o discurso mais batido da história: a culpa auto-atribuída por razões completamente estapafúrdias.
Se você gostou dessa naba eu peço até desculpas, porque sei que estou pegando pesado mesmo. Mas eu senti raiva, ódio, sentimentos de ira que infelizmente não foram provocadas pela série pelos motivos certos. Quando esse horror terminou, lá veio a promo da semana que vem, em que o roteiro vai de novo na direção de outro núcleo de sobreviventes, e nele ficará por 43 minutos de – provavelmente – nada. E aí vamos assim… Um episódio em Rick, outro em Tyresse, outro em Glen, outro em Maggie e outro em Daryl. Se o season finale é no episódio 16 e saímos da prisão no 8, terão sido mais 8 semanas de enrolação alternada, para só aí chegarmos no próximo capítulo, na outra comunidade. Isso é absurdo. Injustificável.
Meu compromisso com a série é grande, porque eu não abandono coberturas pela metade. Porém, para garantir que vou continuar assistindo-a no quinto ano, as atmosferas propostas pelas próximas semanas vão precisar melhorar muito, vão precisar acordar desse coma, desse estado de inércia proposital que não condiz com o que ela é capaz de fazer.
Random Bites: Boa cena da cobra sendo capturada e escalpelada. Boa a cena dos enforcados transformados. Pouco me importa o que significa a inscrição “Welcome to Dogtrot” e é isso que tem pra hoje.















![The Walking Dead: The Ones Who Live 1×06: The Last Time [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2024/04/img1-218x150.jpg)