Finalmente o prato principal começa a ser servido!
Se tinha uma série que eu estava realmente ansiosa pelo retorno, essa série é Hannibal. A história sobre a origem do relacionamento entre o canibal mais famoso da dramaturgia e o profiler do FBI Will Graham, foi de fato uma das melhores séries/estreias de 2013. Bryan Fuller conseguiu, de maneira extremamente eficiente e inteligente, usar os elementos e personagens dos livros de Thomas Harris, e ao mesmo tempo conseguiu trazer sua própria história, com seu modo bem peculiar e característico. Hannibal não é somente a história de amizade, traição e perseguição entre Will e o Dr. Hannibal Lecter. Hannibal é uma história poderosa sobre o desequilíbrio e a fragilidade da mente humana.
A primeira temporada foi somente o aperitivo, agora o prato principal começa a ser servido, e que maneira sensacional de começar uma temporada. Antes de qualquer coisa, quero dizer que estou totalmente impressionada com o fato da capacidade visual de Hannibal melhorar. Eu realmente acreditava que o show visual da série havia atingido seu ápice e não havia como melhorar um aspecto já tão bem cuidado e realizado. Nunca fiquei tão feliz por um pensamento equivocado. Hannibal voltou e elevou para outro patamar esse show visual. A série conseguiu a proeza de se tornar ainda mais sensorial (e o nome do episódio deixa isso ainda mais evidente). Conseguimos sentir absolutamente tudo em Hannibal. Sentir através dos olhos, sensações e percepções dos personagens e ao tempo sentir através de nossas próprias sensações. Parabéns Bryan Fuller por atingir tamanha qualidade visual.
Hannibal também foi uma série que entregou tudo o que prometeu em sua primeira temporada. O roteiro foi eficiente em nos mostrar o intenso, interessante e inteligente jogo psicológico entre Hannibal e Will. Mas nada nos preparou para o quão sensacional seria a entrega da inversão de papéis entre os dois personagens principais. E é exatamente a partir dessa inversão que começamos a acompanhar a segunda temporada da série. Agora está claro, e até mesmo foi mencionado, que o Dr. Lecter, ocupando o lugar de profiler honorário no FBI, se transformou em Will Graham. Nem preciso dizer que Will, preso no Baltimore State Hospital for the Criminally Insane, sob os cuidados do Dr. Frederick Chilton, e respondendo por crimes que não cometeu, se transforma em Hannibal Lecter. Assim as interpretações de Hugh Dancy e Mads Mikkelsen se tornam ainda mais essenciais. Quanto a isso não teremos problemas, somente nessa season premiere os dois mostraram que estão, cada vez mais, dentro dos personagens. Inclusive, Mads chega a assustar com o quão confortável aparenta estar na pele de Hannibal Lecter.
Ainda melhor é a exploração da profundidade do buraco psicológico de Will. Buraco esse, brilhantemente, cavado pelo Dr. Hannibal Lecter. Will já sabe exatamente contra quem deve lutar e agora basta achar uma forma efetiva de fazer isso, já que hipnose mostrou ser uma maneira pouco eficiente. Mas não é somente contra Hannibal que Will deverá lutar. Ele deverá lutar para acreditarem que ele não é (tão) louco e acreditarem em sua inocência, mas mais ainda, ele precisará lutar para manter sua lucidez e até mesmo o restante de sua sanidade.
Quero aproveitar a oportunidade e “divagar” sobre a beleza poética da figura do veado em Hannibal. Durante toda a primeira temporada da série a presença, ilusória, do veado estava estampado na mente de Will, e de certa maneira, na nossa mente também. No início o veado representava a forma de associação de Will para os crimes do “Chesapeake Ripper”. Existe a lenda que o híbrido de homem e veado na realidade chama-se “Wendigo” (oi, Supernatural). Os Algoquinos (tribo que habita o nordeste da América do Norte) acreditam que os Wendigos são humanos que, após cometerem atos de canibalismo, viram demônios.
Assim, não restam mais duvidas que Will, ao ver Hannibal Lecter como um híbrido de homem e veado, entende completamente quem de fato ele é, agora só resta entender, ou lembrar, como ele age. Pelo menos, já sabemos como ele foi capaz de vomitar a orelha de Abigail Hobbs (só quero deixar claro aqui, que eu disse que ele tinha vomitado essa orelha e ninguém acreditou em mim). Mas vamos com calma, afinal levarão doze semanas para que a verdade seja exposta. Mas pensem pelo lado positivo, já que no final dessas doze semanas teremos o embate Will e Lecter, mas não antes de acontecer o embate Lecter e Crawford, e pela preview que tivemos será sensacional e promissor.
Will e Hannibal representam o começo e o fim da mesma linha, e de uma maneira perturbada podemos dizer que os dois são almas gêmeas. Portanto, claro que Hannibal sentiria saudades do controle mental imposto sobre Will, já que, antes de qualquer coisa, Will o desafia e o mantém no topo de seu jogo.
Jack Crawford se sente culpado por tudo que aconteceu com Will, e realmente deve se sentir assim. Mas mal sabe ele que essa culpa será pior, assim que ele começar a entender que Will na realidade é o mais lúcido de todos, pelo menos ao que diz respeito à Hannibal Lecter. Desculpem-me, mas eu continuo achando a Dra. Bloom desnecessária e descartável. Sim, a verdade é que eu não gosto da personagem. Não gosto do jeito como ela age soberana, não gosto do fato que ela tenta mais seduzir do que de fato ajudar, e fazer reclamações formais para o FBI não muda o fato que ela também não acredita em Will, e isso a faz ser tão culpada quanto Jack.
Mas fato é que a Dra. Bloom não tem chance, ainda mais quando existe, aqui, uma personagem feminina tão profunda e interessante quanto a Dra. Bedelia Du Maurier. Com ela temos outro tipo de possibilidade para inversão de papéis, na realidade para inversão de valores, já que acredito que é a própria Dra. Bedelia que será, de certa forma, a salvação de Will. Mas, até que isso aconteça Bryan Fuller, por favor, continue escrevendo essas cenas, sensacionais, de diálogos entre Lecter e Du Maurier.
O caso da semana, mesmo sendo um subterfúgio para continuar a exploração da fragilidade da mente humana, foi impactante e inteligente e encaixou exatamente com o propósito do episódio. O assassino quer criar modelos perfeitos. Quando paramos e pensamos, vemos que é exatamente isso que Hannibal Lecter também quer. Toda essa manipulação da mente de Will Graham é para transformá-lo no modelo perfeito de adversário, ele quer usar a mente de Will como sua própria paleta de cores, e as possibilidades são imensas.
Quem mais está alvoroçado com a futura presença de Mason e Margot Verger? É minha gente, Hannibal está de volta, e assim começa o preenchimento das lacunas. É exatamente isso que esperamos de um prato principal, preencher as lacunas deixadas pelo aperitivo e ao mesmo tempo deixar aquele espaço digno para a sobremesa.















