A escola do mistério também tem sotaque francês.
A morte, definitivamente, é o fim para quem se vê diante dela. As mais bem sucedidas produções que falaram da morte, não perderam muito tempo com os dramas dos mortos. Ironicamente, o fim de uma vida é o início das transformações de outras. Os cinco estágios do luto, os traumas resultantes da súbita perda… Tudo literalizado exaustivamente. O que poucos fizeram, enfim, foi pular um tempo longo desse processo e colocar personagens precisando confrontar-se com aquela possibilidade desastrosa: E se não tivesse acontecido? O problema é que quando os mortos de Les Revenants voltam, todos os processos significativos de choque já estavam estabelecidos. E aí… Bom senhores, aí é uma bagunça só.
Não se sabe se é a língua ou a boa e velha cartada da estética minimalista, mas o fato é que Les Revenants foi uma das estreias mais bem sucedidas dos últimos tempos e sua reputação transcorre continentes como um exemplo mais do que válido de boa produção voltada para o fantástico e o sobrenatural. A série, entretanto, aposta na fórmula certa, que é não subestimar a si mesma, focando na correta condução de seus dramas e deixando o mistério ser parte do show, não o foco absoluto dele (no início, pelo menos). Porém, colocando em perspectiva a fase pós-lostiana que engoliu a televisão mundial, Les Revenants é o primeiro escalão de uma base dramaturgica que pode ser chamada de tudo, menos de inesperada.
Os detratores podem reclamar o quanto quiserem, mas o que Damon Lindelof e Carlton Cuse conseguiram com Lost, foi estabelecer uma possibilidade cada vez maior de convencer emissoras a apostar em ideias picotadas, apoiadas apenas em perguntas, sem nenhum fator procedural e que dependem de uma absurda fidelidade de seus espectadores. De 2004 pra cá, os sonhos coloridos de showrunners espalhados pelo mundo todo puderam se tornar realidade: criar e produzir uma história fragmentada, poderosa o suficiente para viver adiando confrontos, sem perder por isso, nem um pingo de prestígio.
E não só a capacidade de poder existir na programação, mas também um pouco do espírito estético foi capturado pelo futuro. Embora Les Revenants seja mais sombria, mais melancólica, mais pautada em trabalho de ator, sua gênese está no compromisso direto com o mistério, com o cliffhanger, com a teoria e a conspiração. Tirando-se o verniz artístico das escolhas visuais, o que temos é um produto que se assemelha a todos os seus outros parceiros de crime. Uma série com um segredo, repartindo-se em flashbacks, apoiando-se em encontros e ligações pessoais, conseguindo apesar disso, ser bem sucedida no meio de tantas outras tentativas que falharam.
Dito isso, começamos com um episódio piloto que, muito espertamente, tentou se afastar de tudo isso que apontei até aqui. Numa comparação entre a primeira e a última semana, podemos perceber claramente como a série começa buscando reforçar-se pela estética e termina cedendo às seduções das surpresas e megalomanias do gênero. E eles foram muitíssimo espertos quando colocaram a história de Camille em primeiro plano. O que poderia ser mais devastador pra uma família do que perder uma de suas filhas gêmeas, depois vê-la voltar com a mesma idade, enquanto a outra, já cresceu, e finalmente se desligou de tudo que a correlacionava, inevitavelmente, com a irmã? Quando Camille volta do acidente de ônibus que a matou anos atrás, estabelece a força maior dessa primeira temporada.
Camille – a gêmea, Simon – o noivo suicida, Viktor – o garoto assassinado e Serge – o serial-killer, são os mortos que retornam como se nenhum dia, desde suas mortes, tivesse passado. Inclusive com as mesmas roupas. Esses retornos se chocam com vidas que já tinham sofrido sérias consequências e começavam a se assentar na medida do possível, porém, está nos detalhes desses regressos, a verdadeira ambição de Les Revenants. Nos primeiros episódios há uma atenção tão grande à estética, ao tom, ao minimalismo das interpretações, que parece realmente que o segredo que envolve as ressuscitações é a última coisa com a qual eles estão preocupados. Tudo muda adiante, finalmente, quando as habituais pistas começam a clarear os motivos para que ocorresse tamanho fenômeno.
Os retornos acontecem – ao que parece – apenas no âmbito da montanhosa cidadezinha do interior francês. Ao mesmo tempo em que eles ocorrem, quedas de energia acontecem constantemente e o nível de água da represa cai com cada vez mais intensidade. A aleatoriedade dos mortos escolhidos pra voltar começa a se perder quando os flashbacks vão revelando algumas ligações entre eles e os vivos que os cercavam. Os ressuscitados desenvolvem estranhas feridas no corpo e o isolamento antes sugerido, começa a surgir como uma inevitabilidade. Enfim, tudo saído da cartilha básica do drama sobrenatural contemporâneo, mas contudo, feito com uma profunda noção de bom senso e qualidade textual. A sequência inicial, com a borboleta empalhada ganhando vida, é uma das coisas mais lindas que a televisão produziu recentemente.
É somente quando nos aproximamos do final da temporada, que Les Revenants perde sua busca por um conceito imagético original e se entrega ao que se espera de produções desse tipo. A seca que assola a represa revela partes de construções do passado da cidade e isso se conecta, de alguma forma, com o que está acontecendo no presente. O roteiro, infelizmente, recorre a clichês do gênero como oráculos que “conhecem a verdade, mas só falam em enigmas” e crianças meio bizarras que soam mais malignas que desprotegidas. Volto a dizer, nada disso é feito de maneira vulgar e a série nunca perde sua forma silenciosa e elegante de se contar. Ela ainda pode ser vista com prazer e empenho, ainda resguarda pontos positivos muito dignos, mas em termos de evolução dramatúrgica, não faz seu enredo acompanhar a originalidade de sua aparência.
Mesmo assim, o Season Finale fica ambíguo, apostando em perigosos plots do “precisamos dos escolhidos conosco”, mas também ousando em escalas bem maiores, transformando a história desses personagens no centro nervoso de toda a cidade. É muito difícil levar enredos como esse e não cair no velho erro do “enigma sem fim”, quando personagens são eleitos para “conhecer o segredo”, mas, ou não falam claramente ou inventam saídas absurdas que sempre levam os protagonistas a precisarem “resgatar alguém ou alguma coisa”. Enfim, Les Revenants dá uma enganadinha no espectador mais desatento, que já toma aquela tela de cores frias, aqueles tons de vozes sussurrantes, aquela música incidental discretíssima, e já decide que isso é televisão de qualidade. É, claro, inegavelmente. Porém, no meio disso tudo está uma trama que respira os mesmos ares de outrora, e que tem seu apelo não nessa parafernália estética toda, mas naquele impulso que move todos os mesmos produtos do gênero: Por quê? Como? E o que acontece em seguida?















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