Casos de família. Com uma elegância que constrange.
Que episódio maravilhoso! Potente, poético, dinâmico, repleto de conexões. Em analogia ao ciclo da atividade sexual, se até aqui Masters of Sex trilhou um caminho de crescente excitação, penso que podemos considerar All Together Now uma maravilhosa entrada na fase de platô! (imagina quando o orgasmo chegar…).
A trama fica mais complexa e conecta de forma brilhante os personagens e suas profundas e igualmente complexas motivações. Mas curiosamente, pode-se perceber que ao aprofundar a psicologia de seus personagens, Masters of Sex está lançando mão de diversas situações clássicas e estereotipadas (em um sentido não pejorativo do termo).
Temos ali plots de larga utilização pela dramaturgia (pois são também diversas situações comuns da vida da gente, podemos concluir): triângulos amorosos, em que uma é amiga da outra; casais de meia idade redescobrindo sua sexualidade (ocultada ou desconhecida) com parceiros mais jovens; pessoas que apostam em novo amor após uma desilusão; relações marcadas por estranhamento e competição que evoluem para uma paixão.
Tudo isto está aí diante de nossos olhos, sem nos causar cansaço nem (muito pelo contrário) diminuir nosso tesão pela trama. Meu modesto palpite é que (além do glorioso desempenho do elenco, registre-se) o fascínio que estes personagens nos causam é justamente o recuo histórico doa trama. É como se observássemos todos estes dilemas que a cultura de massas usou e abusou nas últimas décadas, com a pretensão de retratar “a vida como ela é”, em seu momento de constituição, de ebulição. A vida de uma classe média dividida entre o fascínio do american dream com seu individualismo latente e a percepção dos seus limites: percepção esta, fortemente “psicologizada”, no sentido de uma descoberta interior das pessoas, uma descoberta de suas “questões” (para fazer referência a um termo psicologizado de grande uso na vida cotidiana).
Palmas lentas para Allison Janney! Sua Margaret chegou com tudo e sua história com Barton é o principal meio pelo qual vemos essas contradições da família de classe média americana. Sua interpretação da cinquentona que nunca-antes-na-história havia gozado e que renasce em jovialidade e força é um presente para nós! Até os barracos em Masters of Sex (com quebra de louça e tudo que temos direito) são classudos.
Barton representa uma história cada vez mais comum na real life, mas ainda meio obliterada na dramaturgia: a relação extraconjugal homossexual. Barton transmite uma contradição extremamente real: ele ama profundamente Margaret, but in a different way. Ele não a toca, mas ela é a mulher mais importante de sua vida, ele não se imagina sem ela, ainda que não lhe possa oferecer o que ela necessita (e agora ela está cônscia disso com todas as suas forças). A propósito, o amante dele ainda está bem apagado na trama. Mas ao que tudo indica, veremos Barton dar passos em direção a este romance, o que certamente pode ter efeitos bombásticos e ultra-interessantes para nós.
O casamento de Masters e Libby também anda na corda bamba, mas Libby tem experimentado uma outra forma de libertação, que a tem soltado mais e conferido-lhe mais pró-atividade (inclusive ao buscar continuar o tratamento para engravidar, à revelia de Masters). Entretanto, o futuro de seu casamento, sabemos, não é nada promissor!
Se o final do episódio anterior nos surpreendeu, qual não foi a surpresa ao dar o play e se deparar com o sexo entre Bill e Virginia, um momento ansiosamente aguardado, sendo lançado de forma repentina (ainda que os fios e eletrocardiogramas continuem aqui mantendo a função poética usual). Maior surpresa de todas, entretanto, é ver Masters-safadéeenho, pervertendo a retórica científica em benefício próprio (coisa absolutamente comum, aliás, ainda que raramente admitida) para testar posições (!!!) e verificar sua relação com o alcance do orgasmo.
A rapidez deste passo na trajetória de Masters e Johnson cumpre perfeitamente a função de dar seguimento às trajetórias individuais dos personagens – notadamente, a ascensão profissional de Virginia e o “degelo” de Masters. Cumpre também com a função de reavivar a chama do leito do casal Masters e, principalmente, de colocar Virginia numa posição indigesta: amiga de Libby, mas dormindo com o marido dela. Virginia está plenamente ciente de que a situação é cabeluda (a.k.a. “isso vai dar merda!”) e que ela é quem está no lugar da “outra”, da “destruidora de lares” e todas as categorias de acusação usuais para as mulheres.
Mas foi muito divertido vê-la impor a condição (PRONTAMENTE atendida por Masters) de que antes dele ter mais lesco-lesco com ela, ele tinha que comparecer em casa. Mas ao mesmo tempo que recusa ser “a outra”, nós vemos uma pontinha de ciúme despontar ao vê-lo trocar a noite de trabalho com ela para jantar com a esposa!
É uma história que veríamos no Programa do Ratinho, no Superpop, no Casos de Família, minha gente, mas vemos aqui com uma desavergonhada sutileza e uma elegante cretinice que dá até gosto!!!
Certamente, teremos outro grande momento em que o sexo entre ambos vai transgredir todos os limites que ainda estão (fragilmente) postos.
Last but not least, Dr. Haas fez por merecer uma reabilitação aqui em minhas reviews. O roteiro acerta a mão no aprofundamento do personagem, fazendo-o seguir em frente e desenvolver o que, ao menos parece ser, uma sincera amizade com Virginia (ainda que com uma invejinha ao sacar que Masters tá traçando “sua” Gini) e também com Libby. Não sei por que, mas algo insiste em me fazer achar que qualquer hora, os dois vão se pegar lá em uma consulta e ela vai ficar grávida dele (o que é uma ideia a qual eu não rechaço, de forma alguma).















